População de Washington prepara-se para o pior

Faltam ainda algumas semanas para começar uma ação militar americana no Iraque. Em Washington, contudo, já se vive um clima que não chega a ser de guerra mas deixou, também, de ser de normalidade. A ameaça de um ataque terrorista, ampliada na terça-feira pela divulgação de mais uma gravação ameaçadora atribuída a Osama bin Laden, criou um estado de intensa ansiedade entre os cerca de 3 milhões de habitantes da região metropolitana da capital americana e convenceu muitos deles de que é hora de preparar-se para o pior.O suprimento de fita adesiva e de rolos de plástico desapareceu das prateleiras da Strosnider hoje pela manhã, menos de uma hora depois da abertura da popular loja de ferragens deste subúrbio de Washington. "É a terceira vez que ficamos sem plástico e sem ?duct tape? desde ontem, já encomendamos mais e acho que vamos vender tudo o que chegar", disse Edward Briscoe, um funcionário da loja, referindo-se a uma fita isolante cinza, usada em tubulações de alumínio - um dos itens que o novo departamento da Defesa Interna aconselhou os residentes de Washington e de Nova York a comprar, na noite de segunda-feira, como parte de um kit de sobrevivência na eventualidade de um ataque terrorista com arma química ou biológica. O kit inclui também suprimento de água e comida para três dias, lanterna, rádio portátil e pilhas."Ontem eu comprei fita e plástico mas, já que estou aqui, vou levar mais uns rolos desta fita para embalagem que, numa emergência, também serve", disse Linda Jay, que foi hoje à loja para fazer cópias de chaves. "Pessoalmente, não estou nem em pânico nem despreocupada, acho que não vai acontecer nada de grave aqui, mas resolvi tomar algumas providências porque o governo está dizendo que existe uma ameaça", explicou Linda, que foi casada com um diplomata americano e morou no Rio, em São Paulo e em Belém do Pará, nos anos 60 e 70, acompanhando o ex-marido. "Vivi em Moçambique durante um período de conflito e muita tensão, antes da independência (do país, em 1975); a situação não é comparável, mas estamos atravessando um momento de grande apreensão; hoje eu acordei achando que estávamos sofrendo um ataque químico, por causa do pacote que encontraram na ponte da rua 14".O pacote, que provavelmente caiu de um carro, nada continha de perigoso, mas obrigou a polícia a fechar um dos principais acessos do Estado de Virginia para a capital americana e causou um congestionamento de mais de trinta quilômetros, que só terminou no final da manhã.Pouco antes das 10h00, um novo alarme falso de ataque químico provocou o esvaziamento e o fechamento temporário da estação de metrô Eastern Market. Paralelamente, o departamento de Defesa ordenou um reforço da segurança do espaço aéreo em Washington e Nova York, ordenou um aumento dos vôos que patrulham os céus das duas cidades desde os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 e colocou baterias antiaéreas móveis junto ao Pentágono.A essa hora, no supermercado Giant, em Bethesda, a prateleira com galões e litros de água engarrafada já estava praticamente vazia. A duas quadras de distância, a Strosnider exibia uma cena surrealista: o número de pessoas em busca de "duct tape" tinha sido superado pelo dos repórteres e técnicos de quatro emissoras de televisão local e da inglesa INT, interessadas em registrar a corrida à loja que a administração Bush desencadeou na terça-feira, quatro dias depois de ter elevado para a cor laranja o estado de alerta contra possíveis ataques terroristas - um abaixo do mais severo."Eu confesso que estou muito ansiosa e não sei mais o que pensar", disse Nancy Markson, depois de ouvir de Briscoe que haveria mais "duct tape" à tarde. "Nunca vivi nada parecido e gostaria que tudo isso passasse logo, mas receio que vamos ter que viver nessa incerteza, porque não tenho muita dúvida mais de que vamos à guerra no Iraque".Briscoe, que está acostumado a aconselhar clientes preocupados com coisas mais triviais, como a cor ou tipo de tinta que devem usar na parede da cozinha, não disfarçava sua perplexidade diante da recomendação feita pelo governo para proteger a população de um ataque químico ou biológico. "Se as pessoas pensassem um pouco, elas se dariam conta de que a idéia de vedar completamente um cômodo de segurança de uma casa com plástico e fita adesiva não funciona, porque é muito difícil conseguir uma vedação total", disse ele. "Agora, se você conseguir vedar completamente, funciona por muito pouco tempo: você se salva do ataque químico ou biológico mas o ar acaba e você morre asfixiado".O kit de segurança que a administração Bush recomendou à população suscitou outras dúvidas. O New York Times, por exemplo, observou que o momento escolhido para anunciar a medida "parece irônico, diante do fato de que os Estados e municípios ainda não receberam a ajuda federal que lhes foi prometida para comprar equipamentos necessários para evitar as conseqüências de eventuais ações". Segundo o jornal, "Washington está conclamando as pessoas a se prepararem para um ataque químico comprando ?duct tape?, enquanto que falha em fornecer aos serviços de bombeiros os fundos necessários para a compra de detectores de ações de bioterrorismo e de roupas de proteção em caso de ataque químico ou biológico".

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