Por ano, 70 milh #245;es de pobres a menos

Objetivo de reduzir a pobreza pela metade foi atingida provavelmente h #225; tr #234;s anos

Laurence Chandy Geoffrey Gertz da Yale Global Online, O Estado de S.Paulo

09 de julho de 2011 | 00h00

Temos o costume de nos queixar da natureza intrat #225;vel da pobreza global e da falta de progresso para atingir as Metas de Desenvolvimento para o Mil #234;nio. O fato impressionante #233; que estamos no meio do per #237;odo de redu #231; #227;o mais acelerada da pobreza que o mundo j #225; viu. A propor #231; #227;o da popula #231; #227;o mundial que vivia na pobreza, estimada em 25% em 2005, tem sido reduzida ao ritmo anual de 1% ou 2%, tirando dessa situa #231; #227;o anualmente cerca de 70 milh #245;es de pessoas #150; n #250;mero equivalente #224; popula #231; #227;o da Turquia ou da Tail #226;ndia.

As estimativas oficiais da pobreza global s #227;o elaboradas pelo Banco Mundial, que acompanha a situa #231; #227;o dos #250;ltimos 30 anos. Durante a maior parte do per #237;odo, a tend #234;ncia observada foi a de uma redu #231; #227;o lenta e gradual nas estat #237;sticas. Em 2005, ano da mais recente estimativa global da pobreza, o n #250;mero de pessoas que ainda viviam abaixo da linha internacional da pobreza, definida pela renda m #237;nima de US$ 1,25 por dia, era de 1,37 bilh #227;o de pessoas #150; um recuo de 500 milh #245;es de pessoas em rela #231; #227;o ao in #237;cio dos anos 80, mas ainda muito distante do sonho de um mundo livre da pobreza.

Numa avalia #231; #227;o do desempenho dos pa #237;ses em desenvolvimento durante a #250;ltima parte do s #233;culo 20, os pa #237;ses podem ser divididos em duas categorias: a China e o restante. A impressionante transforma #231; #227;o da China #150; 30 anos atr #225;s, apenas 16% de sua popula #231; #227;o vivia acima da linha da pobreza, mas em 2005 apenas 16% de sua popula #231; #227;o vivia abaixo dela #150; esconde o fracasso dos demais. Se a China for exclu #237;da, a redu #231; #227;o de 500 milh #245;es no n #250;mero de pobres em todo o mundo torna-se um aumento de 100 milh #245;es de pessoas. Na regi #227;o mais pobre do mundo, a #193;frica Subsaariana, a propor #231; #227;o de pobres manteve-se praticamente est #225;vel e acima dos 50% ao longo do per #237;odo, coisa que, levando-se em considera #231; #227;o o r #225;pido crescimento populacional da regi #227;o, traduziu-se num n #250;mero de pobres quase duas vezes maior nesses pa #237;ses. Da mesma maneira, no Sul da #193;sia, na Am #233;rica Latina, na Europa Central e na #193;sia Central havia mais pobres em 2005 do que 25 anos atr #225;s.

Ao combinar os dados mais recentes do consumo dos lares de cada pa #237;s com os n #250;meros mais recentes do crescimento no consumo privado, fizemos estimativas da pobreza mundial para os anos de 2005 at #233; agora. A redu #231; #227;o da pobreza acelerou no in #237;cio de 2000 a um ritmo que se sustentou ao longo da d #233;cada, mesmo durante os piores per #237;odos da crise financeira. Hoje, estimamos que haja no mundo aproximadamente 820 milh #245;es de pessoas vivendo com menos de Us$ 1,25 por dia. Isso significa que o alvo principal das Metas de Desenvolvimento para o Mil #234;nio #150; reduzir pela metade a pobreza mundial at #233; 2015 em rela #231; #227;o a seu n #237;vel de 1990 #150; foi provavelmente atingido tr #234;s anos atr #225;s.

Enquanto foram necess #225;rios 25 anos para reduzir em 500 milh #245;es de pessoas o n #250;mero de pobres at #233; 2005, o mesmo feito foi provavelmente realizado nos seis anos que se passaram desde ent #227;o. Nunca antes tantas pessoas foram tiradas da pobreza no decorrer de um per #237;odo t #227;o curto.

A pobreza n #227;o est #225; apenas recuando rapidamente: est #225; caindo em toda as regi #245;es e na maioria dos pa #237;ses. N #227;o surpreende que a redu #231; #227;o mais acentuada tenha ocorrido na #193;sia. Mas n #227;o foram apenas as economias din #226;micas do Leste Asi #225;tico, como a China, que registraram grandes feitos na redu #231; #227;o da pobreza. Gigantes do Sul da #193;sia, como #205;ndia e Bangladesh, e economias da #193;sia Central, como o Usbequist #227;o, tamb #233;m avan #231;aram muito. At #233; a #193;frica Subsaariana est #225; partilhando desse progresso. A regi #227;o finalmente venceu o limiar simb #243;lico de 50% da popula #231; #227;o na pobreza em 2008 e seu n #250;mero de habitantes pobres recuou pela primeira vez em sua hist #243;ria.

O progresso impressionante #233; impulsionado por um r #225;pido crescimento econ #244;mico observado em todo o mundo em desenvolvimento. Durante os anos 80 e 90, o crescimento da renda per capita nos pa #237;ses em desenvolvimento teve m #233;dia de apenas 1% ou 2% ao ano, muito aqu #233;m do necess #225;rio para avan #231;ar de maneira significante na redu #231; #227;o da pobreza. Desde aproximadamente 2003, o crescimento nos pa #237;ses em desenvolvimento decolou, apresentando m #233;dia anual de 5% de aumento na renda per capita.

Fontes de crescimento. J #225; se pode apontar para uma s #233;rie de prov #225;veis fontes desse crescimento emergindo ou acelerando perto da virada do s #233;culo: um boom nos investimentos provocado pela alta no pre #231;o das commodities; efeitos colaterais do alto crescimento observado em grandes economias emergentes abertas que usam cadeias de suprimentos transfronteiras; a diversifica #231; #227;o que abriu espa #231;o para novos mercados exportadores, desde as flores cortadas aos call centers; a difus #227;o de novas tecnologias, em particular a r #225;pida ado #231; #227;o dos celulares; um maior investimento p #250;blico e privado na infraestrutura; o fim de um grande n #250;mero de conflitos e uma maior estabilidade pol #237;tica; e o abandono de estrat #233;gias de crescimento inferiores como a substitui #231; #227;o de importa #231; #245;es, trocada pelo foco na sa #250;de macroecon #244;mica e uma maior competitividade.

Esses fatores s #227;o manifesta #231; #245;es de um conjunto de tend #234;ncias mais amplas #150; a ascens #227;o da globaliza #231; #227;o, a difus #227;o do capitalismo e a melhoria na qualidade da governan #231;a econ #244;mica #150; que, juntas, permitiram que o mundo em desenvolvimento come #231;asse a convergir com a renda das economias avan #231;adas ap #243;s s #233;culos de diverg #234;ncia. Os pa #237;ses pobres que apresentam o maior sucesso hoje s #227;o aqueles que se envolvem com a economia global, permitindo que os pre #231;os de mercado equilibrem oferta e demanda e distribuam recursos escassos, promovendo estrat #233;gias econ #244;micas que incentivam o investimento, o com #233;rcio e a cria #231; #227;o de empregos. #201; essa poderosa combina #231; #227;o que distingue o per #237;odo atual de uma hist #243;ria de crescimento ins #237;pido e pobreza intrat #225;vel.

A luta contra a pobreza h #225; muito #233; uma meta moral e estrat #233;gica dos governos ocidentais. Mas os n #250;meros dos #250;ltimos anos devem surpreender esses pa #237;ses avan #231;ados. Aos olhos deles, o destino dos pobres do mundo dependia principalmente do progresso em tr #234;s frentes: perd #227;o das d #237;vidas, aumento nas ofertas de ajuda e mais liberdade no com #233;rcio.

Os l #237;deres mundiais encontraram-se em numerosas reuni #245;es para apoiar e conferir for #231;a a essas prioridades, mas, apesar desses esfor #231;os, os sucessos foram dif #237;ceis de se produzir. Apesar de mais de US$ 80 bilh #245;es da d #237;vida de pa #237;ses pobres j #225; terem sido perdoados, a maioria dos pa #237;ses fracassou em atingir as metas globais de oferta de aux #237;lio, e a Rodada Doha definhou na Organiza #231; #227;o Mundial do Com #233;rcio.

Felizmente para os pobres de todo o mundo, essa l #243;gica revelou-se equivocada. Embora o progresso em cada uma das tr #234;s frentes citadas pudesse ajudar os pa #237;ses em desenvolvimento, refor #231;ando a capacidade deles de lutar contra a pobreza, a import #226;ncia de cada uma delas foi, sem d #250;vida, exagerada, revelando mais a respeito dos sentimentos de responsabilidade e magnanimidade do Ocidente do que sobre aquilo que seria de fato necess #225;rio para trazer o desenvolvimento.

Pensando na longa dura #231; #227;o hist #243;rica, a queda dram #225;tica na pobreza observada nos #250;ltimos seis anos representa o in #237;cio de uma nova era.

Estamos prestes a entrar num per #237;odo de desenvolvimento em massa, no qual a maioria da popula #231; #227;o mundial deixar #225; a pobreza e chegar #225; #224; classe m #233;dia. As implica #231; #245;es de tal mudan #231;a ser #227;o vastas, alterando tudo #150; desde as oportunidades econ #244;micas globais at #233; as press #245;es enfrentadas pelas institui #231; #245;es globais de governo em rela #231; #227;o ao meio ambiente e aos recursos naturais. Mas se trata fundamentalmente da hist #243;ria de como bilh #245;es de pessoas em todo o mundo finalmente ter #227;o a chance de construir vidas melhores para si e para seus filhos. Devemos nos considerar sortudos por sermos testemunhas de um momento t #227;o not #225;vel quanto o atual. / TRADU #199; #195;O DE AUGUSTO CALIL

LAURENCE CHANDY #201; BOLSISTA DO PROGRAMA DE ECONOMIA E DESENVOLVIMENTO GLOBAL DA BROOKINGS INSTITUTION; GEOFFREY GERTZ #201; ANALISTA DE PESQUISAS A SERVI #199;O DO MESMO PROGRAMA.

PUBLICADO COM AUTORIZA #199; #195;O DA YALE GLOBAL ONLINE (WWW.YALEGLOBAL.YALE.EDU) 2008 #150; YALE CENTER FOR THE STUDY OF GLOBALIZATION

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