Luca Zennaro/ANSA via AP
Luca Zennaro/ANSA via AP

Ponte desaba em Gênova, na Itália, e deixa ao menos 31 mortos

As buscas por vítimas continuam, e governo afirma que é possível que haja mais mortos e feridos entre os escombros da estrutura, construída entre 1963 e 1967; é a décima ponte que cai na Itália em cinco anos

O Estado de S.Paulo

14 Agosto 2018 | 08h45
Atualizado 16 Agosto 2018 | 15h15

GÊNOVA, ITÁLIA - Um trecho de 215 metros de uma ponte estaiada restaurada em 2016 em Gênova, na Itália, desabou nesta terça-feira, 14, deixando ao menos 31 mortos e 15 feridos, 4 em estado grave, segundo a Defesa Civil. O número de mortos tende a aumentar. Autoridades identificaram 19 vítimas e entre os mortos estão três crianças de 8, 12 e 13 anos. Cerca de 400 pessoas tiveram de deixar suas casas, pois mais trechos da ponte ameaçavam cair. Foi a pior tragédia do tipo na Itália, onde dez pontes caíram nos últimos cinco anos por problemas de estrutura, idade das obras e excesso de tráfego de veículos pesados.

 

Quem estava na ponte na hora do desabamento, por volta do meio-dia na Itália (7 horas em Brasília) descreveu cenas de terror. “Parecia o fim do mundo”, afirmou ao jornal Corriere della Sera Fabrizio Magnano, motorista que dirigia um caminhão no momento em que a ponte começou a ruir. Ele caiu 45 metros que separam a ponte do solo, dentro da cabine. Foi um dos poucos sobreviventes a despencar com os blocos de concreto. 

“Eu senti um golpe e parecia que tinha sido jogado longe. Por sorte eu bati em um muro antes de cair no chão, isso amorteceu a queda, eu acho. Não sei explicar. Foi um milagre”, disse Fabrizio enquanto andava, com o ombro enfaixado e mancando, em direção à ambulância. “Ouvi um estrondo e senti que estava caindo. Me segurei, bati em um muro e não me lembro de nada. Acordei e meu ombro doía, os socorristas me tiraram do caminhão. Não tenho palavras para dizer o que aconteceu”, acrescentou, ainda atônito.

O diretor da Central de Emergências de Gênova, Francesco Bermano, disse à imprensa que várias pessoas estavam sob os escombros. A chuva forte dificultava o socorro às vítimas, mas quatro pessoas foram retiradas com vida. De acordo com as autoridades, havia até 30 veículos, entre eles 3 caminhões entre os destroços. 

Testemunhas relataram ter visto um “potente relâmpago” atingir a ponte momentos antes do desabamento. “Foi um raio muito forte, que atingiu a pilastra que foi a primeira a desabar, meia hora antes”, afirmou Anna Bottaro ao jornal La Repubblica. A Associação Nacional de Engenheiros da Itália afirmou que um raio ou um temporal não é capaz de provocar o desabamento de uma ponte.

"Havia diversos para-raios na ponte, mas mesmo sem eles não faz sentido essa hipótese. O choque de um raio potente equivaleria à passagem de um caminhão pesado sobre a ponte”, disse ao Corriere Paolo Clemente, engenheiro e diretor da Associação Italiana de Engenheiros.

A hipótese mais provável para os especialistas é o desgaste provocado pelo excesso de peso. A Ponte Morandi foi construída entre 1963 e 1967. Ao longo dos anos, a sobrecarga de caminhões pesados e o tráfego intenso obrigaram as autoridades a fazer ao menos três grandes reformas. A última restauração começou em 2014 e terminou em 2016.

Logo depois da reforma surgiram sinais de desgaste. Em 2016, Antonio Brencich, professor de Engenharia Estrutural da Universidade de Gênova, afirmou que essa ponte era “uma falha de engenharia”. “Esta ponte está errada. Mais cedo ou mais tarde, terá de ser substituída”, disse.

Em entrevista ao jornal La Repubblica, Brencich disse que a ponte tinha uma estrutura “ultrapassada, tanto que só existem duas iguais no mundo, uma em Maracaibo, outra na Líbia”. A plataforma da ponte por onde passam os carros é sustentada por cabos revestidos de concreto e presos a mastros de quase 100 metros de altura. De cada mastro parte apenas um par de cabos para cada lado – diferente das pontes que têm vários cabos segurando a plataforma, como a ponte estaiada de São Paulo. “A ruptura de apenas um cabo, por corrosão ou excesso de peso, faz a ponte inteira cair”, disse Brencich.

Além da questão estrutural, especialistas alertaram nesta terça-feira, 14, jornais italianos para o problema crônico na Itália de falta de manutenção. A maioria das pontes e viadutos do país foi construída entre os anos 50 e 70, e restaurada ao longo dos anos. Nas duas últimas décadas, por causa da competição internacional provocada pela integração europeia, o peso dos caminhões que trafegam pelas estradas italianas quase triplicou: a média de 15 toneladas na década de 80 passou para 44 toneladas por caminhão hoje.

Nos últimos cinco anos, dez pontes e viadutos desabaram no país – deixando 4 mortos e 12 feridos. Segundo a associação, há ao menos 300 pontes no país que correm o risco de desabar. / AFP, ANSA, EFE, AP e REUTERS

 

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