Populismo e o interesse da UE

Administração da crise não é perfeita, mas abandonar o euro converteria países em párias

NICOLAS BERGGRUEN & , PIERPAOLO BARBIERI, GLOBAL VIEWPOINT, O Estado de S.Paulo

23 Maio 2014 | 02h41

No 1.º de Maio, sob um cartaz que dizia "Não a Bruxelas, Sim à França", Marine Le Pen disse a milhares de partidários - e a milhões pela mídia extasiada por ela - que "é dever dos patriotas" dar um basta aos "coveiros" da União Europeia. E insistiu para que seus eleitores elegessem a Frente Nacional nas eleições europeias desta semana.

A vitória de Marine é possível e a tornaria a candidata mais forte na próxima eleição presidencial na França. Os populistas antieuropeus avançam não só na França, mas também na Grã-Bretanha, Itália, Holanda, Grécia, Áustria, Finlândia e até na Alemanha. Em meio ao midiático, os populistas expressaram suas ideias em alto e bom som. Está na hora de alguém defender o projeto europeu. Façamos isso: uma Europa sempre mais forte e federal é o melhor caminho para a liberdade, a prosperidade e sua influência no mundo.

A interconectividade é uma realidade, não uma opção. Nesta era de globalização, a regulamentação nacional é muito menos eficaz do que a continental, que protege os consumidores contra os monopólios e práticas desleais. Desde as tarifas de energia até o roaming, a UE regulamenta de modo mais eficiente do que os órgãos nacionais jamais conseguiram.

No tocante aos mercados financeiros, a UE mantém-se na vanguarda com as melhores diretivas para impedir uma nova crise: desde a imposição de limites às bonificações até a união bancária do BCE - Banco Central Europeu -, construímos um sistema bancário mais resistente para proteger correntistas e contribuintes.

Por outro lado, o mercado único europeu foi uma realização-chave da UE que melhorou o nível de vida dos cidadãos de cada Estado-membro. Hoje ele oferece um forte incentivo para os países-membros da UE se apoiarem, uma verdade que emergiu durante a crise financeira.

Os populistas temem o mercado. A França vem perdendo espaço no campo das exportações para a Alemanha e a Espanha. Isso nada tem a ver com o valor do euro, mas com o próprio protecionismo da França.

O inimigo não é Bruxelas, mas grupos de interesse nacionais que impedem as reformas necessárias para as instituições de segurança social se tornarem sustentáveis.

Apesar da colossal explosão da sua bolha imobiliária, a Espanha vem crescendo mais rápido do que a França. Grécia, Portugal e Espanha aderiram à Europa como meio de transição de ditaduras autocráticas para democracias em pleno funcionamento.

A administração da crise europeia está longe de ser perfeita; mas abandonar o euro seria transformar os países meridionais da Europa em párias, retornar aos antigos hábitos de inflação alta e desvalorizações rotineiras. Foi o caminho seguido pela Venezuela.

Precisamos lembrar que a UE protege e incentiva a democracia, que ajudou a consolidar de Lisboa a Vilna. E a própria UE vem se tornando sempre mais democrática no plano supranacional, com um Parlamento que parece mais forte e representativo. Democracia é promessa de mais Europa, não menos. Mas instituições não são representativas em todas as partes do continente.

Ávidos para acabar com a integração pós-guerra, os populistas admiram um governo russo cada vez mais autoritário, corrupto e regressivo socialmente. Numa era de desemprego recorde e crise, é fácil culpar os imigrantes.

Mas não podemos esquecer - num continente de emigrantes - que a imigração enriquece as sociedades, econômica e culturalmente. Os Estados-membros podem e devem ter o direito de decidir quem pode ter acesso aos sistemas de assistência social. Mas a livre movimentação de pessoas na UE é um ideal inegociável.

O grande paradoxo é que as soluções defendidas pelos populistas são contrárias aos interesses das nossas sociedades e levarão a uma Europa mais pobre, mais debilitada e menos livre. Podemos ser complacentes, mas na Praça Maidan, os ucranianos literalmente deram o sangue por essas mesmas liberdades pelas quais húngaros morreram em 1956. A Europa personifica essas liberdades.

Nossa União é uma realidade em favor da qual devemos lutar; nossa garantia de paz e direitos humanos, nossa melhor fonte de oportunidades econômicas e nossa voz enérgica num mundo mais amplo. Neste fim de semana vamos defende-la. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

BERGGRUEN É PRESIDENTE DO

BERGGRUEN INSTITUTE ON GOVERNANCE.

BARBIERE É MEMBRO DO COUNCIL FOR THE FUTURE OF EUROPE

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