Todd Heisler/The New York Times
Todd Heisler/The New York Times

Por dentro de um grande protesto no Brooklyn: ‘O mundo está vendo’

Os crimes cometidos nos protestos frustraram aqueles que chegaram mais cedo para a manifestação e viram seus esforços apropriados por recém-chegados suspeitos com barras de metal e roupas roubadas

Michael Wilson / The New York Times, O Estado de S.Paulo

03 de junho de 2020 | 04h00

NOVA YORK - Volte um pouco no tempo, antes das latas de lixo pegando fogo, dos saques e das prisões, para a cena do lado de fora do Barclays Center, no Brooklyn, na noite de domingo.

Victoria Sloan, uma agente do aeroporto Kennedy, estava no meio da multidão, com o sol se pondo atrás dela, pensando no momento em que a polícia abordou o irmão mais novo. A vários metros de distância, Daniel English, um jovem consultor de mídia, distribuía pizza e água gratuitamente com os amigos em uma mesa que um deles trouxera.

Cory Thomas, 40 anos, especialista em redução de chumbo, segurava o telefone no ar, compartilhando a cena com um velho amigo - os dois foram espancados pela polícia, disse ele, quando eram adolescentes.

Pouco depois, o grupo marcharia pelas avenidas largas e ruas estreitas de Prospect Heights, e a cada passo seria recebido com aplausos e buzinas e saudações de punho erguido. Bryce Stewart, de 35 anos, de Bushwick, parou sua motocicleta e subiu em cima dela para ver melhor a manifestação.

“Isso é lindo,” disse ele.

Aquele estado de espírito, de indignação corajosa, às vezes grosseira, mas essencialmente pacífica, durou até cair a noite. Então, como em todas as noites anteriores de protesto, os vidros começaram a ser quebrados. Isso teve início no domingo, por volta das 22h, no SoHo, quando um grupo de jovens nas margens de uma grande marcha do Brooklyn quebrou uma vitrine de uma loja de roupas e roubou uma jaqueta, arrastando o manequim inteiro para a calçada.

Cenas de saques e violência desenfreadas entre a polícia e os manifestantes dominaram a cobertura pela mídia dos protestos da cidade de Nova York e em todo o mundo e contribuíram para o anúncio do governador Andrew Cuomo de um toque de recolher na cidade para às 23 horas.

Na segunda-feira à noite, depois que uma loja da Nike, uma loja da Coach, uma loja da AT&T e outras empresas de Manhattan foram saqueadas no início da noite, o prefeito Bill de Blasio disse que o toque de recolher seria transferido para às 20h na terça-feira e, depois, para domingo.

Os crimes cometidos frustraram aqueles que chegaram mais cedo para a manifestação, que escreveram slogans nas tampas das caixas de pizza para segurar no alto e que viram seus esforços apropriados por recém-chegados suspeitos com barras de metal e roupas roubadas.

"Existem pessoas por aí que são muito negativas", disse D.J. Elliott, de 30 anos, gerente de academia no Harlem. "E esta é a oportunidade de ouro deles."

Leroy O'Brien, que, aos 63 anos, estava entre os mais velhos dos manifestantes, foi menos indulgente com as motivações de saqueadores e vândalos. "São babacas", disse ele.

Noite após noite, os manifestantes chegaram em uma escala sem precedentes modernos, trazendo consigo uma variedade de histórias pessoais tão ampla quanto a cidade ao seu redor. Muitos deles convergiram para o Barclays Center, que se destaca na intersecção de vários bairros, antigos e novos, brancos e pretos.

Muitos são jovens, negros ou brancos, asiáticos ou latinos, de diferentes bairros e localidades. Eles estão familiarizados com sua jovem indignação nova-iorquina - olhando de soslaio, vê-se a descendência metafórica dos rostos da rebelião de Stonewall, embora mais numerosos que eles. Muitos trazem experiência pessoal para a nova onda de fúria pela morte de George Floyd em Minneapolis.

No Barclays, no domingo, uma multidão de centenas de pessoas que aumentava cada vez mais era animada por oradores raivosos e saudada com buzinas por carros que passavam por ali. Na mesa onde estava sua pizza, English, de 27 anos, que é branco, disse que a morte de Floyd fez com que ele se sentisse impotente.

"Evitar me sentir impotente foi realmente o que me trouxe aqui por três dias seguidos", disse. Ele e seus amigos montaram uma mesa com pizza, água e máscaras para entregar aos manifestantes.

"As pessoas começaram a doar dinheiro e ir à loja para comprar coisas para nós, como caixas de garrafa de água", disse English. “Um pacote de barras de cereais. Foi inacreditável. Os manifestantes ofereceram uma pizza inteira para a polícia. "Eles disseram: 'Não, obrigado'", afirmou, mas depois pediram água.

Nas proximidades, Sloan, de 27 anos, de Flatbush, ficou de pé e observou os oradores protestando contra a violência policial. "Poderia ser meu pai, meu irmão, meu tio, meu primo, meu amigo", disse ela. "Isso me deixa irritada."

Ela carregava uma memória que era base daquela manifestação: "Quando eu era jovem, meu irmão se trancou do lado de fora de casa", disse ela. Enquanto ele andava pelas ruas, "três policiais o abordaram", lembrou. "Estou gritando: 'Ele é meu irmão!' Porque ao ver um homem negro correndo na rua isso não significa que ele é uma ameaça."

Ela planejava ir embora mais cedo, para encontrar a filha Lalin, de 2 anos, no caso daquela manifestação se tornar um problema - "há pessoas por aqui que estão bebendo", disse ela.

As marchas (que partem) do Barclays e percorrem o bairro injetaram nova energia no grupo, com os vizinhos pendurados nas janelas para bater palmas, um eco estridente do aplauso noturno dos profissionais de saúde que ocorre há três meses. 

Questionado por que ele estava marchando, Stewart, que é branco, de pé em cima de sua moto, disse: "Por que não o faria?"

"Estou com mais medo das pessoas que não aparecem aqui", disse ele. "Esta é a última oportunidade que os americanos brancos têm para ouvir os problemas da comunidade negra, porque eles estão vivendo no inferno e estão prontos para mostrar a todos os outros os seus problemas."

Tiffiney Davis, de 39 anos, gerente administrativa e mãe, disse que há muito temia pela segurança de seu filho em relação à polícia. Ela participou das manifestações no Barclays pela primeira vez no domingo e ficou impressionada com a diversidade.

"Tenho meus amigos brancos aqui comigo", disse Tiffiney, que é negra. "Agora sentimos que estamos ganhando um pouco de alcance".

Nas proximidades, Gabe Jones, de 18 anos, de Sheepshead Bay, Brooklyn, também estava presente pela primeira vez - foi o seu primeiro protesto da vida, na verdade. Jones, que é negro, disse que sua própria experiência com a polícia - um policial invadiu sua casa, ele disse, e um tio perdeu os dentes brigando com outros - fundamentou sua reação à morte de um homem a 320 quilômetros de distância. "O mundo está vendo", disse ele. / Tradução de Romina Cácia 

 

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