Cláudia Trevisan / Estadão
Cláudia Trevisan / Estadão

Ponto turístico em Porto Rico convive com explosivos

Ilha de Vieques foi usada durante quase seis décadas para exercícios militares americanos que abrangiam lançamento de bombas e troca de tiros entre navios e a costa 

Cláudia Trevisan, Enviada Especial / San Juan, Porto Rico, O Estado de S.Paulo

14 Maio 2017 | 05h00

Armando Montero González é uma das centenas de pessoas que foram detidas entre 1999 e 2001 em protestos contra a presença da Marinha dos EUA na Ilha de Vieques, usada durante quase seis décadas para exercícios militares que abrangiam lançamento de bombas e troca de tiros entre navios e a costa. 

Os americanos se foram de maneira definitiva em 2003, mas deixaram uma trilha de explosivos e contaminação no local que é um dos principais destinos turísticos de Porto Rico.

Quem percorre a ilha ou mergulha em algumas de suas praias se depara com cartazes com o alerta “perigo, explosivos”, usados para delimitar áreas que não podem ser acessadas. Diretor de uma escola primária em San Juan, Montero passou um mês na prisão no ano 2000, acusado de invadir área da Marinha americana em Vieques. “Nós usamos a desobediência civil para tirar os americanos de lá.”

Os protestos na ilha atraíram ativistas dos EUA, entre os quais o reverendo Al Sharpton, condenado a 90 dias de prisão sob a mesma acusação feita a Montero. “Se Martin Luther King estivesse vivo, ele teria ido a Vieques e levantado essas questões”, declarou Sharpton em sua audiência em 2001.

Para muitos porto-riquenhos, o uso da ilha pela Marinha dos EUA é uma das expressões da condição colonial a que Porto Rico estaria submetido. “Até hoje o Congresso dos EUA não cumpriu o compromisso de aprovar financiamento para limpeza de Vieques”, ressaltou Montero.

No estudo “Bombas e bebês: Bombardeio da Marinha de Guerra dos Estados Unidos e a saúde infantil em Vieques”, publicado em dezembro, três pesquisadores da Universidade de Toronto vincularam os exercícios militares ao aumento da má-formação de fetos na ilha. O índice de câncer em Vieques é quase 30% superior ao de outras regiões de Porto Rico e o risco de seus habitantes morrerem de doenças cardiovasculares é oito vezes maior.

“O raciocínio lógico para todo nós cientistas é o que não havia nenhuma outra possível fonte de contaminação em Vieques além das práticas militares da Marinha; o excesso de mortes ou a incidência de câncer em Vieques vêm das atividades militares”, disse em entrevista à revista The Atlantic o professor de química da Universidade de Porto Rico Jorge Colón.

A Marinha americana sustenta que não há nenhuma prova de vinculação entre os exercícios e a incidência de doenças e atribui o fenômeno a outros fatores.

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