AFP PHOTO/EDUARDO MUNOZ ALVAREZ
AFP PHOTO/EDUARDO MUNOZ ALVAREZ

Pontífice se reúne com vítimas de abuso sexual

Francisco destaca que crimes cometidos por sacerdotes não devem ser mantidos em segredo e promete empenho na punição dos responsáveis

Cláudia Trevisan, ENVIADA ESPECIAL / FILADÉLFIA, O Estado de S. Paulo

27 Setembro 2015 | 22h00

FILADÉLFIA - No último dia de sua visita aos Estados Unidos, o papa Francisco afirmou ontem que “os crimes e pecados” de abuso sexual de menores por sacerdotes não podem ser “mantidos em segredo por mais tempo” e prometeu vigilância para evitar novos casos e empenho na punição dos responsáveis.

“Deus chora”, afirmou o pontífice, criticado por entidades que representam as vítimas em razão da suposta timidez em confrontar o problema. 

Francisco encontrou-se na manhã de ontem com vítimas de abuso sexual e falou em seguida a um grupo de bispos e seminaristas de diversos países reunidos na Filadélfia. “Continuo angustiado pela vergonha de que pessoas que tinham sob sua responsabilidade o terno cuidado desses pequenos os violaram e lhes causaram grave dano. Eu lamento profundamente”, disse.

O tom adotado ontem foi distinto do usado pelo pontífice no início de sua visita de seis dias aos EUA, quando se mostrou mais preocupado com o impacto dos escândalos sobre os padres e bispos inocentes do que sobre as vítimas. Durante encontro com bispos americanos na quarta-feira, ele os elogiou pela “coragem” demonstrada em levar conforto às vítimas e trabalhar para que os crimes não se repitam.

“Estamos enojados e cansados de promessas das autoridades católicas”, disse em nota Becky Ianni, da Rede de Sobreviventes de Abusos de Padres (SNAP, na sigla em inglês). Apesar de ter criado um tribunal no Vaticano para julgar esses casos, o papa manteve em segredo os documentos relacionados a eles e não permitiu a divulgação da identidade dos culpados, observou. “Essa centenas de milhares de páginas sobre crimes deveriam estar nas mãos da polícia”, ressaltou Ianni. Segundo ela, o Vaticano continua a “esconder” milhares de nomes de padres que são “predadores” confessos ou comprovados.

O antecessor de Francisco, Bento XVI, também se encontrou com vítimas de abusos sexuais em sua visita ao país, em 2008. Os casos começaram a ser divulgados em meados dos anos 80 e vários bispos americanos foram acusados de encobrir a atuação de seus subordinados e não reportar seus crimes à polícia. Entre 2004 e 2013, a Igreja Católica dos EUA fechou acordos no valor total de US$ 1,7 bilhão com vítimas de abuso sexual. Outros US$ 379 milhões foram desembolsados em custas judiciais. 

No mesmo discurso aos religiosos, o papa lamentou mudanças no tratamento judicial de laços familiares, sem se referir diretamente ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. “Até recentemente, vivíamos em um contexto social no qual a afinidade entre a instituição civil (do casamento) e o sacramento cristão era forte e compartilhada, coincidiam substancialmente e se sustentavam mutuamente. Já não é mais assim.”

Apesar de lamentar mudanças no tratamento jurídico do matrimônio, Francisco afirmou que a Igreja não pode ignorar “transformações no contexto histórico” que afetam os vínculos familiares. “O cristão não é um ‘ser imune’ às mudanças de seu tempo.”

Mais conteúdo sobre:
Estados Unidos papa abuso Igreja

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.