Eduardo Soteras/AFP
Eduardo Soteras/AFP

Por dentro de uma cidade de Tigré, onde etíopes estão aterrorizados pela guerra

Reportagem da AFP é a primeira a conseguir chegar à região, que foi isolada e teve as linhas de telefone e de internet cortadas desde que os confrontos eclodiram no início de novembro

Robbie Corey-Boulet, AFP

25 de novembro de 2020 | 10h30

HUMERA — Em Humera, cidade recentemente libertada pelo Exército etíope das autoridades da região de Tigré, há destroços nas ruas e a eletricidade continua cortada. Os moradores tentam esquecer o terror dos bombardeios, mas a chegada de novos administradores da região vizinha é a nova preocupação dos civis.

Dois tanques carbonizados do Exército federal marcam a entrada de Humera. A AFP foi o primeiro veículo de imprensa a visitar a cidade desde o início do conflito e das restrições de acesso a Tigré.

Localizada no noroeste da Etiópia, na fronteira com o Sudão e a Eritreia, Humera foi um dos primeiros alvos da ofensiva militar lançada pelo primeiro-ministro Abiy Ahmed em 4 de novembro contra a liderança da região.

Após intensos combates contra as forças da Frente de Libertação do Povo Tigré (FLPT), partido que comanda a região e que desafia o governo federal há vários meses, a cidade foi declarada libertada em 12 de novembro.

Humera, onde vivem cerca de 30 mil pessoas, carrega as cicatrizes: a fachada do Hotel África tem um enorme buraco e os prédios ao redor estão marcados de balas.

No centro da cidade, soldados descansam em cadeiras de plástico, à sombra das árvores. Os residentes que não fugiram estão reunidos em torno de televisões ligadas a geradores, enquanto veículos militares percorrem as ruas de paralelepípedos.

“Não esperávamos bombardeios”, conta Getachew Berhane, um homem de 42 anos, acompanhado por um funcionário do governo. “De repente, começamos a ouvir armas de guerra, explosões e houve pânico. Não podia sair de casa, fiquei apavorado.”

Alguns dos habitantes de Humera estão entre os primeiros etíopes a se refugiar no vizinho Sudão, que já recebeu cerca de 40 mil refugiados por causa do conflito.

Em um prédio residencial, duas mulheres deitadas ainda cuidam dos seus ferimentos. Duas mulheres e um idoso morreram no local em bombardeios e tiros, segundo elas contaram à AFP.

Um morador afirma conhecer pelo menos dez pessoas mortas somente no seu bairro, mas a AFP não foi autorizada a visitar o hospital local para verificar o balanço de vítimas do confronto.

Localizada na encruzilhada de uma planície agrícola quente e seca, Humera "começava a se desenvolver", segundo Tewodros Gebreselassie, um comerciante, "mas agora retrocedeu por causa de uma guerra desnecessária."

Abiy, que venceu o prêmio Nobel da Paz em 2019 e é o mais jovem líder africano, acusa as forças de Tigré de terem começado a guerra atacando duas bases do Exército federal na região, o que a FLPT nega — a ocorrência do ataque é contestada por observadores independentes.

Diversos moradores disseram à AFP que, durante a batalha, elas ouviram bombas vindo "do norte", ou seja, da Eritreia.

O governo da Etiópia nega as alegações da FLPT de que a Eritreia esteja envolvida no conflito, mas reconhece fazer uso do território eritreu.

Abiy, primeiro-ministro etíope, ganhou o Nobel da Paz justamente por encerrar um longo conflito com o país vizinho e tem boas relações com seu presidente, o ditador Isaias Afewerki, que é inimigo da FLPT.

No domingo, Abiy deu um ultimato de 72 horas para que as forças de segurança de Tigré se rendessem na capital regional, Mek'ele, avisando que suas tropas iniciarão uma ofensiva na cidade onde moram meio milhão de pessoas se a demanda não for atendida.

Em Humera, autoridades federais começaram a construir "instituições legítimas", colocando funcionários da região vizinha de Amhara para supervisionar o local. A decisão é considerada arriscada, já que provavelmente alimentará as já fortes tensões entre as comunidades de tigré e amhara.

Daniel Wubet, uma autoridade de Amhara, carregando uma AK-47, explica à AFP que estava em Humera para supervisionar "a manutenção da paz", fornecer alimentos básicos aos habitantes e "educá-los" sobre as más ações da FLPT. Ele ainda selecionou alguns moradores locais para ajudá-lo no trabalho.

Os conflitos territoriais colocam tigrés e amharas uns contra os outros desde a ofensiva vitoriosa da FLPT contra o governo federal para derrubar o regime militar, em 1991.

Com a derrubada do Derg, a junta que liderava o regime, a FLPT passou a governar a Etiópia por mais de 25 anos, até Abiy chegar ao poder, em 2018, retirando diversas autoridades de Tigré de cargos importantes. A limpeza feita pelo premier, no entanto, foi vista como perseguição pela FLPT.

“Desde que me lembro, essa terra pertencia aos amharas, até a FLPT assumir”, diz Abrehu Fentahum, um fazendeiro amhara, sobre as terras onde trabalha no oeste de Tigré.

Há muito tempo ele aguarda para ver as terras voltarem ao controle do governo de Amhara, embora Daniel Wubet assegure que esse não é o objetivo.

Em Humera, as bandeiras da FLPT foram substituídas pelas da era imperial etíope, adotadas pelos nacionalistas amharas. Vitrines de lojas também foram grafitadas com a palavra "amhara." Apesar disso, é improvável que os símbolos irão aliviar os medos dos cidadãos tigrés.

Em uma mensagem enviada à AFP, o presidente do Tigré, Debretsion Gebremichael, estimou que a presença de funcionários e combatentes amharas "era um dos planos diabólicos para enfraquecer o Tigré." "Mas", concluiu, "vamos continuar o combate até que tenham partido."

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