Por dentro da semana histórica no Afeganistão

Acordo de paz é passo histórico, mas negociações podem ainda levar meses e até anos

Dan Lamothe / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

01 de março de 2020 | 05h01

CABUL, Afeganistão - O Taleban e os Estados Unidos haviam acabado de firmar uma trégua de sete dias para reduzir a violência e, possivelmente, acabar com a guerra mais longa dos Estados Unidos, mas autoridades americanas e afegãs se perguntavam se o Taleban cumpriria sua parte no acordo.

Então, um míssil atingiu a estação de bombeiros da base aérea de Bagram, na primeira hora do período de “redução da violência”, iniciado à meia-noite do último sábado. Seguiram-se dezenas de outros ataques em todo o país, entre eles emboscadas do Taleban que mataram pelo menos seis pessoas na província de Balkh, no norte do país.

Autoridades afegãs disseram que a violência caiu cerca de 80% em todo o país. Mas os ataques levaram o general do exército Austin “Scott” Miller, principal comandante dos Estados Unidos no Afeganistão, a orientar sua equipe para falar com os líderes do Taleban a respeito da restrição a seus combatentes.

“A mensagem que passei é a seguinte: se eles não conseguirem controlar isso, vamos começar a atirar”, disse Miller em uma reunião, referindo-se à situação em Balkh. “É uma decisão muito difícil, diante da oportunidade de acabar com a violência”.

O míssil de Bagram passou “muito perto de atingir os membros da coalizão”, acrescentou, algo que “seria uma coisa difícil de contornar, apesar de todo o trabalho”.

As cenas de bastidores, observadas pelo Washington Post, ilustram como os líderes militares dos Estados Unidos estão tentando encerrar a guerra mais longa da história americana, antes da esperada assinatura de um acordo de paz com o Taleban no sábado.

Para as autoridades de defesa americanas, o acordo permite que os Estados Unidos mantenham uma posição no Afeganistão, dependendo das condições do território, e monitorem se o Taleban busca a paz ou realiza ataques contra o Estado Islâmico, que também está em guerra com o Taleban. O acordo também poderia deixar as forças americanas vulneráveis a algumas baixas.

Cerca de 2.400 militares americanos foram mortos no Afeganistão desde 2001 e mais de 20 mil foram feridos. A Missão de Assistência da ONU no Afeganistão revelou que mais de 100 mil civis foram mortos no país na última década.

No início desta semana, autoridades militares americanas estavam confiantes de que a assinatura do acordo poderia conter o derramamento de sangue contra o Taleban. De fato, houve poucos ataques em províncias como Helmand, Paktika e Nangahar, todas elas foco de insurgência, e civis chegaram a celebrar nas ruas de algumas localidades.

Em Balkh, onde os ataques chamaram a atenção dos Estados Unidos, acredita-se que um comandante do Taleban estivesse operando sem a aprovação de seus líderes, disse um alto oficial militar americano, falando sob condição de anonimato devido à sensibilidade da questão. O comandante precisava “se controlar” e cumprir os termos da trégua de sete dias, mensagem que foi transmitida aos líderes do Taleban que o comandam, disse a autoridade dos Estados Unidos.

A redução da violência - quase um cessar-fogo completo - abriu as portas para a assinatura, neste sábado, de um histórico acordo de paz, o qual exige que os Estados Unidos retirem do país milhares dos cerca de 12 mil militares em poucos meses - e muitos outros assim que as condições permitirem.

Na tarde de sexta-feira, em Washington, o presidente Donald Trump anunciou que o secretário de Estado, Mike Pompeo, testemunhará a assinatura do acordo com o Taleban, enquanto o secretário de Defesa, Mark Esper, emitirá uma declaração conjunta com o governo do Afeganistão.

“Se o Taleban e o governo do Afeganistão cumprirem esses compromissos, teremos um caminho poderoso para acabar com a guerra no Afeganistão e trazer nossas tropas para casa”, disse Trump. “Esses compromissos representam um passo importante para a paz duradoura em um novo Afeganistão, livre da Al Qaeda, do ISIS e de qualquer outro grupo terrorista que queira nos atacar”.

Trump esteve perto de assinar um acordo com o Taleban em setembro, em Camp David, mas a assinatura foi cancelada depois que o Taleban assumiu a responsabilidade por um atentado suicida em Cabul que matou um soldado norte-americano, o sargento Elis Angel Barreto Ortiz, e cerca de uma dúzia de outras pessoas.

O acordo será o primeiro passo de uma jornada ainda cheia de desafios. Entre estes, superar a desconfiança de todos os lados, consertar uma situação política tóxica entre altos funcionários do governo afegão e lidar com membros irreconciliáveis do Taleban, que podem se unir ao Estado Islâmico por insatisfação com o acordo.

Também existe a preocupação de que o Estado Islâmico intensifique seus ataques. A milícia assumiu a responsabilidade por um atentado na quinta-feira em Cabul, no qual pelo menos nove pessoas foram feridas quando explosivos em uma bicicleta detonaram.

Negociações adicionais entre o governo afegão e o Taleban podem levar meses e anos, ou desmoronar de vez. Os dois lados provavelmente terão de abordar questões como a maneira pela qual o território será controlado, que poder terá o Taleban, como se dará a libertação de prisioneiros e como salvaguardar os direitos das mulheres e outras proteções obtidas desde a queda do Taleban, em 2001.

Este relato da semana das forças armadas dos Estados Unidos no Afeganistão se baseia em vários dias de entrevistas com autoridades americanas e afegãs, entre elas Miller, que se deparavam com a possibilidade de entrar em uma nova era.

Miller, que se tornou general ao longo de uma carreira que passou por algumas das unidades militares mais secretas do país, disse em uma rara entrevista de 40 minutos na quinta-feira que sua conversa com os líderes do Taleban era “séria e pragmática”. O grupo, disse ele, leva a sério o cumprimento de suas obrigações e considera que os Estados Unidos fazem o mesmo.

“Pelo que vi, estou satisfeito que o Taleban tenha feito um esforço de boa fé”, disse Miller, falando em seu escritório em Cabul. “A violência que vimos é esporádica. Em alguns casos, parece apenas provocativa, embora tenha havido algumas fatalidades - e essas são coisas sobre as quais falaremos diretamente com o Taleban”.

A expectativa, segundo Miller, é que o Taleban continue reduzindo seus ataques. Um sinal positivo que as autoridades americanas observaram: os comandantes do Taleban disseram a seus combatentes para cessar fogo em uma mensagem distribuída pelo WhatsApp.

Miller e sua equipe começaram a reduzir as forças de cerca de 14 mil soldados no ano passado e devem fazer um novo corte, de 12 mil para 8.600 nos próximos meses, como parte do acordo. É provável que o Taleban ressalte que o acordo exige a saída de todas as forças norte-americanas com o tempo, ao passo que funcionários do governo dos Estados Unidos e do Afeganistão devem enfatizar que qualquer retirada será condicionada à avaliação da situação do território.

Sediq Sediqqi, um porta-voz do presidente Ashraf Ghani, contestou que o ponto importante do acordo entre os Estados Unidos e o Taleban seja a retirada das forças norte-americanas.

“Será uma oportunidade para o Taleban desistir da violência, romper laços com a Al Qaeda ou outros grupos terroristas e adotar um acordo político em busca de uma paz duradoura”, tuitou ele. Em Washington, um grupo de parlamentares republicanos enviou uma carta a Esper e Pompeo na quarta-feira, fazendo alertas sobre o plano.

Entre os parlamentares estavam os veteranos do Afeganistão Michael Waltz, da Flórida, e Dan Crenshaw, do Texas, que foi ferido no país enquanto servia como fuzileiro naval. Eles destacaram o histórico sangrento do Taleban e questionaram se a milícia cumprirá suas obrigações no acordo.

“Eles só aceitarão a retirada total dos americanos do Afeganistão e, ao mesmo tempo, vão tentar estabelecer seu ‘Emirado Islâmico’”, escreveram os parlamentares. “Nossa retirada permitiria que grupos terroristas se fortalecessem e estabelecessem refúgios seguros para planejar ataques contra nós”. Enquanto isso, uma disputa entre autoridades do governo afegão pode ameaçar novas negociações.

Um conselho eleitoral independente declarou este mês que Ghani havia vencido a candidatura à reeleição. Mas seu rival, Abdullah Abdullah, rejeitou os resultados e prometeu formar um governo paralelo. Protestos, principalmente contra Ghani, eclodiram no norte do Afeganistão, onde Abdullah é aliado do general Abdurrashid Dostum, ex-vice-presidente de Ghani.

As autoridades americanas expressaram preocupação com a crise política. Miller e Zalmay Khalilzad, enviado especial dos Estados Unidos, reuniram-se com ambas as partes e em particular. Ghani finalmente concordou em adiar por duas semanas sua posse, que aconteceria na quinta-feira.

Questionado sobre a situação, Miller disse que será “necessário” que Ghani e Abdullah “resolvam suas diferenças políticas de maneira positiva à medida que avançam para o próximo passo”. Isso permitirá, disse Miller, que eles tenham uma “frente unida” para negociar com o Taleban.

Algumas autoridades americanas se queixaram de que os Estados Unidos cederam demais ao Taleban nas negociações, mas Miller elogiou o trabalho de Khalilzad e sua equipe. “Sem ele, não estaríamos onde estamos”, afirmou o general. “Estamos muito unidos desde o início”.

Na quinta-feira, Miller e Khalilzad também se encontraram com altos funcionários do Taleban na cidade de Doha, no Catar, onde o Talebã mantém um escritório. Em meio à redução da violência, Miller visitou tropas dos Estados Unidos e do Afeganistão em vários locais.

Em uma base de Cabul que abriga as forças de operações especiais dos Estados Unidos e do Afeganistão, o general observou que o ministro da Defesa do Afeganistão, Asadullah Khalid, elogiou os soldados afegãos por seu papel em garantir o compromisso do Taleban em reduzir a violência. Ele esperava um cessar-fogo completo em breve, disse ele.

Khalid disse que as forças afegãs devem permanecer apolíticas enquanto Abdullah e Ghani discutem seu futuro político. Na quarta-feira, Miller e Khalid andaram pelas ruas do centro de Cabul sem capacetes ou proteção, em um esforço para demonstrar que a redução da violência era efetiva.

Eles cumprimentaram calorosamente lojistas e transeuntes, posando para selfies sob o olhar atento de um pequeno grupo de oficiais armados das Operações Especiais dos Estados Unidos na equipe de segurança de Miller.

Na terça-feira Miller, viajou de helicóptero até Camp Dahlke, na província oriental de Logar, e se encontrou com Boinas Verdes e soldados americanos que treinam s forças afegãs.

Em uma sala repleta de Boinas Verdes, Miller perguntou: quantas vezes vocês foram convocados para missões aqui? Um após o outro, os soldados responderam: três, quatro e até sete vezes. “Em um mundo perfeito, se tudo der certo, podemos ter dado nossos últimos tiros, pelo menos contra o Taleban”, disse Miller. “A menos que eles nos ataquem primeiro. A escolha é do Taleban”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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