Amir Cohen/Reuters
Na cidade de Ashkelon, sistema de defesa israelense Domo de Ferro intercepta foguetes lançados da Faixa de Gaza. Amir Cohen/Reuters

Pontos de vista: como o conflito entre Israel e Hamas tem afetado a vida dos envolvidos

Brasileiro reservista do Exército israelense diz que pode ter que voltar a Israel a qualquer momento e guia turístico palestino que vive na Cisjordânia afirma não ter visto o que acontece atualmente em outros conflitos na região

Redação, O Estado de S.Paulo

18 de maio de 2021 | 10h00

O conflito entre Israel e o Hamas, grupo radical islâmico que controla a Faixa de Gaza, se agravou nos últimos dias e levou o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, a pedir um cessar-fogo entre Israel e palestinos ao conversar com o premiê israelense, Binyamin Netanyahu. Até a segunda-feira 17, o conflito deixou ao menos 200 palestinos mortos, sendo 59 crianças e 35 mulheres, de acordo com o Ministério da Saúde de Gaza, e oito pessoas, entre elas um menino de 5 anos e um soldado, mortos em Israel.

Para o brasileiro e reservista do Exército de Israel  Henry Tkacz, o Hamas usa os civis como escudo humano e isso causa o alto número de mortos do lado da Faixa de Gaza. Para o palestino Hassan Muamer, a situação atual é diferente de qualquer outra escalada de violência dos últimos anos e pode reprensentar alguma mudança.

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Reservista do Exército de Israel, brasileiro pode ter que voltar ao Oriente Médio a qualquer momento

'A grande mobilização de reservistas e a suspensão dos treinamentos militares pelo país indicam uma grande preparação do Exército israelense', diz Henry Tkacz

Renato Vasconcelos, O Estado de S.Paulo

18 de maio de 2021 | 10h00

 

Na terça-feira 11, quando o ministro da Defesa de Israel, Benny Gantz, anunciou a convocação de 5 mil reservistas pela escalada de violência entre israelenses e palestinos, Henry Tkacz recebeu uma ligação do tenente-coronel responsável pela brigada de reservistas das Forças de Defesa de Israel (IDF), informando que sua presença poderia ser requisitada.

Morador de um bairro da região central de São Paulo - que prefere não especificar por razões de segurança -, o paulistano de 27 anos é sargento da reserva do Exército israelense e pode ter que retornar ao país no Oriente Médio. "O que me foi pedido foi para ficar em 'stand by', mas a grande mobilização de reservistas e a suspensão dos treinamentos militares pelo país indicam uma grande preparação do Exército israelense, talvez para uma entrada em Gaza".

Tkacz imigrou para Israel em 2014 por meio do Alliah (ou Aliá) - programa do governo israelense que concede cidadania a membros da comunidade judaica de outros países. Como estava em idade de cumprir o serviço militar, o brasileiro ingressou na IDF, onde ficou de 2015 a 2017, e alcançou o posto de primeiro-sargento de infantaria especializada. Desde que voltou para o Brasil, em 2019 - onde trabalha ministrando cursos de treinamento armado -, o reservista israelense-brasileiro não voltou a Israel. Uma viagem até estava marcada para o próximo mês, pois ele pretendia se vacinar contra a covid-19 no país, mas o plano pode ser antecipado.

"Com toda essa situação, estou na iminência de adiantar minha passagem para qualquer voo que tiver, a partir do momento em que os reservistas forem chamados. O momento de mobilização total do Exército, no caso dos reservistas, é chamado de fase 8. É uma mensagem de celular que quando os reservistas recebem, já sabem que têm que pegar a mala e ir para a base", explica.

Israel não esteve em guerra no período em que o brasileiro ficou ativo na IDF. Apesar disso, Tkacz participou de operações contra a infraestrutura de grupos como o Hamas, em Gaza, Cisjordânia e até mesmo no Egito. A vivência na linha-de-frente da IDF moldou a opinião do militar, que desde o início do atual conflito, tem compartilhado nas redes sociais informações que diz receber de fontes internas, endossando o direito de defesa de Israel.

O reservista deixa claro que considera a atuação de grupos como o Hamas "o grande problema" para a paz na região, principalmente por, segundo ele, usarem civis como escudos-humanos, o que justificaria o número de civis mortos em bombardeios israelenses, e prega o afastamento dos "palestinos de bem" do grupo. Mas Tkacz também aponta erros do seu lado da fronteira.  "Eu acredito que a solução também passa por uma mudança na mentalidade do governo israelense, de não instalar assentamentos judaicos em áreas que palestinos já ocupam. Isso não é certo."

Para ele, o caminho para uma futura paz passa pela reconquista militar de Gaza por Israel para combater o terrorismo, e, posteriormente, a gestão pelos palestinos. "Um grande passo para uma futura paz, seria uma retomada da Faixa de Gaza, com entrega da segurança à ONU, com um governo palestino fazendo a gestão do próprio espaço deles".

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Palestino que vive na Cisjordânia conta que vive situação diferente de conflitos anteriores

'Há uma revolução começando em diferentes locais da Cisjordânia, em cidades israelenses e na fronteira com a Jordânia, com o Líbano. Honestamente, é algo que nunca vivemos', diz Hassan Muamer

Fernanda Simas, O Estado de S.Paulo

18 de maio de 2021 | 10h00

O guia turístico palestino Hassan Muamer vive em Belém, na Cisjordânia, e diz que a situação piora a cada dia em meio á escalada da violência entre Israel e Hamas. "Todos os dias, a qualquer hora, recebemos novas notícias, o que nunca aconteceu antes. Em termos do conflito entre Israel e palestinos, em termos de Intifada, isso é muito diferente de tudo que já passamos".

O palestino está acostumado a ver as tensões em Gaza porque mantém contato com os amigos que ainda moram lá, mas considera que as manifestações crescentes em cidades da Cisjordânia e de Israel - como Yaffo, Haifa, Lod e Ramle, onde a convivência entre árabes e judeus israelenses sempre foi pacífica - podem mudar o rumo do futuro da crise entre Israel e palestinos.

"Há uma revolução começando em diferentes locais da Cisjordânia, em cidades israelenses e na fronteira com a Jordânia, com o Líbano, ataques em Gaza e foguetes sendo disparados de Gaza para cá. Honestamente, é algo que nunca vivemos nesses anos de ocupação. É a primeira vez que sentimos alguma vitória, ou pelo menos, alguma mudança em terra ocorrendo. Ver todos esses atores se movimentando dá essa sensação."

Para se conectar com os amigos que estudaram com ele no Egito e atualmente vivem em Gaza, Muamer recorre à tecnologia e por meio de mensagens de WhatsApp sabe como está o conflito por lá. "A maioria fala ‘talvez essa seja nossa última conversa, nossa última oportunidade de estar em contato’ porque não eles sabem quando o próximo ataque vai acontecer É um sentimento inacreditável".

O guia turístico deixou Belém no ano passado para se isolar com a família em uma região de campo a 12 km da cidade e se proteger da pandemia de covid-19. Esse ano, com o avanço da vacinação em Israel, ele voltou, recebeu as doses contra a covid por trabalhar com ONGs internacionais, mas não imaginava que passaria pela tensão que vive hoje.

"A rotina aqui agora é ler as notícias, assistir às notícias, conversar com os conhecidos, ver novamente as notícias, esperar o momento em que os foguetes de Gaza vão vir...é uma rotina de guerra e não uma rotina de vida."

Nesta terça-feira, 18, ele andou de carro pelas ruas de Belém e comemorou o que chamou de "união do povo palestino" durante a greve geral que ocorre em Gaza, Cisjordânia e Israel. "É triste ver essa situação, mas ao mesmo tempo fico feliz por ver o povo palestino comprometido". 

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