População sente-se alienada do processo político no Egito

Cenário: Miriam Fam / Bloomberg News

O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2012 | 03h04

Quando viu dois jovens sequestrando uma moça numa rua do Cairo, Zakariya Serageddin disse que não tinha outra escolha senão fazer justiça com as próprias mãos. Ele e dois outros homens capturaram os dois assaltantes, os amarraram a uma árvore e cobriram seus corpos com xarope para atrair formigas. Para Serageddin, um carpinteiro de 33 anos, o episódio de dois meses atrás foi emblemático do que ocorreu com o Egito desde o levante contra Hosni Mubarak no ano passado.

"Os únicos que se beneficiaram com essa revolução foram os criminosos", disse ele, abanando a cabeça. A desintegração da segurança marca a disputa pela sucessão de Mubarak. E o medo do crime, aliado à suspeita sobre as intenções dos islamistas que dominam o Parlamento, ajudou a impulsionar Ahmed Shafiq, ex-premiê de Mubarak que chegou ao segundo turno da eleição presidencial com promessas de restaurar a lei e a ordem. Ele competirá contra Mohamed Mursi da Irmandade Muçulmana.

A escolha entre o Islã político e uma figura do antigo regime não satisfaz a muitos egípcios - que se recusam a votar porque, como diz Serageddin, "nenhum dos dois está interessado nos problemas da população". Protestos e apelos por um boicote da eleição - que supostamente deveria completar a transição do Egito para um regime civil e oferecer uma oportunidade para reviver sua moribunda economia - se espalham.

"Os investidores estão preocupados sobre como a rua egípcia receberá o resultado da eleição", disse Raza Agha, um economista do Royal Bank of Scotland Group, de Londres. Mais importante do que a eleição é "a estabilidade institucional, uma agenda política prudente e um plano que preferivelmente envolva créditos do FMI", disse ele.

É "muito compreensível" que egípcios como Serageddin sintam-se alienados do processo eleitoral, e os generais são os principais culpados, disse Shadi Hamid, chefe de pesquisa no Brookings Doha Center. O conselho do Exército "jogou com a ideia de dividir para conquistar", disse ele. "Isso jogou um partido egípcio contra o outro e criou um clima de paranoia, teorias conspiratórias e acusações intermináveis", concluiu Hamid. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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