Popularidade do governo está em queda

O partido Rússia Unida vem caindo nas pesquisas. Às vésperas das últimas eleições parlamentares, em 2007, tinha o apoio de dois terços dos russos. Hoje, tem pouco mais de 50%. Em pesquisas locais, como em São Petersburgo, Astrakhan e Kaliningrado, a legenda se sai ainda pior.

MOSCOU, O Estado de S.Paulo

04 de dezembro de 2011 | 03h03

A reação do Kremlin ao fracasso foi vista nas eleições municipais, em agosto. Em São Petersburgo, o resultado oficial ignorou as pesquisas e colocou o candidato governista com 90% dos votos. A mesma estratégia está se espalhando por todo o país.

Em Izhevsk, o prefeito disse que o dinheiro que a cidade receberá no futuro será proporcional aos votos do Rússia Unida. Em Chuvashia, uma sessão eleitoral transformou-se em comitê do governo. Em Astrakhan, o partido prometeu uma rifa, no dia da eleição, que dará dois carros zero.

Embora as táticas mostrem intimidação, também indicam insatisfação. Hoje, os russos não só percebem as violações eleitorais como gravam tudo em seus celulares. No vídeo do prefeito de Izhevsk, ouve-se uma voz gritando: "Você está violando a Constituição." Não é o mesmo que recorrer à Suprema Corte, mas o ato de gravar e postar a declaração na web mostra a consciência do que é ou não aceitável.

Isso contraria uma das teses de Putin, a de que os russos não estão preparados para a democracia. Os acontecimentos mostram que o país está cada vez mais esperto e maduro. Embora a política ainda seja malvista, ela começa a ser percebida como um instrumento de mudança.

"Há um crescente interesse em questões econômicas e locais. Ao mesmo tempo, o importância das questões ideológicas está diminuindo", diz o analista Gleb Pavlovski. Seria um erro, porém, considerar a inquietação uma reviravolta radical. O ressentimento é um indicador de muitas coisas, mas ainda é cedo para saber dará frutos.

Os números são reveladores. Hoje, apenas 31% dos russos votariam em Putin para presidente. Sorte que seu rival mais próximo é o comunista Gennadi Zyuganov, com 8%. Apesar de 30% da população considerar o governo corrupto, Putin ainda tem 67% de aprovação. Isto indica que a internet, fundamental para propagar o descontentamento, ainda não se aproxima da televisão, que o premiê domina como ninguém.

O sistema eleitoral bizantino o favorece, impedindo que muitos descontentes se candidatem. O que resta? A rua. "É um estado de espírito, não um movimento", diz Kasha Lipman, analista do Carnegie Center. "A insatisfação não se transforma em ação. O governo está em vantagem, porque lida com uma sociedade que gosta de falar, de discutir e de fazer piadas, mas não consegue se organizar." Se o Rússia Unida obtiver uma vitória compatível com as pesquisas, o sistema pode se manter por mais tempo. Por quanto tempo? Depende de até quando Putin continuará sendo vaiado. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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