Jalaa Marey/AFP
Manifestação na cidade mista de Jish com cartaz com a frase da Tora 'ame seu vizinho como a si mesmo', em árabe e em hebraico   Jalaa Marey/AFP

Pontos de vista: o que pensam representantes israelense e palestino no Brasil sobre o conflito 

Para o cônsul-geral de Israel, nenhum país se omitiria diante do terrorismo extremo contra seus cidadãos; para embaixador palestino, premiê israelense quer permanecer no poder a qualquer preço

Redação, O Estado de S.Paulo

19 de maio de 2021 | 05h00

No momento em que o conflito entre Israel e palestinos já fez mais de 200 mortos, Estados Unidos e Europa aumentaram a pressão diplomática por um cessar-fogo na Faixa de Gaza. Rumores de uma trégua mediada pelo Egito circularam na terça-feira, 18, mas não foram confirmados nem pelo Hamas, que controla o enclave palestino, nem por Israel. 

Pelo menos 217 palestinos foram mortos em ataques aéreos, incluindo 63 crianças, e mais de 1.500 ficaram feridos, de acordo com o Ministério da Saúde de Gaza. Doze pessoas em Israel, incluindo um menino de 5 anos, foram mortas em ataques com foguetes.

Para o cônsul-geral israelense em São Paulo, Alon Lavi, no lugar de Israel, nenhum país se omitiria diante do terrorismo extremo e da agressão contra seus cidadãos e sua soberania, sobre seu direito de existir. "Nenhum dos leitores aceitaria viver sob constante ameaça de ataques terroristas e mísseis em suas casas, no trabalho e contra sua família. Israel não tem escolha se não defender seu povo", afirma ele em artigo para o Estadão. 

Na opinião do embaixador palestino, Ibrahim Alzeben, Israel tem um plano inicial, desde antes de sua existência enquanto Estado, que é tomar à força toda a Palestina. Para ele, o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu seguirá com a escalada da violência até cumprir seu objetivo: "Permanecer no comando do governo, não importa a qual preço. Mas o mundo pode deter a catástrofe." 

 

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Para embaixador palestino, Netanyahu quer permanecer no poder a qualquer preço; leia artigo

'Israel tem um plano inicial, desde antes de sua existência enquanto Estado, promovido à força: tomar toda a Palestina, com a menor população palestina, ou mesmo sem nenhum palestino'

Ibrahim Alzeben, O Estado de S.Paulo

19 de maio de 2021 | 05h00

Israel tem um plano inicial, desde antes de sua existência enquanto Estado, promovido à força: tomar toda a Palestina, com a menor população palestina, ou mesmo sem nenhum palestino. Então, podemos enquadrar a atual situação neste cenário geral permanente, que é uma política oficial, nunca escondida, especialmente de seus protetores. Mas hoje podemos dizer que Israel agravou a situação em Jerusalém (em Sheikh Jarrah e na mesquita de Al-Aqsa) e em Gaza para alcançar objetivos políticos internos, regionais e internacionais.

No nível doméstico, Binyamin Netanyahu tentou se reorganizar, mexendo as cartas e manipulando suas alianças para encobrir seu fracasso na formação de um governo viável e para fugir das investigações de corrupção e dos julgamentos que o aguardam, utilizando o sangue palestino. Tudo o que Netanyahu fez foi para tentar paralisar seus oponentes, desviar a atenção do público israelense de seu julgamento e superar as manifestações que exigem sua renúncia. E assim segue sendo.

As apostas políticas de Netanyahu ultrapassam fronteiras, tal qual suas agressões bélicas. Quanto à Palestina, ele pretende enfraquecer as forças políticas e seguir a narrativa já cansativa de mostrá-las como agressores e terroristas. Além disso, renova o bloqueio às saídas negociadas sob o pretexto infundado de que a Autoridade Palestina não pode se sentar às mesas de negociação por não representar a população palestina residente na Faixa de Gaza. O bloqueio às eleições palestinas é parte desta estratégia.

Na cena regional, o primeiro endereço das intenções israelenses é a Jordânia e a mensagem é clara: Israel é que tem a custódia de Jerusalém, inclusive de seus sítios sagrados, como a Esplanada das Mesquitas e a Igreja do Santo Sepulcro. E, numa escala regional mais ampla, transmite mensagem aos países árabes de que a continuidade do processo de normalização não se vincula à resolução da questão palestina, o que faz ruir o discurso público que justificava estas iniciativas, conforme as apresentava o ex-presidente dos EUA Donald Trump, de que facilitariam uma solução pacífica que levaria à criação de um Estado palestino, versão contestada pela liderança palestina.

No plano internacional, a mensagem seria de que Israel não tem medo do Tribunal Penal Internacional ou do Conselho de Direitos Humanos da ONU. Há também um recado aos EUA e ao governo de Joe Biden para que não ousem desafiar Israel. A extensão da violência usada pelos israelenses em Gaza, Jerusalém e na Cisjordânia reflete um Estado de fraqueza, porque é vingança e retaliação.

A explosão popular palestina dentro de Israel reflete o fracasso de suas estimativas, para não mencionar o fracasso de suas avaliações quanto ao valor que a mesquita de Al-Aqsa tem na consciência palestina. Ele subestimou a capacidade e determinação do povo palestino em Gaza, na Cisjordânia e em Jerusalém. Tudo indica que Netanyahu seguirá com a escalada da violência até cumprir seu objetivo: permanecer no comando do governo, não importa a qual preço. Mas o mundo pode deter a catástrofe.

 

*EMBAIXADOR DO ESTADO DA PALESTINA NO BRASIL

 

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Para cônsul de Israel, base da violência está na natureza do Hamas; leia artigo

'O Hamas é uma organização terrorista que usa a força para promover sua agenda política e religiosa. Isso não se aplica apenas a Israel, mas ao seu modo de vida'

Alon Lavi, O Estado de S.Paulo

19 de maio de 2021 | 05h00

Nos últimos dias, todos nós fomos expostos a jornalistas, analistas, notáveis acadêmicos, todos tentando explicar as razões que levaram à atual onda de violência que estamos testemunhando entre Israel e o Hamas em Gaza. Sem dúvida, é uma situação complicada, muitos fatores estão envolvidos e a recorrência de eventos nos desafia buscar motivos que possam esclarecer o porquê, e por que agora, além de várias outras questões.

Essa busca leva muitos a ignorar o simples fato na base da violência -- a natureza do Hamas. O Hamas é uma organização terrorista que usa a força para promover sua agenda política e religiosa. Isso não se aplica apenas a Israel, mas ao seu modo de vida.

O Hamas assumiu brutalmente o controle de Gaza, em 2007, da Autoridade Palestina, dois anos depois que Israel se retirou da Faixa de Gaza, não deixando qualquer colônia judaica para trás. O Hamas executou sem julgamento pessoas que ele pensava estarem ajudando Israel, assediou e prejudicou palestinos que eram suspeitos de apoiar a Autoridade Palestina. Essa organização matou membros da comunidade LGBT+ apenas por causa de suas preferências sexuais e incita diariamente a violência no sistema educacional, na mídia e até nas creches.

Fora tudo isso, o Hamas não reconhece o direito de Israel de existir e apela abertamente à destruição de Israel. Quando uma organização terrorista como o Hamas desenvolve e armazena dezenas de milhares de mísseis, foguetes e outras armas, é inevitável que as use. Quando o Hamas declara que não reconhece o Estado judeu, fica claro que o Hamas usará seu armamento contra Israel. A questão não é se o “Hamas o usará contra Israel”, mas sim "quando”.

No momento em que Israel investe para construir abrigos antiaéreos para proteger seus cidadãos, o Hamas usa seu povo como escudo humano. Enquanto o Hamas desenvolve novos foguetes que causarão mais danos e baixas, Israel melhora o sistema de proteção do Domo de Ferro. Enquanto o Hamas se esconde sob hospitais e constrói túneis de ataque, Israel vacina sua população contra o coronavírus. Enquanto Israel lamenta profundamente a morte de pessoas inocentes, palestinos e israelenses, o Hamas celebra a morte e a utiliza para promover sua agenda política.

Como amostra de que a guerra de Israel é contra o terrorismo e não contra os moradores de Gaza, o posto fronteiriço de Keren Shalom, que liga o território israelense à Faixa de Gaza foi reaberto nesta terça-feira, 18, para o envio de ajuda humanitária à população local. Caminhões com combustível, medicamentos, alimentos, equipamentos e ferramentas estão passando para as organizações humanitárias de Gaza.

Nenhum país se omitiria diante do terrorismo extremo e da agressão contra seus cidadãos e sua soberania, sobre seu direito de existir. Nenhum dos leitores aceitaria viver sob constante ameaça de ataques terroristas e mísseis em suas casas, no trabalho e contra sua família. Israel não tem escolha se não defender seu povo. Não é uma missão fácil, especialmente quando o Hamas está usando a população de Gaza como escudo humano. O Hamas se esconde entre civis de Gaza, lançando foguetes com alto poder de destruição contra Israel ao lado de escolas, mesquitas e edifícios residenciais.

A comunidade internacional precisa pressionar o Hamas a sair do caminho da violência, parar com o terrorismo e aceitar o direito de Israel existir em paz. O povo de Gaza merece uma vida normal como o povo de Israel merece, mas isso só pode acontecer quando Gaza estiver livre do Hamas. A organização impõe um regime de terror, com opressão a oposicionistas, a mulheres, a minorias religiosas e minorias sexuais, entre outros grupos.

Apesar da realidade complexa e implacável que Israel está enfrentando, ainda estou otimista. Nos últimos meses, testemunhamos uma mudança histórica quando países árabes estabeleceram relações diplomáticas com Israel, assinando acordos de paz e iniciando o processo de normalização. Essa mudança é uma prova de que a paz é possível.

É trabalho de todos, de Israel, dos países árabes e da comunidade internacional, minimizar o papel negativo de extremistas e terroristas como o Hamas. É nossa responsabilidade coletiva capacitar aqueles que buscam a paz e não a violência, rejeitar aqueles que promovem a instabilidade e fomentar vozes moderadas que clamam por colaboração.

Depois de alguns anos no Brasil, estou ainda mais otimista. Encontrei amigos aqui da comunidade muçulmana e árabe brasileira. Vejo as relações entre a comunidade judaica e árabe no Brasil e sei que a paz é possível.

*CÔNSUL-GERAL DE ISRAEL

 

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