População se solidariza com jovens nas ruas

Contra gás tóxico, mulheres atiram água e papel da janela; farmácia vira ambulatório

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

29 de janeiro de 2011 | 00h00

A cada bomba de gás lacrimogêneo lançada contra manifestantes, mulheres cobertas com véu islâmico apareciam discretamente em suas varandas e jogavam rolos de papel higiênico e garrafas de água. O objetivo era garantir que os manifestantes continuassem sua marcha contra o regime de Hosni Mubarak.

Foram várias as ações espontâneas de solidariedade entre a população e opositores nas ruas do Cairo ontem. Donos de barracas de comida cortavam e distribuíam cebola para neutralizar o efeito do gás lacrimogêneo. Uma pequena farmácia virou um ambulatório improvisado para manifestantes.

"Todos queremos a mesma coisa, por isso estamos aqui", afirmou Karim, médico e dono da farmácia, situada na Rua Mohamed Fareed, no centro da capital egípcia. Ontem, Karim ordenou seus funcionários que deixassem suas casas para dar apoio aos manifestantes. Todos deveriam ficar na farmácia e ajudar os feridos distribuindo algodão molhado para conter o efeito do gás lacrimogêneo.

Enquanto filas se formavam diante de sua porta a cada bomba detonada, o médico abria espaço na pequena farmácia empurrando balcões e tirando estantes do caminho.

Assim que o Estado entrou na farmácia, Karim pediu aos berros que seus assistentes trouxessem a reportagem para a parte de trás do estabelecimento. Lá, estendia-se um jovem ferido pelos estilhaços de um projétil.

"É só essa a resposta do governo? Nós estamos pedindo uma vida melhor e a resposta deveria ser outra, diferente dos tiros", afirmou o médico, formado nos Estados Unidos.

Os sinais de solidariedade apenas eram suspensos quando descobria-se que, vestidos de civis, policiais estavam infiltrados nos protestos para atacar e agredir manifestantes. Nos hotéis duas estrelas da região onde concentravam-se os protestos, formavam-se filas de moradores, manifestantes e jornalistas para usar os telefones. O governo ontem cortou todos os serviços de celular e internet na cidade.

Ahmed Arm, o gerente do modesto Hotel Boutros, ordenou que não fossem cobradas as chamadas feitas pelos opositores. "Chegou o momento e agora somos nós contra eles", disse Arm.

Apagão. O cerco do governo Mubarak às comunicações tinha por objetivo desarticular as manifestações, convocadas por Facebook, Twitter e mensagens de celular. O bloqueio às três maiores empresas de telefonia móvel começou a vigorar às 11 horas, quando muitos já estavam dentro das mesquitas para a oração de sexta-feira.

Quando saíram dos templos religiosos, os fiéis não perceberam que seus celulares não funcionavam. Questionado pelo Estado sobre o motivo do apagão telefônico, um policial apenas sorriu. Mubarak, segundo os próprios manifestantes, conseguiu atingir em parte seus objetivos pois as manifestações acabaram se dispersando. Mas para muitos egípcios nas ruas, o presidente subestimou a "inteligência" de seu povo. "Somos engenheiros, cientistas, médicos, técnicos em informática. Eles podem desligar os computadores e celulares, mas não desligarão nossas mentes", afirmou Tamer Nabi, um dos manifestantes.

A imprensa também acabou sofrendo com o cerco à informação. Ontem, quatro jornalistas franceses acabaram detidos por várias horas, sob acusação de trabalharem sem autorização formal do governo.

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