Reprodução
O Estado Islâmico divulga vídeo em que o jornalista americano James Foley, desaparecido na Síria desde 2012, é decapitado. Vestido de preto, o integrante do EI está com o rosto coberto. A organização terrorista ameaça matar outro capturado, possivelmente Steven Sotloff. Reprodução

Por dentro da máquina de propaganda do EI

Acompanhe em quatro capítulos as ações do grupo jihadista para recrutar jovens

O Estado de S. Paulo

08 de dezembro de 2015 | 09h04

Em uma série de reportagens sobre a ascensão do Estado Islâmico e a implicação desse crescimento no Oriente Médio, o jornal Washington Post mostra como funciona a dinâmica do grupo jihadista e as formas de propaganda que têm atraído milhares de jovens, como as atribuições distribuídas a cada membro do grupo em tiras de papel com a bandeira negra do EI, o selo de mídia do grupo e o local de filmagem do dia.

Acompanhe a partir desta terça-feira, 8, os capítulos sobre a máquina de propaganda do EI:

O câmera:

Abu Hajer, marroquino de fala mansa com uma barba rala e modos tranquilos, disse ter sido um jihadista envolvido com a produção de conteúdo midiático por pelo menos uma década antes de chegar à Síria, em 2013. Ele começou a participar de fóruns na internet depois da invasão americana ao Iraque em 2003 e mais tarde tornou-se administrador do conhecido site Shamukh, no qual era responsável por convidar novos membros e monitorar conteúdo publicado por militantes.

Essas credenciais abriram caminho para que ele cumprisse tarefas encomendadas pelo Estado Islâmico. O grupo tem um sistema elaborado de avaliação e treinamento de novos recrutas. Abu Hajer disse que pouco antes de chegar à Síria foi treinado pela equipe de mídia do EI. Ele passou dois meses em um treinamento militar básico antes de entrar em um programa de um mês para operadores de conteúdo midiático. O projeto é especializado em filmagem, edição e montagem das entrevistas e vídeos publicados pelo EI, segundo ele. Depois de completar o curso, recebeu uma câmera Canon, um smartphone Samsung Galaxy e a tarefa da unidade de mídia do califado em Raqqa. 

Na Síria, o marroquinho e a família receberam uma casa com jardim e um carro - uma Toyota Hilux com tração nas quatro rodas - além de um salário mensal de US$ 700, dinheiro, comida, roupa e equipamentos. Ele também não precisava pagar os impostos religiosos cobrados pelo EI. 

Rapidamente, Abu Hajer desenvolveu uma rotina que começava logo de manhã com filmagens, cujas instruções eram enviadas em pedaços de papel. A maior parte dos trabalhos era tranquila, como a filmagem de festas religiosas. 

O câmera conta que encontrou uma vez um refém ocidental: o jornalista britânico John Cantlie, a quem os militantes do EI obrigavam que fosse filmado fazendo reportagens zombando dos governos europeus e americanos e exaltando o califado. "Não sei dizer se ele foi forçado ou ameaçado. Mas ele andava livremente", disse Abu Hajer.

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A máquina

As contradições do aparato de propaganda do Estado Islâmico podem fazer sua estrutura e estatégia parecerem incoerentes. </p>

O Estado de S. Paulo

09 de dezembro de 2015 | 07h00

O grupo exerce um controle extremamente rígido sobre a produção de seus vídeos e mensagens, mas baseia-se no caos da internet e mídias sociais para divulgá-los. Seus lançamentos se agrupam em torno de temas aparentemente incompatíveis: às vezes, retratando o califado como um domínio calmo e idílico, outras, como uma sociedade inundada de violência apocalíptica. 

As mensagem dúbias são concebidas para influenciar um público dividido. As decapitações, imolações e outros 'espetáculos' são empregados tanto para ameaçar os adversários ocidentais, como para apelar para homens e meninos muçulmanos marginalizados inclinados a darem um salto para a guerra islâmica.

A coleção criteriosa retrata o Estado Islâmico como um destino habitável, um estado benevolente empenhado em obras públicas. Vídeos exibem a construção de mercados públicos, uma sorridente polícia religiosa em patrulha de bairros e moradores pescando ou se divertindo nas margens do Eufrates.

Mesmo o conceito do califado tem um duplo aspecto. A ascensão do grupo terrorista é resultado, principalmente, de seu poder militar, demonstrado no território tangível que foi capturado. Mas uma quantidade notável de sua energia é dedicada à criação de uma  versão idealizada de si mesmo online e o grupo vem moldando esse império virtual.

Esse projeto foi confiado a uma divisão de mídia que foi operacional bem antes do califado ser formalmente declarado em 2014. Autoridades de inteligência dos EUA disseram que eles têm pouco conhecimento sobre quem controla a estratégia de propaganda do Estado Islâmico, embora presume-se que seja Abu Muhammad al-Adnani, porta-voz principal do califado.

Essa ala tem contado com veteranos de equipes de mídia da Al-Qaeda, jovens recrutas fluentes em plataformas de mídia social e uma disciplina burocrática de regimes totalitários. Desertores e membros atuais dizem que os telefones e câmeras que eles trouxeram para a Síria foram apreendidos na chegada pelo Estado Islâmico para evitar que imagens não autorizadas e potencialmente pouco lisonjeiras caíssem na internet.

Apenas os membros de confiança da equipe são autorizados a transportar câmeras e, mesmo assim, seguindos diretrizes rígidas. Uma vez terminadas as gravações de um dia, elas são arquivadas em laptops, transferidas para cartões de memória e, em seguida, entregues aos sites designados.

Em um enclave do EI perto de Alepo, a sede da divisão de mídia fica em uma casa de dois andares em um bairro residencial, explicaram desertores. O local é protegido por guardas armados e somente aqueles com permissão dos emirs regionais são autorizados a entrar.

Cada andar tem quatro quartos embalados com câmeras, computadores e outros equipamentos de alta definição, disse Abu Abdullah, de 37 anos, que fez visitas ocasionais ao local como um agente de segurança e logística. O acesso à internet é feito por um serviço wireless turco.

A casa serviu como um escritório editorial da Dabiq, a revista on-line do Estado Islâmico. Alguns dos membros da equipe também trabalharam para a Al-Furqan, ala principal de mídia do grupo terrorista, que apresenta a maioria dos vídeos e demonstrações em  público.

No total, há mais de 100 agentes de mídia atribuídos à unidade, disse Abu Abdullah. "Alguns deles eram hackers, outros, engenheiros. "

Abu Abdullah não tinha nenhuma afiliação com o braço de mídia, mas muitas vezes ele fez o trabalho. Cerca ocasião, ele foi aproveitado para instalar um gerador na sede para que não ficasse sem funcionar ao faltar a eletricidade.

Outra atribuição dele envolveu a recuperação de cadáveres nos locais de batalha, organizando-os para serem fotografados para vídeos de propaganda exaltando seu sacrifício. Ele teve de lavar o sangue seco, colocar os cantos da boca em sorrisos de mártires dos lutadores mortos e aumentar seus dedos indicadores em um gesto adoptado pelo Estado islâmico como um símbolo de sua causa.

Muitos jovens americanos conheceram o Estado Islâmico pelos vídeos dramáticos em que Mohammed Emwazi - um mascarado militante com um sotaque britânico conhecido como "Jihadi John" - empunhava a faca, cortando as gargantas de reféns ocidentais, incluindo os americanos James Foley e Steve Sotloff. 

Os lançamentos mostraram o profissionalismo de iluminação, som e posicionamento da câmera. Alguns vídeos, incluindo um que mostra o decapitado americano Peter Kassig, parecem ter empregado efeitos especiais de software para impor digitalmente imagens de Kassig e seu assassino contra um pano de fundo dramático.

Abu Abdullah disse ter testemunhado uma execução pública na cidade de Bab em que uma equipe de propaganda coordenou quase todos os detalhes. Eles trouxeram um quadro branco rabiscado com escrita árabe para que um funcionário encarregado de recitar supostos crimes do homem condenado fizesse de conta que lia. O carrasco encapuzado levantava e abaixava sua espada várias vezes para que as equipes pudessem filmar a lâmina de vários ângulos. A decapitação ocorreu somente quando o diretor da equipe de câmera disse que era hora de prosseguir.

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A marca

<span style="line-height:1.6">Por duas décadas, a marca dominante do Islã era a Al-Qaeda. Mas o Estado Islâmico tem mudado essa perspectiva.</span></p>

O Estado de S. Paulo

10 de dezembro de 2015 | 07h00

Os textos da Al-Qaeda sempre exaltavam seus líderes, especialmente Osama bin Laden, mas a propaganda do EI geralmente foca em seus próprios soldados e seguidores. Aparições do líder Abu Bakr al-Baghdadi, por exemplo, são raras.

Ao contrário do formato utilizado pela Al-Qaeda, os vídeos do Estado Islâmico são cinematográficos, com grande ênfase em cenas dramáticas e efeitos especiais. “O grupo tem muita consciência de sua própria imagem, semelhante a uma corporação”, disse um funcionário da inteligência dos EUA envolvido no monitoramento das operações de mídia do Estado Islâmico. A abordagem do grupo extremista a respeito da construção de sua marca é tão disciplinada, segundo o funcionário, que se assemelha ao impacto de marcas como Coca-Cola e Nike.

No entanto, a frequência e o volume dos lançamentos do Estado Islâmico são surpreendentes. O grupo produz centenas de vídeos em mais de seis línguas diferentes, faz transmissões de rádio diariamente e consegue cerca de 2 milhões de menções no Twitter por mês.

Twitter e Facebook têm lutado para encerrar contas e perfis associados ao Estado Islâmico, e banir a distribuição de mensagens, mas os usuários encontraram formas de contornar a situação. Milhares de pessoas têm migrado para novos serviços que são menos vulneráveis às análises do governo, incluindo o Telegram, um aplicativo de mensagens criado por uma empresa de software russa que começou a desconectar canais do EI após os ataques de Paris.

Em uma análise dos textos divulgados pelo grupo terrorista, o especialista em militância jihadista Charlie Winter identificou 1.146 peças distintas de propaganda, incluindo fotos, vídeos e áudios, durante um único período do mês.

Winter contou cerca de 36 escritórios de imprensa separados que respondem à sede do Estado Islâmico em Raqqa, incluindo afiliadas na Líbia, Afeganistão e oeste da África, e notou evidências de uma coordenação extraordinária.

Em um determinado ponto da análise, ele notou que todas as afiliadas haviam simultaneamente migrado para um novo logotipo com a mesma caligrafia árabe. O ícone apareceu no mesmo lugar em todas as imagens e no primeiro quadro de todo vídeo lançado.

“Havia claramente um comunicado emitido”, disse Winter. “O Estado Islâmico está constantemente se esforçando para se tornar formal, o mais próximo do burocrático possível, para manter a aparência de ser um Estado.” O esforço para estimular a legitimidade é particularmente universal dentro do califado.

Os mesmo vídeos utilizados para chocar o mundo são usados internamente para intimidar as pessoas menos entusiasmadas do grupo extremista. Um fluxo constante de mensagens utópicas é selecionado para convencer as pessoas, ao estilo soviético, da superioridade do Estado Islâmico.

Enquanto o acesso à internet é normalmente restrito ao público, as unidades de propaganda instalam telas grandes nos bairros onde os moradores saem durante a tarde para assistir vídeos transmitidos de notebooks.

“É como um cinema”, disse Abu Hourraira al-Maghribi, um jovem de 23 anos com a cabeça raspada. Os vídeos são retirados da grande videoteca do Estado Islâmico, explica ele, e descrevem “a rotina, o treinamento militar e as decapitações”.

Os vídeos mais famosos do Estado Islâmico, como aqueles que mostram as decapitações de reféns e o piloto jordaniano sendo queimado vivo em uma jaula, foram exibidos várias vezes, disse ele.

Abu Hourraira afirmou que foi a uma exibição do tipo, próxima à Universidade de Mossul, que atraiu cerca de 160 pessoas, incluindo ao menos 10 mulheres e 15 crianças. Um dos vídeos mostrou uma execução feita por Mohammed Emwazi. Acredita-se que ele tenha sido morto em novembro em um ataque de um drone americano.

“As crianças, elas não desviam o olhar, elas ficam fascinadas por aquilo.”, contou Hourraira. Jihadi John se tornou um assunto de tanta fascinação que algumas crianças começaram a imitá-lo, usando “roupas pretas e um cinto com uma pequena faca”.

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Os desertores

<span style="line-height:1.6">A campanha de mídia implacável do Estado Islâmico impulsionou uma migração mundial de militantes. Mais de 30 mil combatentes estrangeiros de mais de 115 países se dirigiram à Síria desde o início da guerra civil naquele país, em 2011. Desse total, pelo menos um chegou no ano passado, a maior parte se juntar ao EI, de acordo com estimativas da inteligência dos EUA.</span></p>

O Estado de S. Paulo

11 de dezembro de 2015 | 07h00

Com exceção de um dos desertores entrevistados, todos os outros disseram que suas decisões de ir para a Síria poderiam ser atribuídas a vídeos vistos na internet ou a encontros em redes sociais que acenderam um impulso jihadista. O único que não se encaixou nesses parâmetros disse que tinha sido incitado por um amigo a ir para a Síria e foi imediatamente preso ao se recusar a lutar.

Abu Hourraira, que passou vários meses em combates no Iraque, afirmou que fez buscas na internet sobre o EI quando o grupo começou a ganhar as manchetes por sua atuação na guerra síria. Ele decidiu abandonar seu trabalho em uma lavanderia em Casablanca, no Marrocos, apenas depois de ver vídeo do grupo carregado de momento emotivos.

"Alguns eram como os filmes de Van Damme", disse Hourraira, se referindo ao ator Jean-Claude Van Damme. "Você vê esses homens lutando e você quer se tornar um desses bravos heróis."

Como muitos outros países na região, o Marrocos tem lutado para compensar essa atração de jovens pelo grupo jihadistas. Funcionários de agências de segurança do país dizem que mais de 1,5 mil homens já se dirigiram ao Iraque a à Síria para se juntar ao Estado Islâmico, além de ao menos 500 mulheres e crianças - em geral para acompanharem seus maridos, filhos ou pais.

"A luta agora é contra a propaganda porque ela tem um papel fundamental nesses números (de jovens recrutados)", disse um funcionário experiente do setor de segurança marroquino que não pôde ser identificado. Para comparação, o recrutamento da Al-Qaeda era feito quase que exclusivamente com base no contato direto em mesquitas e outros ambientes, disse o especialistas, "mas agora, 90% (dos combatentes) são recrutados online".

Desertores oferecem visões conflitantes sobre se o Estado islâmico vai prosperar. Alguns dizem que um grupo de jovens no Iraque e Síria já estão amadurecendo imersos na propaganda e ideologia do grupo e uma geração de crianças estava sendo criada para idealizar seus militantes mascarados.

Mas todos atribuíram suas decisões de deixar o Iraque e a Síria a uma combinação de fatores, incluindo não apenas o temor por sua segurança, mas também um desencanto que os tomou quando a realidade do califado não conseguiu igualar a versão que tinham encontrado online.

Alguns disseram que ficaram assombrados com cenas de crueldade que eles viram presencialmente, mas que as equipes de propaganda do Estado islâmico deixavam de fora dos vídeos. Abu Abdullah, que usou um capuz para ocultar sua identidade durante a entrevista, disse que testemunhou um assassinato em massa perto de Alepo em que combatentes Estado Islâmico dispararam contra uma multidão de alauitas, incluindo mulheres e crianças.

Na ocasião, quando um menino de 10 anos de idade sobreviveu ao massacre, o militante de maior patente no grupo "sacou uma pistola e atirou nele", disse Abdullah. O assassinato foi registrado pelas sempre presentes equipes de câmera, disse o ex-combatente, mas a filmagem "nunca foi ao ar".

Abu Hajer, um ex-cinegrafista do EI, afirmou que sua convicção no grupo começou a diminuir quando ele se envolveu na administração dos tribunais religiosos do Estado islâmico. Depois de compartilhar pontos de vista que ele estarem em desacordo com seus superiores, as vantagens de sua posição dentro do grupo de mídia do EI foram retiradas.

"Eles tiraram minhas armas e minha renda mensal", além de sua moradia e seu carro, disse Hajer. Um parente disse que Hajer tirou sua família da Síria depois de ter recebido um "aviso" em que um militante EI passou um dedo em sua garganta.

Um colega simpático a Hajer lhe deu a papelada necessária para passar pelos checkpoints do EI no caminho da saída da Síria, disse o cinegrafista. Outro amigo lhe deu dinheiro para colocar a família em um voo para a Turquia. As autoridades marroquinas estavam esperando por ele no aeroporto de Casablanca.

Ele agora divide uma cela lotada com outros militantes em uma prisão marroquina de muros altos, onde deverá cumprir mais dois anos da pena de três anos à qual foi sentenciado. Perguntado se tem algum preocupação de que seu trabalho possa induzir os outros a se juntar ao EI, Hajer deu uma resposta ambígua. "Até certo ponto, me sinto responsável", disse ele. "Mas eu não sou o principal motivo." Os vídeos feitos por Hajer continuam disponíveis na internet.

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