População de Bagdá se arma à espera dos americanos

Moradores de Bagdá estão preparando pistolas e rifles de caça; trincheiras e posições de tiro cercadas com sacos de areia se multiplicam. Milicianos leais a Saddam Hussein dizem estar prontos para lutar até a morte. Bagdá se prepara para o que pode ser uma luta de casa em casa contra tropas americanas, caso o presidente dos EUA, George W. Bush, dê a ordem de invasão. Saddam aparece toda noite na televisão para garantir aos iraquianos que os americanos não são páreo numa batalha campal. Os iraquianos ecoam suas palavras. Mas alguns revelam, em particular, que estão se preparando para uma luta contra outro inimigo: pistoleiros que podem tentar acertar antigas contas ou simplesmente aproveitar de um vazio de poder para roubar ou saquear. "Muito vai depender da motivação e do grau de lealdade a Saddam, e isso é difícil de calcular", explicou Ian Kemp, do Jane´s Defense Weekly, uma respeitada publicação sobre assuntos militares. Os Estados Unidos e a Grã-Bretanha têm cerca de 300.000 soldados na região do Golfo Pérsico - e outros 100.000 devem chegar nas próximas semanas - para uma possível invasão do Iraque para derrubar Saddam e eliminar armas de destruição em massa que ele é acusado de estar escondendo. Em uma semana, esta cidade de 5 milhões de habitantes nas margens do Rio Tigre assumiu a aparência de uma linha de defesa, onde as preparações para uma batalha são visíveis em quase toda esquina. Moradores disseram que o número de posições cercadas por sacos de areia praticamente triplicou nas últimas duas semanas. Quase duas vezes mais policiais armados estão nas ruas do que há uma semana. Armas são muito comuns no Iraque. Mesmo assim, proprietários de lojas de armamentos dizem que os negócios cresceram 25% no último mês. As armas mais procuradas são pistolas que custam menos de US$ 100. As lojas não podem ter fuzis de assalto, mas proprietários disseram que rifles de caça estão sendo vendidos aos montes. "Este é um negócio como qualquer outro, e a atual situação faz qualquer um querer pensar que está bem equipado para se defender e defender sua família", disse o proprietário de uma loja de armas, Mahmoud Mahdi. Mohiey Khalaf, 72 anos, trabalha com conserto de armas há mais de 40 anos. Hoje, ele estava ocupado arrumando um revólver preto em sua oficina, numa viela para pedestres. "Os negócios vão bem. Muitas pessoas querem ter certeza de que suas armas estão funcionando", relatou.Túmulo dos americanos Na quarta-feira, num mau presságio do que pode estar esperando tropas americanas que tentarem capturar a cidade, 60 homens com roupas brancas desfilaram pelo centro de Bagdá, prometendo dar suas vidas em ataques suicidas contra tropas dos EUA. Integrantes do Partido Baath, de Saddam, criaram brigadas de vizinhança com uma estrutura de comando que garantiria comunicação ininterrupta no caso de uma guerra. "Como eles podem pensar em entrar em Bagdá?", questionou Ali Mohammed, um líder local do Baath de 30 anos, no bairro operário de Al-Habibiyah. "Que eles não ousem vir, porque serão certamente derrotados". Saindo de uma loja de conserto de armas, ele colocou sua pistola na cintura. Mohammed, como milhões de integrantes do Baath e milicianos leais a Saddam, também tem um fuzil AK-47, a arma preferida pela maioria dos iraquianos. Violência ocasional entre tribos rivais e a paixão dos iraquianos pela caça fazem com que existam armas de fogo em praticamente todas residências do país. Saddam tem alimentado por semanas a idéia de que os iraquianos lutando em seu território terão uma vantagem sobre os americanos mais bem armados. Ao se reunir com comandantes de infantaria na quarta-feira, ele catalogou as características de um porta-aviões indeterminado dos EUA: propulsão nuclear, recurso de dessalinização de água, nove andares e 20.000 refeições por dia. "Mas ele tem rodas para chegar a Bagdá? Certamente que não. O que no final vai decidir a batalha são soldados a pé", adiantou. Muitos em Bagdá concordam. "Minha família me ensinou a usar uma arma quando eu tinha 5 anos", disse Nazer Qahtan Khalil, proprietário de uma das estimadas 45 lojas de venda de armas de Bagdá. "Você permitiria que alguém entrasse em sua casa sem ser convidado? Se Deus quiser, Bagdá será o túmulo dos americanos".

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