Ponte aérea familiar ajuda economia cubana

Desde flexibilização de viagens, milhares de parentes e de amigos levam diversos produtos para Cuba

Victoria Burnett, do The New York Times, O Estado de S.Paulo

16 de junho de 2011 | 00h00

Alejandrina Hernández embalou somente roupas leves quando voou para Havana de Miami na primavera cubana. Como sempre, ela reduziu sua bagagem ao mínimo. Refiro-me a sua bagagem pessoal, pois Alejandrina trouxe também 50 quilos de comida, roupas e remédios para sua família e outros cubanos cujos parentes nos EUA pagaram US$ 18 por quilo para o transporte dos presentes.

"Preciso ver minha família, mas essas viagens são muito caras", disse Alejandrina, que voltou oito vezes para ver o marido e a mãe nos últimos 18 meses. "Com isso, cubro as despesas." Ela faz parte de um número crescente de visitantes cubanos e cubano-americanos que vêm à ilha desde que o presidente Barack Obama levantou as restrições às viagens dos que possuem família no país, em 2009.

Economistas e agentes de viagens estimam que 400 mil passageiros voarão dos EUA para Cuba este ano, quase quatro vezes mais do que em 2008 - e mais do que em qualquer período desde que Washington rompeu laços com a ilha, há cerca de 50 anos.

Os visitantes trazem dinheiro e pacotes com bens que o embargo e os problemas econômicos de Cuba deixaram fora do alcance da população, de artigos básicos - como leite em pó, caldo de carne e vitaminas - a itens de luxo, como telefones BlackBerry e televisores de tela plana. Boa parte disso vai para as salas de visitas e despensas de parentes ou para varejistas que operam no mercado informal.

O dinheiro e os bens alimentam o nascente setor privado cubano, a frágil espinha dorsal do plano de Raúl Castro para revigorar a debilitada economia do país. Muitos empresários dizem que obtêm capital e suprimentos de parentes no exterior, como contas coloridas para artigos religiosos, moedores de pimenta para mesas de restaurantes e cera depiladora.

Os que são contra um maior contato com Cuba dizem que essa abertura simplesmente ajudam a manter o regime. O senador Marco Rubio, republicano da Flórida, cujos pais são exilados cubanos, chamou as remessas e as viagens de "a principal fonte isolada de receita para o governo mais repressivo da região". Um funcionário do Departamento de Estado, que pediu anonimato, disse que "o contato e uma maior independência econômica em relação ao Estado" ajudam a "reduzir a repressão", o que compensa os temores sobre "o governo cubano aproveitar-se indiretamente da situação".

Restrições. Em 2004, o presidente George W. Bush limitou as visitas de famílias a uma vez a cada três anos. Mas, agora, cubanos e cubano-americanos podem visitar parentes sempre que quiserem e enviar-lhes qualquer quantia de dinheiro. Obama também relaxou as restrições a viagens para quem não é cubano-americano. Em março, ele ampliou o número de aeroportos que podem oferecer voos diretos a Cuba de 3 para 11. Agora, permite que qualquer americano envie até US$ 2 mil por ano a cubanos para ajudar empresas privadas.

Manuel Orozco, especialista do Inter-American Dialogue, disse que as remessas a Cuba - estimadas em US$ 1,4 bilhão no ano passado - foram importantes para as pequenas empresas que estão brotando na ilha. No entanto, ele disse que os expatriados cubanos esperam reformas mais profundas - ou detalhes sobre as novas regras no país - antes de enviar quantias maiores. "Ninguém na diáspora investirá US$ 10 mil neste momento", disse. Ainda assim, o fluxo de visitantes alimenta uma pequena, mas crescente, cultura de consumo em Cuba. Em um país onde a maioria das pessoas ganha cerca de US$ 20 por mês em troca de serviços sociais e subsídios, qualquer tipo de consumo é visível. Arnól Rodríguez, que deixou a ilha há 11 anos e vive em Nova York, estava sentada em um hotel chique de Havana, observando seu filho e alguns amigos comendo pizza e dançando reggaeton.

"Isso é uma coisa que eles nunca puderam ter", disse Rodríguez, de 49 anos, que gastou US$ 200 presenteando dez amigos e parentes com um dia na piscina. "Não me importa quanto isso me custa." Rodríguez, em sua 14.ª viagem a Cuba, disse que trouxe sete malas com kits para seu irmão diabético, sapatos, roupas, chocolate, um PlayStation 2, dois discos rígidos e um aparelho de DVD.

Armando García, presidente da Marazul Charters, que opera voos diários entre EUA e Cuba, disse que cubanos de todos os tipos estavam comprando passagens. Mas os visitantes frequentes eram os que partiram no início dos anos 90 após a queda do comunismo na Europa. "Essa geração não é informada pela Guerra Fria, mas pela política da sobrevivência", disse Orozco.

Diferentemente dos que partiram após a Revolução Cubana, em 1959, os que migraram recentemente tendem a manter contato, trocando piadas e notícias por mensagens de texto ou e-mail. "Isso ajuda a destruir o mito da separação entre os habitantes da ilha e o 1,8 milhão da comunidade cubana nos EUA", disse Katrin Hansing, professora da City University de Nova York.

Uma vez na ilha, os emigrados reatam suas redes sociais, levando parentes para jantar, saindo para dançar com amigos, batizando seus filhos e conseguindo check-ups de médicos no sistema de saúde cubano. Leonel Morales, de 34 anos, que vive em Miami há três anos, voltou em fevereiro, pela primeira vez, para ser iniciado na "santería", o candomblé cubano. O processo teria custado três vezes mais na Flórida. Enquanto estava em Havana, Morales consultou também um médico conhecido por causa de uma dor estomacal crônica. Uma visita a um médico nos EUA teria custado US$ 7 mil.

Engano. Em Cuba, Alejandrina conta a seu marido e amigos sobre suas longas horas de trabalho como camareira, os perigos das hipotecas, as delícias do ar condicionado onipresente e da internet. "Os cubanos estão um pouco enganados sobre como é a vida nos EUA", disse. "Eles não sabem como é duro, como é preciso trabalhar. Ao mesmo tempo, você vê os frutos de seu trabalho. Você volta para cá e vê tudo caindo em pedaços."

Embora sinta muita falta da família e do cheiro do mar de Cuba, ela disse que permanecerá na Flórida até o filho de 6 anos terminar a universidade. "Tenho metade do meu coração aqui e a outra metade lá", disse Alejandrina. "O triste é que não sou realmente feliz em nenhum dos dois lugares." / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É JORNALISTA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.