Populismo vive metamorfose na América Latina

Para analistas, fenômeno, que nasceu na região, vem adquirindo novas formas para sobreviver ao tempo

Fernanda Simas, O Estado de S.Paulo

18 de setembro de 2016 | 03h00

As mudanças de governo na América Latina levantaram questões sobre o modelo populista na região e a eficácia de medidas adotadas por líderes “que têm relação direta com o povo”. Analistas consultados pelo ‘Estado’ dizem que a política latino-americana é um “pêndulo” e várias razões, entre elas econômicas, podem levar a novos arranjos institucionais.

“Não é certo, conceitualmente, falar em governos populistas. Temos, no caso da América Latina, governos com apoio popular que estão perdendo espaço, por vários motivos, entre eles econômicos”, diz o coordenador do curso de política e relações internacionais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, Moisés Marques.

Para ele, para ser chamado de populista, um governo teria de estar preocupado com a construção de um Estado nacional e com a superioridade da economia doméstica. “A incompatibilidade entre a matriz sociopolítica e as medidas colocadas em prática por esses governos populares, em algum momento, se colocam em atrito com setores importantes de suas economias e bases políticas.”

O professor da Universidade de Estocolmo, Benjamin Moffitt, acredita que o termo ainda possa ser usado para designar governos atuais e afirma que a América Latina “é a casa do populismo”. “Um elemento do populismo é a habilidade de expor as disfunções dos sistemas democráticos. Este é o caso da América Latina. O populismo ali é uma reação a democracias excludentes e corruptas”, explica.

Para Moffitt, o sistema continua forte na região, mas tem seus métodos questionados. “O populismo não está morrendo, mas passando por modificações. Ainda temos Equador e Bolívia como sistemas populistas fortes. Evo Morales foi muito bom para os pobres, mas criou uma relação flexível com a democracia”, disse.

A crise do modelo na região, segundo analistas, é resultado também da maneira como ele foi aplicado em cada país. “O modelo de (Juan Domingo) Perón, na Argentina, não é igual ao de (Lázaro) Cárdenas, no México, anterior a ele, e mesmo ao de (Getúlio) Vargas, no Brasil”, diz Marques. 

Moffitt ressalta que a figura do líder populista é essencial e pode ditar o rumo que o modelo terá. Para ele, um bom populista pode tornar a “política mais acessível e popular”. “Hugo Chávez, na Venezuela, é um grande nome do populismo. Ele levou muitos excluídos ao sistema político, o que é uma coisa boa.”

Para Marques, o que se viu no chavismo foi a recorrência à “vontade popular”, utilizando-se de mecanismos da “democracia direta”. “Não dá para chamar de populismo. Tanto que Chávez tentou usar o termo socialismo do século 21”, disse.

Marques explica que um governo pode não ter as principais características do populismo, mas adotar suas práticas mesmo assim. Como exemplo, ele cita a Colômbia após a paz com as Farc. “Juan Manuel Santos é um líder popular e nacionalista, embora venha do liberalismo. Mas, com a iminência do plebiscito sobre o acordo com as Farc, deve usar elementos populistas para legitimar sua decisão”, disse.

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