Guglielmo Mangiapane / Reuters
Guglielmo Mangiapane / Reuters

Ponte no Mediterrâneo

A Europa deve se concentrar em sua crescente interdependência com a África

The Economist, O Estado de S.Paulo

24 Setembro 2018 | 03h00

É um hábito moderno pensar no Mar Mediterrâneo como um limite. Por mais de dois milênios, as civilizações deram seu sangue pela região e se misturaram. Os impérios romano, cartaginês, mouro e veneziano expandiram-se principalmente ao longo das rotas marítimas. Para ir da Roma imperial à Tunísia de hoje eram necessários quatro dias, mas 11 dias para alcançar Milão.

O Saara restringiu o contato entre essa região da África Austral e as regiões ao sul, mas não inteiramente. A riqueza medieval das cidades comerciais do deserto mostrava o extenso comércio norte-sul. Mais tarde, colonizadores europeus invadiram, pilharam e dividiram o continente. Soldados africanos lutaram nas trincheiras da 1.ª Guerra. Europeus combateram na África na 2.ª Guerra. Três eventos subsequentes restringiram essa interação transmediterrânea. As potências europeias saíram da África com o fim da colonização, muitos Estados africanos procuraram ficar neutros durante a Guerra Fria e os europeus se voltaram aos mercados em expansão da Ásia, à medida que a globalização se instalou. 

De maneira notável, o jargão geopolítico do momento é “Eurásia”. A Europa e a Ásia estão se integrando ao longo dos antigos caminhos da Rota da Seda, especialmente sob o esplendor da infraestrutura do Cinturão Chinês e das rodovias, mas a “Euráfrica” continua pouco discutida.

As ondas atuais de migração africana são apenas um prelúdio. Dos 2,2 bilhões de cidadãos que serão somados à população global até 2050, 1,3 bilhão serão africanos – quase o tamanho da população da China hoje. Os africanos que hoje se arriscam na viagem ao norte do outro lado do Mediterrâneo não são os mais pobres, mas aqueles que têm um celular para organizar a viagem e dinheiro para pagar contrabandistas. À medida que os países africanos prosperarem, a migração só aumentará.

O presidente francês, Emmanuel Macron, levantou esses pontos ao recomendar o livro The Rush to Europe (A corrida para a Europa, em tradução livre), publicado em francês por Stephen Smith, da Universidade de Duke, que menciona migrações passadas, como a dos mexicanos para os EUA, a fim de mostrar que o número de afroeuropeus (europeus com raízes africanas) pode subir dos 9 milhões atuais para entre 150 milhões e 200 milhões em 2050.

A interdependência cresce em outras áreas também. A Europa está cada vez mais dependente dos minerais nigerianos e liberianos, e os ambientalistas alemães sonham com usinas solares no Saara alimentando a Europa com energia limpa. A situação de segurança em uma costa do Mediterrâneo afeta cada vez mais a outra.

O caos que emergiu da Primavera Árabe em países como a Líbia provocou um surto de contrabando de drogas e armas à Europa, enquanto os ataques terroristas em Paris e Bruxelas em 2015 e 2016 foram cometidos principalmente por jovens originários do norte da África. O instituto britânico Chatham House prevê que a segurança do Estreito de Gibraltar, que divide a Espanha do Marrocos, se tornará cada vez mais tensa.

Líderes da UE se reuniram em Salzburgo nos dias 19 e 20 de setembro para discutir novos controles de fronteira e “plataformas de desembarque” do norte da África, onde os migrantes do sul poderiam ser registrados e devolvidos.

A cúpula sintetizou uma estratégia que Smith chama de “Fortaleza Europa”, que envolve reduzir a migração do norte da África a qualquer custo humano necessário, deixando apenas um pequeno número de migrantes africanos aprovados, brigando sobre quem deveria acomodá-los e então, como recompensa, canalizar uma modesta ajuda à África. Angela Merkel incentivou um “Plano Marshall para a África”, como um meio de reduzir a migração. Isso é calculado sem levar em conta o fato de que o desenvolvimento econômico aumentará o número de migrações.

Existe uma estratégia alternativa à “Euráfrica”, escreve Smith. Trata-se de aceitar a integração da África e da Europa. Alex de Waal, especialista em África da Universidade Tufts, concorda que esse é o único rumo realista. “A lógica da história é um mercado europeu-mediterrâneo que também atravessará o Saara”, diz ele. “O desafio é admitir essa realidade e torná-la mutuamente benéfica e regulamentada. Construir muros não funcionará.” Isso, ele alega, significa aumentar o papel da Europa como defensora e modelo de uma África multilateral: blocos de apoio, com base na UE, que são tanto continentais (como a União Africana) ou regionais (como a Comunidade da África Oriental e a Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental).

Significa também criar rotas regulamentadas para os migrantes que viajam nos dois sentidos. “Os migrantes africanos fornecerão boa parte da força de trabalho europeia, portanto precisamos nos indagar que parte da força de trabalho e que tipo de treinamento precisaremos fornecer”, diz De Waal. Enquanto isso, Lagos, Casablanca, Nairóbi e Kinshasa receberiam seus próprios afluxos de empresas europeias, políticos e caçadores de fortuna.

As duas opções, Fortaleza Europa versus Euráfrica, podem acabar como uma escolha entre negação e realidade. Goste ou não, a Euráfrica faz parte do destino demográfico e cultural da Europa. É melhor não ignorar ou rejeitar isso, mas descobrir como torná-lo um sucesso. / Tradução de Claudia Bozzo

© 2017 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. PUBLICADO SOB LICENÇA. TEXTO ORIGINAL ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.