População de Cabul sai às ruas e reabre comércio

A população de Cabul tenta sobreviver no 19º dia de bombardeios anglo-americanos sobre a capital afegã, retomando - apesar de tudo - a vida cotidiana em uma cidade devastada. "Não se pode continuar assim, esperando em casa. Então saí", disse a jornalistas franceses Ahmad Ali, de 53 anos, que vende roupa de inverno na rua Mohammad Jan Khan, no centro. Pouco mais adiante, Mohammad Shah, de 28 anos, vende sapatos e se diz orgulhoso da luta contra os EUA. "Tudo vai bem", afirma, acrescentando: "Não foi nada, meu amigo. Os bombardeios, os mísseis, os combates, não há nada de novo para nós. O único fato positivo é que desta vez lutamos contra os EUA, a maior potência mundial. Cada vez que ligo o rádio, escuto a palavra Afeganistão em todos os idiomas. O Afeganistão se tornou famoso em todo o mundo". O homem tem três filhos e seus negócios vão bem, apesar da fuga de parte da população. "O inverno se aproxima. Vendo sapatos resistentes para o inverno, que todos compram", declara Shah, que se esquiva de dizer quanto ganha. "Eu pretendia ficar em casa até que a situação se resolvesse, pensei que tudo isto duraria poucos dias", disse Ahmad Ali, andando pela rua. "Agora já não me importa se há bombardeios ou não: tenho de trabalhar e levar para casa um pouco de pão". Maryam, uma viúva de 39 anos, pede esmola no bairro de Poli Baghi Omomi. Não pensa muito na guerra ou nos bombardeios: "Penso em meus filhos, se esta noite terão o que comer ou não. Não tenho nada a ver com os bombardeios e os combates", diz a mulher, mãe de sete crianças. Maryam vive em uma casa semidestruída em Kart-e-Seh (oeste de Cabul). Os proprietários da casa foram embora há sete anos, assustados com os combates pelo controle da capital. "Enquanto estou aqui, estou inquieta, pensando nos meus filhos. Mas o que posso fazer, meus vizinhos é que cuidam deles", acrescentou. Hoje a quantidade de pedestres nas ruas de Cabul parecia maior do que a dos últimos dias, e também os automóveis pareciam mais numerosos. Segundo estatísticas da ONU, entre 15% e 20% da população da capital fugiu. Outras cidades do país - entre elas, Kandahar - perderam cerca de 70% da população, de acordo com estimativas das Nações Unidas. Leia o especial

Agencia Estado,

25 Outubro 2001 | 17h29

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