Maurizio Brambatti/EFE/EPA
Maurizio Brambatti/EFE/EPA

Populistas começam a se afastar de Trump

Líderes da direita europeia condenam ataque ao Capitólio incitado pelo presidente

Redação, O Estado de S.Paulo

14 de janeiro de 2021 | 04h00

A derrota eleitoral do presidente Donald Trump foi muito dura para os populistas europeus – ele foi um símbolo do sucesso e um forte apoiador da causa. No entanto, sua recusa em admitir a vitória de Joe Biden prejudicou as perspectivas de líderes de todo o continente com as mesmas opiniões.

“O que aconteceu no Capitólio depois da derrota de Donald Trump é um mau presságio para os populistas”, afirmou Dominique Moïsi, analista do Institut Montaigne em Paris. “Ela diz duas coisas: se vocês os elegem, eles não deixam o poder tão facilmente, e se os elegem, vejam o que podem fazer apelando para a ira popular.”

O modo como os populistas que ameaçam a Europa receberam os acontecimentos nos Estados Unidos pode ser visto em sua reação: um por um, eles se distanciaram do tumulto ou calaram.

Na França, Marine Le Pen, líder da Reunião Nacional, que deve desafiar o presidente Emmanuel Macron nas eleições de 2022, disse que a violência nos EUA a “deixou muito chocada”. Marine – que foi firme em seu apoio a Trump e insistiu na fraude eleitoral nos EUA – recuou, condenando “todo ato de violência que busca destruir o processo democrático”.

Assim como Le Pen, Matteo Salvini, o líder populista do partido da Liga italiano, que é anti-imigração, afirmou que “a violência nunca é a solução”. Na Holanda, Geert Wilders, um destacado líder do partido de direita, criticou o ataque ao Congresso americano. Com as eleições em seu país marcadas para março, Wilders escreveu no Twitter que “o resultado de eleições democráticas deve ser sempre respeitado, ganhemos ou não”.

Thierry Baudet, outro destacado populista holandês, que no passado se alinhou com Trump e o movimento contra a vacinação, ficou mudo, aparentemente por problemas causados por comentários antissemitas e divisões no seu partido, o Fórum para a Democracia.

Mesmo que os líderes populistas pareçam abalados pelos acontecimentos em Washington, permanece uma grande ansiedade entre os políticos tradicionais a respeito dos movimentos contrários aos governos na Europa, principalmente na confusão e a ansiedade produzidos pela pandemia do coronavírus.

Janis A. Emmanouilidis, diretora de estudos no Centro de Política Europeia em Bruxelas, disse que não existe um populismo uniforme na Europa. Os vários movimentos têm características diferentes em diferentes países, e os eventos externos são apenas um fator em sua diversificada popularidade.

“A impressionante polarização da sociedade e a violência em Washington” produzem uma forte dissuasão em outras sociedades, segundo Emmanouilidis. “Vemos onde ela leva, queremos evitá-la, mas temos consciência de que nós também poderíamos chegar a este ponto, de que as coisas podem sair do controle.”

Agora, como Le Pen, os líderes populistas italianos sentiram-se “obrigados a cortar os seus laços com algumas formas de extremismo”, afirmou Enrico Letta, ex-primeiro-ministro da Itália que atualmente é reitor da Escola de Assuntos Internacionais da Science Po de Paris. 

“Eles perderam a capacidade de preservar esta ambiguidade a respeito dos seus vínculos com os extremistas que se encontram nas margens”, acrescentou.

Ele ressaltou que a derrota de Trump e as reações violentas a ela foram consideráveis golpes ao populismo europeu. Segundo ele, somente o desastre do coronavírus representou “a vingança da competência e do método científico” contra o obscurantismo dos movimentos populistas, observando que os problemas que cercam o Brexit também têm sido um golpe.

Moïsi, porém, foi ainda mais sombrio. Autor de uma obra sobre as emoções da geopolítica, ele vê uma analogia perigosa no que aconteceu no Capitólio, observando que poderá representar um acontecimento heroico para muitos partidários de Trump.

Ele disse que o tumulto o fez lembrar do fracassado golpe de Adolf Hitler – o Putsch da Cervejaria – e do nascente Partido Nazista em Munique, em 1923. / NYT, TRADUÇÃO DE ANNA MARIA CAPOVILLA 

 

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