Bertrand Guay/AFP
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Populistas estimulam protestos contra passaporte de vacina na França e Itália

Partidos de extrema direita e eurocéticos criticam medidas de governos para controlar a variante Delta entre franceses e italianos não vacinados, em mais um capítulo do uso da pandemia de covid para fortalecer ideologias radicais dentro da União Europeia

Renato Vasconcelos e Thaís Ferraz, O Estado de S.Paulo

03 de agosto de 2021 | 05h00
Atualizado 03 de agosto de 2021 | 12h57

A resistência à adoção de medidas mais duras para obrigar céticos com a vacinação contra a covid-19 a se imunizar tem atraído o apoio de populistas de direita em países europeus. A pressão é mais evidente na Itália e na França, onde o chamado passaporte da vacina está em adoção e partidos de extrema direita defenderam protestos contra a adoção do passe.

Na Itália, o líder populista Matteo Salvini, da Liga, defendeu os protestos e mantém uma posição crítica ao passaporte, apesar de apoiar o governo do premiê Mario Draghi. Num ato contra o passe, ele acusou Draghi de excluir 30 milhões de italianos da vida social. Giorgia Meloni, do partido extremista Irmãos da Itália, afirmou que o projeto matará o turismo.

 Na França, há três fins de semana, o país vem enfrentando protestos convocados por grupos contrário as vacinas. No último sábado, cerca de 205 mil pessoas participaram de manifestações em Paris e outras cidades francesas. Na capital, uma das marchas foi liderada por Florian Philippot, ex-aliado da líder de extrema direita Marine Le Pen, hoje líder de seu próprio partido anti-UE. Houve confrontos entre policiais e manifestantes.

Especialistas que observam o fenômeno do populismo na Europa avaliam que esses partidos usam a pandemia de covid-19 para valorizar sua ideologia e dar coesão à sua base eleitoral, com o auxílio de temas obscuros, como o ceticismo em relação às vacinas, a adoção de remédios ineficazes e, agora, a resistência ao monitoramento do status vacinal da população por meio dos passaportes. 

Para Guilherme Casarões, doutor em Ciência Política pela USP e professor da FGV – EAESP, é possível traçar alguns paralelos entre as bases que compõem movimentos antivacina e aquelas que elegem políticos populistas. “O populista, por definição, baseia sua ação política num tripé: a divisão entre povo (do bem) e elites (do mal), a rejeição do politicamente correto e a criação de crises permanentes como forma de governar”, explica. “O movimento antivacina remete a esses três pontos: rejeita-se a elite médico-científica ‘autoritária’ que quer impor uma decisão aos indivíduos, combate-se o politicamente correto da obrigatoriedade da imunização e fabrica-se uma crise em que se ameaça as ‘liberdades’ dos indivíduos.”

Essa relação precede a pandemia de covid-19. No final de 2018, uma investigação do jornal britânico The Guardian concluiu que políticos populistas de direita e extrema-direita conseguiram capitalizar ondas de desconfiança em relação a vacinas como a do sarampo, conseguindo até aprovar leis que desobrigam a imunização. Em vários países, como Itália, França, Polônia e EUA, constatou o jornal à época, partidos populistas e movimentos antivacina estão em ascensão.

“Existe uma narrativa reinante entre os atuais movimentos de extrema direita que coloca as liberdades individuais como objetivo máximo”, afirma Casarões. “O movimento antivacina se inscreve nesse contexto: a vacina, vista como uma obrigação autoritária, coletivista e politicamente correta, é exatamente o símbolo contra o qual esses movimentos se insurgem.”

Casarões destaca, no entanto, que o movimento antivacina não é homogêneo. “A rejeição da imunização coletiva geralmente pertence a uma ideologia mais complexa, seja religiosa, política (libertária), até mesmo filosófica: muita gente não toma vacina porque acredita em curas naturais, por exemplo”, explica. “O grupo se fortalece de maneira igualmente distinta, a depender da agenda ideológica mais ampla das lideranças que assumem o poder.”

Para Ana Falkembach Simão, Coordenadora do curso de Relações Internacionais da ESPM Porto Alegre, a principal vantagem, para os populistas, de endossar movimentos antivacina é a aproximação com as bases. “Esses partidos conseguem dar coesão e sentido pras franjas da sociedade ao se unirem em torno de um tema, obviamente polêmico e obscuro”, diz. “O movimento antivacina é, para além da questão da vacina, um movimento contra o status quo e o mainstream.” 

Segundo ela, “o negacionismo (em relação à pandemia) esteve presente desde o começo. Os motivos são variados: desde não fechar a economia até se distanciar da ciência, até porque populistas trabalham em uma toada que exige distância desses grandes valores científicos”.

Ceticismo

Apesar do avanço da vacinação na Europa e na América do Norte, a maioria dos países ricos enfrenta dificuldades em superar os 75% da população imunizada com duas doses – número projetado por especialistas como o ideal para controlar a pandemia. 

A Itália tem 52% da população com o esquema vacinal completo e 64% com apenas uma dose. Na França, 47% das pessoas tomaram as duas doses e 62%,apenas uma. 

Com o aumento das infecções e hospitalizações por covid-19, principalmente entre quem ainda não está imunizado, ambos os países optaram pelo passaporte para restringir a circulação de quem ainda está suscetível ao vírus, principalmente em lugares fechados, onde o risco de contágio é maior. 

Na França, desde 21 de julho, só entra em espaços culturais e de lazer quem estiver vacinado. Na semana que vem, a medida valerá também para bares, restaurantes, aviões e trens. 

O passaporte na Itália tem medidas um pouco mais brandas. Ali, é necessário comprovar apenas uma dose da vacina ou um teste negativo de covid-19 nas últimas 48 horas para entrar em cinemas, museus, academias, restaurantes sem mesas ao ar livre ou eventos com aglomeração. 

A regra enfureceu os céticos com a vacinação, que julgam o projeto dos passaportes uma afronta a seu direito de ir e vir. Alguns dos manifestantes na Itália e na França chegaram a protestar com estrelas de Davi, em uma referência ao tratamento dado pelos nazistas aos judeus em guetos durante a 2ª Guerra, o que provocou protestos da comunidade judaica.

“Vivemos num tempo de tanta ignorância e violência que distorções dessa magnitude nem são reprimidas mais”, lamentou a senadora italiana Liliana Sagre, uma sobrevivente do Holocausto. “Esses gestos de maus gosto são uma loucura combinada com ignorância.”

Apesar dos protestos, no entanto, o interesse pela vacinação tem crescido na Itália e na França. 

Na Dinamarca, país pioneiro na adoção de medidas desse tipo, comerciantes dizem que a resistência dura apenas até o momento em que a grande maioria da população está apta a retomar a vida normal. 

Atualmente, 80% dos dinamarqueses estão vacinados. /COM AP

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