AP Photo/Fernando Llano
AP Photo/Fernando Llano

População fura poços artesianos clandestinos para combater falta de água na Venezuela

Serviço é caro e demanda é alta; venezuelanos mais pobres dependem do governo ou de nascentes em áreas montanhosas

O Estado de S.Paulo

26 Junho 2018 | 13h52

CARACAS - Abrir a torneira é como jogar numa roleta para Elizabeth Robles. Antes, a água fluía um ou dois dias por semana. Então ela, que é presidente da associação de condôminos, contratou caminhões cisterna para encher o tanque do prédio. Com medidas de racionamento que os moradores impuseram a si mesmos, passaram a ter água três vezes ao dia, por uma hora.

"Se você chegasse suado às cinco da tarde, não poderia tomar banho", contou Elizabeth, que é advogada e empresária. "É como um castigo." Mas os moradores se cansaram e, como o governo não podia fornecer água, eles decidiram perfurar um poço próximo ao prédio, no bairro de Campo Alegre. A solução é cada vez mais popular entre aqueles que podem pagar pelo serviço.

+ Forças de Segurança da Venezuela mataram centenas de jovens de maneira arbitrária, diz ONU

O declínio da economia venezuelana se acelerou com o governo do presidente Nicolás Maduro e levou a um êxodo em massa da população, que deixa o país para fugir da escassez de alimentos e remédios, bem como da violência nas ruas, apagões e falta de água potável.

+ Venezuelanos desafiam a crise para perseguir os próprios sonhos

Elizabeth diz que ela e os vizinhos contrataram uma empresa de perfuração, em fevereiro, pelo equivalente a US$ 7 mil, cerca de US$ 280 por família. Em sua rua, que fica próxima do clube de campo mais exclusivo de Caracas, pelo menos outros três edifícios contrataram o mesmo serviço.

+ Colômbia recebeu mais de 1 milhão de pessoas da Venezuela

A empresa vai com sua equipe e a plataforma de perfuração de um lugar para outro. O motor barulhento, a diesel, trabalha dia e noite até encontrar água, geralmente a 80 metros de profundidade.

+ Mercosul pressiona Venezuela a aceitar ajuda humanitária

Os menos ricos, no entanto, enfrentam o calvário no abastecimento público, na esperança de que o serviço, esporádico, abasteça seus tanques plásticos de 560 litros, equipados com bombas. Outra opção é fazer fila em nascentes de água, nas montanhas, para encher seus galões sem nenhum custo.

"Às vezes o cesto de roupa suja fica cheio", disse o operário desempregado Carlos García, que já chegou a passar oito horas em uma fila para pegar água de nascente.

A falta de abastecimento nas cidades levou a mais de 400 protestos pelo país nos primeiros cinco meses do ano, segundo informou o Observatório Venezuelano de Conflito Social.

+ Êxodo venezuelano - De ônibus, a arriscada fuga da Venezuela

Caracas já teve um sistema de abastecimento de água que figurava entre os melhores do mundo, e trazia a água de reservas nas montanhas até o vale, onde fica a cidade. Hoje em dia, os canos estouram, o sistema de bombeamento falha e gado pasta no leito da reserva de Mariposa, nos arredores do município, área que deveria estar coberta por água.

A falta de chuva combinou com a falta de manutenção, dizem especialistas.

+ No interior da Venezuela, comida apodrece por falta de gás e cortes de luz

Mas o presidente da Hidrocapital, agência estatal responsável pelo abastecimento de água em Caracas, Jose María de Viana, culpou a incompetência do governo e refuta a explicação de que o atraso da estação chuvosa causou a seca nas reservas. Ele afirmou que o sistema foi projetado pra abastecer a cidade durante a estação seca.

"Se você continuar sem resolver o problema, haverá menos água na cidade a cada dia, haverá mais protestos e mais raiva", alertou.

Para Fernando Gomez, da empresa de perfuração Inginería de Bomba de Venezuela, nos últimos dois meses houve crescimento na demanda, com clientes desesperados por água. O telefone toca quatro ou cinco vezes ao dia, em comparação a uma ou duas vezes há um ano. A única plataforma da empresa não é suficiente, diz Gomez. "Todo mundo quer para já."

+ ‘A Venezuela é uma ditadura governada por assassinos’

A maioria dos poços privados é perfurada clandestinamente. A lei exige uma autorização antes do início da perfuração, mas a papelada pode levar até dois anos para ficar pronta, e poucos estão dispostos a esperar.

No entanto, perfurar um poço não é opção viável para a grande maioria dos venezuelanos, cujo poder de compra despencou com a desvalorização da moeda e a inflação. O salário mínimo no país hoje corresponde a menos que US$ 2.

Nas ruas estreitas de Petare, um dos maiores bairros da Venezuela, Carmen Rivero disse que a chegada de água é motivo para comemoração. Quando o abastecimento não vem, situação mais frequente, o que se vê é aborrecimento.

Ela contou que o bairro ficou três meses sem água recentemente, e que antes disso, chegou a ficar oito meses na seca. Os moradores se viraram com água que buscavam em uma fonte e com o serviço de caminhões municipais.

Recentemente, um aumento surpreendente na oferta de água causou animação. "Todos gritaram 'Oh, a água veio'", disse a venezuelana, que correu para a torneira.

A frustração voltou recentemente e levou os moradores de Petare às ruas em protesto. De acordo com Carmen, os soldados da Guarda Nacional entraram em confronto com a população. Os homens estavam armados, tinham dispositivos de choque e ameaçaram prender aqueles que não voltassem para casa.

Carmen relembrou o que disse a um soldado. "Você também é um ser humano e sabe que sem água não podemos fazer nada." Ele respondeu que sua família era como a dela, mas que ele deveria seguir ordens. / AP

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.