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Populismo em alta

Nenhum país escapa desse fascínio, que se manifesta com roupagens diversas e de diferentes maneiras

Gilles Lapouge*, O Estado de S.Paulo

05 Novembro 2017 | 05h00

Entre os perigos que envenenam a Europa estão os caprichos independentistas de algumas províncias prósperas que querem se tornar nações. É o caso hoje da Catalunha, que amarga a derrota, e amanhã do norte da Itália, da Flandres belga e de algumas outras porções do bravo Velho Continente.

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Mas outro perigo, ainda mais grave, ameaça a Europa. É o populismo. Nenhum país escapa desse fascínio, que se manifesta com roupagens diversas e de diferentes maneiras. Por exemplo, o populismo, sozinho, não explica o Brexit dos britânicos. As raízes dessa separação estão na história e na geografia. “A Inglaterra é uma ilha”, dizia o grande historiador Jules Michelet. Há, portanto, uma carga de solidão, de orgulho, de heroísmo. Há uma alergia ao outro, a menos que esse outro se submeta a sua lei e a sua vontade. Mas, a essa causa fundamental se associou um forte aroma populista, exacerbado por esses migrantes que não são apenas pobres, mas cometem a indelicadeza de são serem britânicos.

Nos países continentais, o populismo precedeu a grande onda migratória de 2015. Os sintomas apareceram em 2008, quando a quebra financeira golpeou as classes média e baixa, trazendo a crise do euro, que abriu uma brecha entre o norte e o sul do continente, atingindo principalmente a Grécia. A essa separação se juntou outra, diferenciando os países que têm antigas e sólidas democracias (no oeste do continente) dos que saíram da triste situação do longo período comunista.

Não surpreende que o mais rude populismo se manifeste no leste da Europa, que acumula inconvenientes como a pobreza e o fato de ter sido comunista. Hoje, países dessa região formam o Grupo de Visegrad: Hungria, Polônia e os dois que surgiram com a divisão da antiga Checoslováquia, a República Checa e a Eslováquia.

O populismo contamina países que ficam entre as duas Europas, na fronteira do leste com o oeste, como a Áustria. Nesse país, encontramos traços do Grupo de Visegrad. Ironicamente, a Áustria, após a 2.ª Guerra, não foi cauterizada contra o nazismo, como a Alemanha Ocidental. O jovem Sebastian Kurz acaba de vencer as eleições legislativas com 31,7% dos votos. Uma proeza notável, explicada pela violência de seus discursos populistas: fogo contra a imigração e o Islã, ambos filhos da frouxidão humanista de Bruxelas.

E até o mais sólido dos países pró-Europa começa a dar sinais de populismo. A Alemanha, que foi milagrosamente purgada dos negros sonhos nazistas, recai em suas obsessões. O partido anti-imigração de Alixe Weidel, Alternativa para a Alemanha, AfD, reúne uma multidão de deputados, para surpresa de Angela Merkel, aturdida e de olhos arregalados. A Alemanha, santificada após o pesadelo nazista, já não escapa da fúria contra essa UE que, segundo os críticos, quer misturar todas as nações, sem fronteiras nem diferenças, num enorme mingau.

E a França? Ela, que esteve entre as primeiras nações populistas graças a Marine Le Pen. Quando o poder parecia prestes a cair em mãos de Marine, eis que um desconhecido brilhante e inquieto, Emmanuel Macron, jogou a adversária nas cordas. Não há dúvida, porém, de que Marine, quando sarar das escoriações e calombos, voltará ao ataque agitando suas grandes bandeiras. 

Por que este exaustivo artigo? Porque se nos limitarmos a dizer que tais e tais países acabam de dar voz aos populistas, como já ocorreu com outros, ficamos sem aquela visão global e panorâmica que nos permite dizer: nunca a pregação populista esteve tão generalizada e forte na União Europeia./ TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

*É CORRESPONDENTE EM PARIS

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