Poluição e 'comida falsa' estão entre razões do êxodo

Falsificação ou adulteração de produtos, do leite à carne de porco, deixa número incalculável de doentes

PEQUIM, O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2012 | 03h04

Poluição e uma lista interminável de escândalos envolvendo alimentos são razões mais fortes para alguns estrangeiros deixarem a China do que a barreira que impede sua assimilação pela sociedade local.

Esses também estão entre os principais motivos pelos quais uma legião de chineses está emigrando para outros países.

A falsificação ou adulteração de produtos que vão de leite à carne de porco provocou morte de crianças e deixou um número incalculável de pessoas doentes. A poluição aumentou de maneira assustadora os casos de câncer de pulmão e há dias em que ela transforma o ar de Pequim em uma nuvem leitosa.

O americano Charles Custer, jornalista, documentarista e criador do site ChinaGeeks, apresentou a poluição e a (in)segurança alimentar como as principais razões para voltar aos Estados Unidos no post "Por que estou deixando a China", publicado no fim de julho.

Na questão alimentar, Custer fez eco a um temor que atinge a maioria dos chineses, poucos dos quais têm outra opção que não seja a de consumir produtos locais, já que os importados estão muito além de seu poder aquisitivo.

'Alimentos falsos'. "As coisas chegaram a um ponto no qual é impossível ter confiança de que o que você está comendo é saudável ou mesmo real, a menos que você esteja em uma fazenda", afirmou. São comuns reportagens sobre alimentos "falsos", incluindo ovos e asas de galinha.

Muitos estrangeiros também se sentem desconfortáveis com um sistema de partido único que persegue de maneira implacável seus críticos e se mostra cada vez mais arrogante.

O britânico Mark Kitto, de 45 anos, experimentou os efeitos da ausência do estado de direito em 2004, quando o governo se apropriou do grupo de revista para a comunidade de expatriados que ele havia criado em 1998. As publicações rendiam lucros milionários e Kitto as perdeu sem receber um tostão de indenização.

Com dois filhos de 7 e 10 anos de idade, o britânico também é um crítico do sistema de ensino chinês, que para ele tem como principal objetivo treinar os alunos para serem bem-sucedidos nos inúmeros testes que terão de enfrentar. "A escola não estimula a inovação e a criatividade", disse ao Estado.

Melhora insuficiente. Há 18 anos na China, o britânico Duncan Clark, dono da consultoria em tecnologia BDA, pondera que a situação dos estrangeiros no país melhorou de maneira considerável em relação aos anos 90, quando eles eram obrigados a morar em regiões predeterminadas pelo governo.

Clark observou ainda que a hostilidade em relação aos expatriados era muito mais "palpável" em 1999, quando os Estados Unidos bombardearam a Embaixada da China em Belgrado, durante a Guerra dos Bálcãs, ou em 1993, quando o país fracassou em sua primeira tentativa de ser sede de uma Olimpíada.

Depois de viver quatro anos na China de maneira intermitente, Custer acredita que a maioria dos estrangeiros experimenta um ciclo que vai do excesso de otimismo ao cinismo.

"Como muitos estudantes de chinês, eu cheguei à China com a impressão de que o país era injustiçado pela imprensa estrangeira. Hoje eu não acredito mais nisso", disse. / C.T.

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