EFE/SHAWN THEW
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Artigo: Populismo nem sempre foi popular

Jornalistas devem encarar ofensas de Trump e de outros líderes semelhantes como medalhas de honra da profissão que exercem

Chris Patten* / Project Syndicate, O Estado de S. Paulo

23 Fevereiro 2017 | 05h00

Tenho idade suficiente para recordar de quando a melhor coisa sobre o populismo era que ele não era popular. O nativismo, em qualquer forma, não atingia muitos alvos políticos. Protecionistas em economia não venciam eleições. Os eleitores, mesmo os preocupados com imigração, baseavam suas escolhas em questões de economia e bem estar, que a mídia reportava com relativa fidelidade.

Parecemos estar caminhando para um tipo diferente de política. Os exemplos mais corriqueiramente citados são a votação no ano passado pela saída da Grã-Bretanha da União Europeia e a vitória eleitoral de Donald Trump nos EUA. Polônia e Hungria também dão exemplos preocupantes de políticos que usam retórica nacionalista e populista para promover objetivos que cheiram a um autoritarismo incipiente.

Certamente há uma diferença entre o uso do nacionalismo puro e simples dentro de regimes de fato autoritários e dentro de democracias. O presidente chinês, Xi Jinping, e o presidente russo, Vladimir Putin, usam o nacionalismo para consolidar apoio – como, aliás, políticos ocidentais poderiam fazer –, mas eles não estão submetidos a restrições democráticas e podem quase ignorar o Estado de direito.

Xi encarcera seus críticos. Os críticos de Putin são, com frequência, mortos – apesar de, pelo que diz Trump, os serviços de segurança russos não terem nada a ver com isso. E mesmo que tivessem, Trump argumentou numa entrevista recente que não há nada a condenar. “Também temos muitos assassinos”, disse Trump. “Vocês acham que os EUA são inocentes?”

Quer se possa ou não chamar os EUA de “inocentes”, não há como negar que o presidente americano, diferentemente de seus colegas russo ou chinês, é obrigado a agir dentro de um conjunto de normas constitucionais e um particular sistema de valores. Ele não pode tolerar, muito menos organizar, o assassinato de críticos. O camarada Trump pode desprezar esse sistema, mas não pode se esquivar dele.

Isso não significa, é claro, que Trump não tentará fazê-lo. Sempre que possível, ele demite aqueles que dele discordam. Ou então procura desacreditar ou minar a resistência de oponentes com ataques incansáveis. Ele lançou uma chuva de críticas a juízes e tribunais que bloquearam seu decreto que proibia a entrada nos EUA de qualquer pessoa de sete países de maioria muçulmana.

Trump também lançou uma guerra contra a mídia, que seu principal estrategista, Stephen Bannon, rotulou como “partido de oposição”. Trump chama qualquer reportagem crítica ou não laudatória sobre seu governo ou suas políticas – até mesmo a publicação de resultados negativos de pesquisas de opinião – de “notícia falsa”. Ele denuncia jornalistas como a “mais baixa forma de vida”. 

Essa atitude não é exclusiva de Trump. Os governos polonês e húngaro têm solapado a liberdade de imprensa, por exemplo, limitando o acesso da mídia a autoridades. Em sistemas autoritários ou quase autoritários, a mídia sempre é vista como uma ameaça, quando não um alvo para repressão.

Mas a mídia americana não está se curvando a Trump. Aliás, muitas publicações – com exceção dos porta-vozes oficiais, que é basicamente o que a Fox News de Rupert Murdoch se tornou – tornaram-se guardiãs das instituições e dos valores que sustentam a liberdade. Elas defendem a crença de que, no coração de uma democracia funcional, saudável, deve haver uma conversa civilizada que respeite conhecimento, verdade, discordância e nuances.

Isso não significa que os jornalistas devam justificar a descrição que Bannon faz deles como oposição. Significa que devem continuar a fazer seu trabalho, rejeitar “fatos alternativos” e buscar a verdade. Assim como o escritor italiano Primo Levi descobriu que seu conhecimento científico e experiência o ajudaram a tocar a vida sob o regime de Mussolini e, em Auschwitz, jornalistas deveriam enfrentar os políticos desonestos de hoje comprometendo-se cada vez mais com seu trabalho.

Nesse sentido, os jornalistas britânicos têm muito a aprender com seus colegas americanos. Desde a votação do Brexit, boa parte da imprensa britânica não tem se apresentado para salvar a democracia de ser sufocada pelo sentimento majoritário. Ao contrário, a maioria dos tabloides impressos e mesmo um dos jornais mais tradicionais – que costumava se ver como um jornal de respeito – reforçaram preconceitos populistas.

Para esse grupo de jornais – cuja circulação combinada, embora em forte declínio, ainda excede 4 milhões – a “vontade do povo” é explicitamente definida como a da pequena maioria de eleitores favoráveis ao Brexit. Esqueça os outros 48% que votaram pela permanência. Castigue qualquer um que questione como esse processo destrutivo deve ser conduzido.

Enquanto a mídia populista britânica vocifera sobre restaurar a soberania parlamentar (como se houvesse mesmo sido retirada), ela denuncia qualquer membro do Parlamento que questione os rumos do país. A mídia ataca até mesmo o Estado de direito que lhe assegura a liberdade de que ela com tanta frequência abusa. Quando uma das mais altas cortes decidiu que o governo deveria realizar o Brexit de maneira legal, os juízes foram denunciados como “inimigos do povo”. Trump tuitou recentemente um comentário idêntico sobre a mídia americana.

Os jornalistas deveriam usar isso como uma medalha de honra – um emblema de seu trabalho duro para proteger a sociedade civil dos piores excessos do populismo. Ao contrário, na Grã-Bretanha, onde importantes meios de comunicação estão desafiando alguns dos valores que por muito tempo sustentaram a saúde e o vigor da democracia, pouca coisa resta agora entre nós e um futuro menos próspero e inferior. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

*ÚLTIMO GOVERNADOR BRITÂNICO DE HONG KONG E EX-COMISSÁRIO PARA ASSUNTOS EXTERNOS DA UE, É REITOR  DA UNIVERSIDADE OXFORD

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