Pontes para a ilha

Pontes para a ilha

Empresários americanos e funcionários cubanos sonham com o fim do embargo e põem sobre a mesa as oportunidades de negócio

MARC LACEY, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

30 de março de 2010 | 00h00

Apesar de Cuba permanecer fechada ao investimento americano, sonhadores de ambos os países estão avaliando as oportunidades de negócios que a ilha poderá oferecer quando o embargo comercial e a restrição às viagens para o país - impostos pelos EUA - forem levantados.

"Cuba tem seus problemas", disse o consultor de negócios Kirby Jones, afirmando o óbvio no início de uma reunião realizada na semana passada que levou executivos da indústria americana do turismo e representantes do governo cubano a traçarem estratégias para o que pode ocorrer - ou não - nos anos vindouros.

Jones insistiu que os potenciais investidores deveriam banir certos termos de seu vocabulário - Baía dos Porcos, dissidentes, Elián González, sequestradores e socialismo, por exemplo - e concentrar-se no fato de que o governo cubano já participa de mais de 200 joint ventures com corporações estrangeiras, nenhuma das quais é americana.

"Todos estão lá, e nós somos a única exceção", disse ele aos agentes de viagens, donos de hotéis, operadores de excursões, proprietários de companhias aéreas charter e outros que estão de olho em Cuba. "Há no país escritórios e representantes de mais de 500 empresas de todo o mundo. Ninguém sabe quando Cuba será aberta aos americanos, mas este dia chegará." Enquanto funcionários cubanos assentiam e os demais participantes se ocupavam com suas anotações, a chance de uma reviravolta nas relações entre EUA e Cuba - considerada uma possibilidade real nos primeiros dias do governo de Barack Obama - parecia pequena.

Na quarta feira, data do início da conferência, Obama estava repreendendo Cuba pelo tratamento dispensado aos dissidentes.

O funcionário cubano mais graduado presente na conferência era Manuel Marrero Cruz, ministro do Turismo.Ele disse que Cuba não estava preocupado com a possibilidade de grande número de visitantes americanos provocarem uma mudança no governo ou na cultura do país.

Quanto à probabilidade de o embargo chegar ao fim em breve, ele deu de ombros. "É impossível prever", disse Marrero. Cuba estabeleceu acordos com China, Venezuela e Irã, além de Grã-Bretanha, França e Espanha.

"Cuba já comercializa com o restante do mundo", disse Philip Peters, especialista na economia cubana e membro do Instituto Lexington, grupo de pesquisas e estudos do Estado da Virgínia. "Muitas das oportunidades já foram aproveitadas por outros." Mas Cuba pode ainda oferecer lucros vultosos a empreendedores americanos.

"Será um processo bastante lento", disse John S. Kavulich II, membro do Conselho Econômico e Comercial Cuba-EUA, de Nova York, criticando a reunião de Cancún como um evento que provavelmente não levaria nenhum dos participantes a fechar negócios reais em Cuba. Kavulich disse que os cubanos já se identificam com as marcas americanas. Ele prevê que Coca-Cola, McDonald"s e outras companhias não terão nenhum problema em se estabelecer algum dia, mesmo que as empresas estatais cubanas agora controlem o mercado de refrigerantes e fast food.

Katia Alonzo, responsável pelo Ministério do Comércio Exterior e dos Investimentos de Cuba, deixou claro que não haverá uma corrida isenta de regulamentação dos investimentos externos para Cuba. E ressaltou poucas áreas que o governo identificou como essenciais, entre elas mineração, exploração de petróleo e desenvolvimento do turismo. Ela não falou dos riscos enfrentados por uma empresa que queira operar em um país cujo governo costuma agir sem a menor restrição, como a decisão de Cuba, no ano passado, de congelar centenas de milhões de dólares depositados em contas bancárias por companhias estrangeiras. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL E ANNA CAPOVILLA

CORRESPONDENTE DO "NEW YORK TIMES"

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