Por África, Obama ignora falhas de líderes

Pela aproximação com os EUA, presidente deu ênfase à criação de laços com países africanos na sua viagem ao continente

CHRISTI PARSONS/LOS ANGELES TIMES, O Estado de S.Paulo

31 de julho de 2015 | 02h03

Para o presidente Barack Obama, uma cuidadosa coreografia foi um exercício diário nos cinco dias da sua viagem à África, encerrada na terça-feira com um empolgante discurso aos chefes de governo do continente.

Não haveria apertos de mãos e sorrisos forçados com um personagem, ou palavras precisas em defesa de outro, enquanto ele tratava de problemas complexos com líderes conhecidos por sua história reprovável a respeito de direitos humanos e de corrupção.

Os presidentes do Quênia e de Uganda viajaram para se reunir com Obama, assim como o premiê etíope. O presidente do Sudão, sob mandado de prisão do Tribunal Criminal Internacional, teve a elegância de não comparecer, mas enviou seu chanceler.

No fim da visita ao Quênia, a terra do pai de Obama, e à Etiópia, os funcionários da Casa Branca consideraram que o presidente deu passos importantes.

Na terça-feira, ele se tornou o primeiro presidente americano no cargo a falar à União Africana e fez um apelo aos seus líderes pelo fim da corrupção institucional, pela libertação das mulheres da tirania com base no gênero e pelo fim da violência contra gays e lésbicas, considerada socialmente aceitável em muitos países.

"O progresso da África dependerá da democracia, porque os africanos, como os povos de todos os países, merecem a dignidade de controlar a própria vida", afirmou Obama. "Estou convencido de que as nações não poderão realizar a plena promessa de independência se não protegerem plenamente os direitos do seu povo".

Grande parte da viagem concentrou-se no combate ao terrorismo e à estabilização da África Oriental. Os assessores de Obama informaram que ele definiu com o presidente queniano, Uhuru Kenyatta, e com o primeiro-ministro da Etiópia, Hailemariam Desalegn, uma maior cooperação no combate ao grupo terrorista Al-Shabab e o fortalecimento da governança na Somália, onde os militantes atuam.

Na volta aos EUA, a indagação é se a companhia de tais personagens terá valido a pena para Obama conseguir tais realizações.

Yoweri Museveni,

presidente de Uganda, e seu partido governista reprimem a liberdade de expressão e de reunião, e a polícia e as forças de segurança combatem os grupos da oposição com total impunidade, segundo os defensores dos direitos humanos.

Kenyatta conseguiu se esquivar das acusações que o TPI move contra ele de envolvimento na violência ocorrida após as eleições de 2008. Desalegn, da Etiópia, declara que sua eleição foi livre e transparente, embora os partidos que se aliaram a ele tenham obtido 100% dos votos.

Os críticos ficaram chocados quando Obama definiu as eleições desse país como democráticas. "O presidente deu-lhes um beijo caloroso que eles não mereciam", afirmou Mark Lagon, presidente da Casa da Liberdade, grupo que trabalha pela democracia e pela transparência política.

Outros, entretanto, consideraram os comentários do presidente uma amostra do seu princípio da aproximação. "Não podemos ignorar que o apoio do primeiro-ministro Desalegn é imprescindível nessa iniciativa contra grupos como Al-Shabab, Estado Islâmico e Al-Qaeda", disse Steven Taylor, professor de política africana na American University.

Taylor afirmou que é possível que o governo americano considere alguns dos líderes totalitários dos nossos dias, como Franklin Roosevelt via o ditador da Nicarágua, Anastasio Somoza, quando afirmou, de uma maneira bem menos higienizada: "Talvez ele seja um mau ator, mas é o nosso mau ator".

Não houve foto comemorativa dos líderes da União Africana, com a qual costuma-se encerrar a maioria dos encontros de cúpula das quais o presidente participa.

No entanto, funcionários do governo reiteraram que Obama acredita que os EUA precisam exercer uma política de boa diplomacia com líderes em potencial cujas políticas são condenáveis. "Queremos nos aproximar de governos em questões de preocupação e interesse mútuo - da mesma maneira como fazemos com a China, e tratar com vários outros países nos quais as práticas ou as questões democráticas em matéria de liberdade de imprensa e de reunião não se coadunam com nossa posição a esse respeito", disse Obama, em Adis-Abeba, a capital da Etiópia.

Os conservadores aplaudiram o esforço do presidente em encontrar um terreno comum sobre comércio e negócios na África. O senador Jeff Flake (republicano do Arizona, que viajou com ele), e executivos de empresas, como Steve Case, reuniram-se ao grupo presidencial.

Obama levou escassos aumentos à ajuda. Entretanto, na maior parte, prometeu manter o apoio dos EUA à segurança alimentar, à adaptação, à mudança climática e ao projeto Power Africa, destinado a implantar redes elétricas para atrair investimentos.

"A ênfase de Obama na criação de laços empresariais e a melhorar as condições para os empreendedores também poderá acelerar a mudança de percepção dos americanos em relação ao continente para impulsionar o desenvolvimento", avaliou Joshua Meservey, analista para a África da Heritage Foundation.

Por outro lado, segundo o analista, os avanços não contrabalançam os temores de que ele esteja fazendo negócios com líderes que têm uma detestável história de menosprezo aos direitos humanos.

Os governos autoritários, como o da Etiópia, consideram a democracia, a sociedade civil, a imprensa livre "uma ameaça à sua existência" e estão dispostos a agir com violência para garantir a própria sobrevivência.

"Uma democracia forte e estável, que é o melhor sistema capaz de garantir que um governo respeite os direitos humanos do seu povo, só poderá ser construída num contexto autoritário mediante o esforço das bases. A contribuição mais eficiente que os EUA poderão fazer será encorajar esse esforço de todas as formas."

O ex-embaixador americano no Quênia, durante o governo do presidente George W. Bush, William Bellamy, definiu a viagem de Obama "um sucesso inqualificável".

"A Etiópia e o Quênia são países fundamentais", afirmou Bellamy. "Mereciam uma viagem presidencial. Não aprofundamos nossa influência sobre os governos com os quais temos divergências ficando em casa, esbravejando ou pregando sermões de longe", disse Bellamy. "Este tempo já passou, até mesmo na África." / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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