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Populismo na pandemia

O Plano Marshall criou as condições para a continuidade da democracia na Europa. Evitou a expansão do império soviético, a ascensão de movimentos extremistas, de direita e de esquerda

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2020 | 05h00

No dia 12 de abril de 1945, o presidente Franklin D. Roosevelt morreu subitamente de hemorragia cerebral. Ele estava doente, mas ignorava o alto risco do próprio estado. Era o quarto mandato de Roosevelt desde 1933. Seu vice, Harry Truman, exercia essa função havia menos de três meses, e era mantido alheio às decisões do presidente, habituado a governar sozinho. 

Truman assumiu no mesmo dia. Os EUA tinham sido arrastados para a 2.ª Guerra pelo ataque japonês a Pearl Harbor e a Alemanha era derrotada naquele momento, graças ao decisivo engajamento americano em favor dos Aliados. Sem experiência com política externa, ele disse aos jornalistas: “A lua, as estrelas e todos os planetas caíram em cima de mim. Rezem por mim”. 

Imediatamente depois de assumir, Truman passou a se dedicar ao esboço da carta que criaria a ONU e aos termos da rendição alemã, dia 8 de maio. Em julho, discutia os arranjos do pós-guerra em Potsdam com Josef Stalin e Winston Churchill, duas raposas velhas. Enquanto participava da conferência, recebeu a notícia do teste bem-sucedido da bomba atômica em Los Alamos. De lá mesmo, enviou um ultimato ao Japão: ou se rendia ou sofreria enorme devastação. O império japonês ignorou a ameaça e Truman deu a ordem mais controvertida da história da presidência americana: o bombardeio nuclear de Hiroshima e Nagasaki.

Em 1947, Truman se lançou na reconstrução da devastada Europa, com o Plano Marshall, que destinou cerca de US$ 13 bilhões em valores da época a 16 países. Atualizando pela inflação, esse montante seria hoje US$ 150 bilhões. Mas esse valor nominal não explica a dimensão econômica do desembolso, que representava 5% do PIB americano. 

O número também não exprime a coragem política envolvida. A economia americana teve contração de 1,1% em 1947. Explicar ao contribuinte que ele devia bancar a reconstrução de países saídos de uma “aventura” militar catastrófica requereu imenso senso de liderança. 

O Plano Marshall criou as condições para a continuidade da democracia na Europa. Evitou a expansão do império soviético, a ascensão de movimentos extremistas, de direita e de esquerda. Sem ele, dificilmente existiria a União Europeia, que trouxe prosperidade e preveniu novas guerras.

 

A pandemia do coronavírus nos confronta com uma ameaça da mesma natureza sem que haja, nos EUA, um líder à altura do momento histórico. O mesmo se aplica ao México e ao Brasil. Os três países são governados por presidentes negacionistas da pandemia. O conflito por eles criado entre saúde e economia demonstra falta de compreensão de que não existe pior cenário do que um colapso na saúde.

Os três países têm em comum o fato de serem federações presidencialistas. Há uma competição política entre os governadores de Estados, sobre os quais recai a responsabilidade direta sobre a saúde, e o presidente, que se sente mais cobrado eleitoralmente pelo desempenho da economia. Governadores de destaque podem ameaçar os planos de reeleição de um presidente.

No parlamentarismo, essa competição não é direta, mesmo nos países com forte autonomia regional, como Alemanha, Reino Unido, Espanha e Canadá. Primeiros-ministros são deputados eleitos em seus distritos, que não disputam diretamente o eleitor com governadores. 

A disputa também é irrelevante no presidencialismo quando Estados, departamentos ou províncias têm pouca autonomia, como em todos os países da América do Sul, com exceção do Brasil. O fato de Truman e outros estadistas terem governado os EUA, o México e o Brasil demonstra que o regime político não é o único fator na qualidade de um presidente. Mas ele pode ser um incentivo ao populismo, sobretudo em tempos de polarização propulsionada nas plataformas digitais.

 

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