AP/Jens Meyer
AP/Jens Meyer

Populistas no Bundestag

O partido AfD conseguiu eleger 88 deputados e agora será uma pedra no sapato de Merkel

Gilles Lapouge, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

26 Setembro 2017 | 05h00

Como se esperava, Angela Merkel venceu as eleições legislativas na Alemanha e será chanceler pela quarta vez, como os dois recordistas que a precederam, Konrad Adenauer e Helmut Kohl. Vitória e “champanhe”, mas “champanhe” com um gosto estranho: foi como um anúncio precursor de dificuldades, de dramas. Ela sabia que estava com duas pedras no sapato. 

Como os socialistas (SPD) desta vez rejeitam dirigir o país com a CDU (os conservadores de Merkel), a chancelar deverá se aliar aos liberais do FPD, que estão em desacordo radical com os projetos de reforma da União Europeia preparados pela dupla franco-alemã Macron-Merkel.

A segunda pedra é ainda mais desconfortável: o partido AfD ficou com 13% dos votos. Criado em 2013 e ausente até agora de todas as assembleias, vai, portanto, entrar no Bundestag e em grande número: deverá ter 94 deputados, dos quais se esperam grandes mobilizações. O chefe da diplomacia, Sigmar Gabriel, disse antes da votação: “Se o AfD entrar no Bundestag, será a primeira vez após 72 anos que haverá nazistas no Parlamento”.

De fato, temos o que temer. A Alemanha, que massacrou a Europa de 1939 a 1945 e incinerou milhões de judeus, tornando-se na época a vergonha e o desgosto do mundo, foi desde 1945 o único país da Europa realmente purificado e desinfetado do mortal micróbio nazista. Calma, sábia, poderosa, respeitosa dos outros e do gênero humano, insensível aos odores selvagens que emanavam de seu passado, foi durante 70 anos o modelo cívico da bela Europa. Chocada e atordoada por sua vilania, órfã de sua memória, a Alemanha distanciou-se da História e navega por águas até agora tranquilas. 

O julgamento de Sigmar Gabriel é justo? É verdade que os líderes de um jovem partido populista causam arrepios. Um exemplo: Björn Hocke referiu-se, em 2007, ao Memorial do Holocausto em Berlim: “Nós, os alemães, somos o único povo no mundo a erguer um memorial à vergonha no coração de sua capital”. Esses dias, um dos chefes do AfD, Alexander Gauland, exigiu que Aydan Özoguz, o secretário de Estado de Merkel para a integração (de origem turca), seja “jogado na Anatólia”. E acrescentou: “Deveríamos nos orgulhar do que os soldados alemães fizeram durante as duas guerras mundiais”.

O outro dirigente do AfD, Alice Weidel, referia-se, em 2013, a Merkel e a seus ministros “como porcos e marionetes nas mãos das potências vitoriosas da 2.ª Guerra”. Se acrescentarmos que o AfD se declara “islamofóbico”, compreendemos que tal partido jamais aceitou o gesto espantoso e generoso de Merkel quando abriu as fronteiras aos migrantes, ao contrário da França, que “tapa o nariz” diante desses “vagabundos orientais”.

Se partimos para a análise, o veredicto é mais matizado. O AfD sucede a um outro partido extremista, o NPD, anticapitalista e neonacional-socialista, que jamais conseguiu se impor. O AfD se saiu melhor porque possui vários estratos. Inclui muitas pessoas que acham saudável ter as cabeças raspadas que tanto medo disseminam na parte oriental da Alemanha. Mas existem tendências menos radicais.

Até agora, há quatro vertentes: os “nacionais alemães”, os “nacionais liberais”, os “nacionais-Volkish (do povo)” e os “cristãos fundamentalistas”. São em sua maioria burgueses evoluídos, muito cultos, que sofrem com a globalização.

Entre os futuros deputados do AfD há uma maioria de advogados, líderes empresariais e pessoas com doutorado. Já os cristãos fundamentalistas estão mais ocupados com questões sociais (procriação, casamento, homossexualidade, etc). Em 2015, a imensa onda de migrantes aceita por Merkel chamou a atenção desse grupo para o grande tema obsessivo da imigração, que flui através de questões culturais, econômicas ou sociais.

No Estado, os homens do AfD não parecem ser capazes de empurrar a Alemanha para os porões do nacional-socialismo, apesar de que alguns de seus chefes jamais se consolarão com a derrota de Hitler. Mas é preciso levar em conta seu poder de sedução. Seu tema central, o medo dos migrantes, é um sentimento que vai amplamente além dos próprios fanáticos do AfD. 

Ele se encontra em todas as divisões da sociedade alemã e inclui o próprio partido de Merkel (principalmente sua ala bávara). Mas, igualmente no partido de Merkel, na ausência de uma “grande coalizão” com os socialistas do SPD, ela será condenada a governar com os “liberais do FDP”.

Ninguém nota que, por causa desse problema, os “ultradireitistas” da AfD estarão do mesmo lado que os “liberais” do FDP. Um sinal já foi dado e passou despercebido, mas é grave: o líder dos “liberais”, Christian Lindner, fez de uma “lei sobre a imigração” a condição para uma coalizão com a CDU-CSU de Merkel. Outro ponto transpirou, as comunicações que circulam entre os “liberais” do FDP e os ultras do AfD obscurecem o céu de Merkel, o da França e o da Europa.

Na França, Emmanuel Macron, um dos raros líderes que se declara a favor da União Europeia, que sonha em consolidá-la, em fortalecê-la, não pode abrir mão desse campo com Merkel. O partido dos liberais, o FDP, provável futuro aliado de Merkel, está claramente desconfiado quanto à Europa, por razões ao mesmo econômicas e patrióticas.

Os favoráveis à Europa, as pessoas que esperavam que a união, remodelada por Merkel e Macron, retomaria a “marcha real” de seus primórdios, arriscam-se a serem arrastados por estradas mal demarcadas. Merkel, cercada de duvidosos liberais esperando o retorno da “grande nação alemã”, precisará de alguns meses para recuperar suas “marcas”, se as encontrar. E, durante este tempo, as pessoas do AfD trabalharão. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO 

É CORRESPONDENTE EM PARIS

 

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