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Rodrigo Cavalheiro/Estadão
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População teme fim de programas sociais

Em Avellaneda, moradores acreditam que Macri suspenderá programas assistenciais

Rodrigo Cavalheiro, Correspondente, O Estado de S.Paulo

22 de novembro de 2015 | 23h28

BUENOS AIRES - Os planos sociais que o kirchnerismo implantou em 12 anos e chegam a 28% dos lares argentinos foram transformados em lei este ano. Nas áreas mais pobres de Avellaneda, município da Província de Buenos Aires em que predominam fãs da presidente Cristina Kirchner, moradores acreditam que só continuarão recebendo esses e outros benefícios com o candidato que ela indicar.

A desempregada Carolina Arce vivia até o ano passado na zona não turística do bairro da Boca, na capital argentina. Deixou o cortiço porque dois de seus filhos, de 25 e de 28 anos – os outros seis têm 20, 18, 16, 14, 9 anos e 9 meses, tornaram-se viciados em paco, uma droga similar ao crack. Para tentar afastá-los da dependência, ela cruzou o Riachuelo, o poluído braço do Rio da Prata que separa Buenos Aires, dominada pelo conservador Mauricio Macri, de Avellaneda, onde Daniel Scioli tem ampla vantagem.

“Aqui deste lado (Avellaneda) a população não deixa o paco chegar, controla. Meu filho foi esfaqueado há três dias porque foi comprar de novo na Boca”, afirma. Segundo Carolina, o filho mais velho rouba dos narcotraficantes quando está drogado. Por isso foi agredido.

Ela engravidou 11 vezes e três de seus filhos morreram no parto – passou oito de seus 43 anos grávida. Teve o primeiro aos 15, quando foi internada em um centro para menores, e a última há nove meses. “A menina mais nova nasceu com síndrome de down, o que exige alguns cuidados especiais. O que o governo me paga não dá, então peço doações em ONGs religiosas”, afirma. Carolina vive com os oito filhos – quatro homens e quatro mulheres – e não tem emprego. Por isso, ganha 3.800 pesos (cerca de R$ 1.400) do kirchnerismo. Pelo aluguel em Dock Sud, uma das zonas mais perigosas de Avellaneda, paga 3.500 pesos (aproximadamente R$ 1.300).

“Voto em quem Cristina disser, pois a vitória de Macri nos tira tudo isso. E muita gente passou para o lado dele, só se fala em Macri agora”, disse, preocupada que os detalhes que deu de sua vida não fossem publicados na Argentina.

Quando ela subia a Ponte de Avellaneda, recuperada pelo kirchnerismo, para chegar à Boca, cumprimentou Ismael Suárez, soldador que ganha 2.500 pesos (R$ 960) por mês em trabalhos informais. Morador de rua, ele considera Scioli mais humilde que seu adversário no segundo turno. “Macri é um oligarca, está podre de tanto dinheiro que tem”, disse, após votar em Scioli e passar por um bar. Surdo, ele usa em volta do pescoço um crachá que atesta sua deficiência com o qual viaja de graça em ônibus e trem.

A ponte é usada pelos moradores para passar sobre o rio quando os barcos a remo – mantidos pelo Estado para não desempregar os barqueiros – não estão em operação, como aconteceu ontem. A estrutura da ponte, usada por carros, trens e pedestres, foi recuperada pelo kirchnerismo. Isso tornou seus funcionários cabos eleitorais de Scioli.

“Com Macri, perdemos nossos empregos. Não entendo quem vota nele”, diz Mirta Ensina, de 42 anos, que recebe 12 mil pesos (R$ 4.600) para trabalhar na segurança da ponte. Ela acredita que com o conservador no poder o país voltaria à crise de 2001.

A tática de relacionar o caos econômico e institucional do início do século ao prefeito de Buenos Aires, usada pelo candidato Daniel Scioli no segundo turno, teve efeito nessa área da região metropolitana da capital argentina, um reduto do peronismo, do qual o kirchnerismo é uma ala corrente.

Trabalhador em uma empresa de limpeza há três anos, Facundo Almirón, 22 anos, citava outro fantasma levantado por Scioli durante a campanha: o fim dos subsídios ao transporte e à energia, que representam 5% do PIB e são considerados insustentáveis por economistas. “Macri vende tudo. Ele não governa para os pobres.”

Para entender: Em 4 anos, mais pobreza

O kirchnerismo assumiu o poder em 2003 com Néstor, após a crise de 2001, a maior argentina, que levou mais da metade do país à pobreza. Ele recolocou a Argentina entre as nações com maioria de classe média. Em 2007, Cristina assumiu e acentuou a inclusão. A partir de 2011, ano de sua reeleição, o país regrediu nesse indicador e parou de contar os pobres. Para a Universidade Católica Argentina, eles são 28,7% da população.

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