Cláudia Trevisan/Estadão
Cláudia Trevisan/Estadão

População de Orlando faz vigília em homenagem às vítimas do massacre

Moradores locais estamparam em suas camisetas fotografias de amigos que perderam na casa noturna Pulse

Cláudia Trevisan, Enviada especial / Orlando, O Estado de S. Paulo

14 Junho 2016 | 11h03

ORLANDO - O porto-riquenho José Santiago saiu da casa noturna Pulse, frequentada pelo público LGBT, à 1h50 da madrugada do domingo, deixando no local os 11 amigos com quem havia se encontrado para uma noite de salsa e merengue. Dez minutos depois, Omar Mateen entrou no local com um rifle AR-15 e começou a atirar de maneira indiscriminada. Nenhum dos 11 amigos de Santiago sobreviveu.

Na noite de segunda-feira ele se uniu com centenas de moradores de Orlando em uma vigília para homenagear às vítimas do maior tiroteio e massa dos Estados Unidos, no qual 49 pessoas morreram e 53 ficaram feridas, algumas de maneira grave. Com velas nas mãos, todos ficaram em silêncio enquanto ouviam 49 badaladas de um sino.

“Quando caminhava, eu vi carros da polícia indo na direção da Pulse”, disse Santiago, que frequentava o local quase todos os sábados. “Só soube o que tinha acontecido quando meu primo, que conseguiu escapar, me ligou cerca de 20 minutos mais tarde.”

Gerente de um hotel, o porto-riquenho de 25 anos acredita que o massacre foi um ato de terrorismo e um crime de ódio contra as comunidades LGBT e latina. As famílias de quase todos os mortos têm suas origens no território americano de Porto Rico e em outros países da América Latina.

D.J., de 26 anos, e Tiffany Edwards, de 24, estamparam em suas camisetas as fotografias dos dois amigos que perderam na Pulse: Xavier Serrano e Le Roy. “A gente vê essas coisas na televisão, mas quando elas acontecem perto de nós é devastador”, disse D.J., para quem o crime foi motivado por ódio e não pelo terrorismo.

Tiffany trabalha em um estúdio de animação, mas também faz performances como drag king – uma mulher que se traveste de homem. A Pulse era um de seus palcos, mas ela não se apresentou no sábado porque era uma noite latina. “Eu não falo espanhol.” Ambos souberam do tiroteio por telefonemas de amigos na madrugada de domingo. A confirmação das mortes só veio na manhã de segunda-feira.

Abraçado ao amigo Ariel Vega, de 30 anos, Angel Garmundi, de 35, chorava sem parar durante a vigília, realizada no centro de Orlando. Para ele, o ataque foi uma “mescla de tudo” –ódio, terrorismo e intolerância. Frequentador da Pulse, Garmundi perdeu 12 amigos. Outros quatro estão em hospitais de Orlando.   

A transexual Daniele Tashner, de 60 anos, foi acordada na madrugada de domingo por um vizinho que queria saber se ela estava bem, já que era frequentadora da Pulse. “Eu chorei o dia inteiro”, recordou. “São 49 histórias que não serão mais escritas.” Em sua opinião, a motivação de Mateen foi “pessoal” e motivada por uma “confusão interna”.

Tashner disse que há dois anos alerta a comunidade LGBT de Orlando para o risco de um crime de ódio. “Nós estamos atraindo multidões cada vez maiores e mais exuberantes, mas ficamos complacentes.”

A vigília também atraiu centenas de pessoas sem nenhuma relação com a comunidade LGBT. O colombiano Luis Parrado foi com a mulher, a lituana Giedre Parrado, e os dois filhos do casal, de 7 e 4 anos. “Nós viemos manifestar nosso apoio à comunidade de Orlando”, disse Parrado, que vive em uma cidade vizinha.  Em sua opinião, o fácil acesso às armas nos Estados Unidos está na origem do atentado. “Não faz sentido um civil poder ter armas semelhantes às militares”,  observou. “Aqui, elas podem ser compradas em um Wal-Mart.”

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