Jose Sarmento Matos/The New York Times
Jose Sarmento Matos/The New York Times

Por dentro do jornal 'The Sun', um dos tabloides que apoiaram o Brexit

Editor Tony Gallagher afirma que a ideia de poder levar os leitores a assumirem pontos de vista que não teriam ‘é delirante’

Katrin Bennhold / The New York Times, O Estado de S.Paulo

15 Maio 2017 | 11h37

LONDRES - Tony Gallagher, editor do jornal The Sun, um dos mais violentos e influentes tabloides britânicos, menospreza o governo. Do alto de sua redação no 12º andar, o Palácio de Westminster parece um castelo para crianças, algo com que se pode brincar ou mesmo ignorar.

Gallagher também menospreza o editor do mais comedido Times of London, cujo escritório fica no andar de baixo e o qual faz questão de manter suas persianas abaixadas. A noção de hierarquia está presente nos dois jornais.

No Reino Unido pós-Brexit, o poder dos tabloides é evidente. As circulações podem estar caindo e as reputações foram manchadas por uma série de escândalos de escutas telefônicas, mas enquanto o país se prepara para cortar os laços com a União Europeia (UE) depois de uma campanha barulhenta e algumas vezes desagradável, políticos importantes cortejam os tabloides e temem sua raiva.

Os leitores dessas publicações, muitos deles trabalhadores com mais de 50 anos que moram fora de Londres, se parecem muito com os eleitores que foram cruciais para o resultado do referendo de 2016, que questionava a permanência na UE. São esses cidadãos que os tabloides pretendem representar no coração do território inimigo: abrigados em moradias palacianas em alguns dos bairros mais caros de Londres, eles se veem como embaixadores da Inglaterra mediana na cidade.

Na campanha realizada em junho, a maioria dos tabloides atuou como guardião zeloso do Brexit e como torcedor do governo conservador da primeira ministra Theresa May - ainda que a cidade que os abriga tenha votado de outra maneira.

Cobertura. Gallagher deixou sua marca em três dos mais estridentes jornais pró-Brexit do Reino Unido. Ele foi editor do conservador The Daily Telegraph e vice-editor do mais mediano Daily Mail, um dos maiores rivais do Sun, antes que Rupert Murdoch o invadisse 20 meses atrás. Juntos, esses três títulos são a razão central para o fato de que a cobertura impressa da campanha do referendo tenha sido distorcida em 80% a favor da saída da UE, segundo uma pesquisa da Universidade Loughborough.

Os tabloides alegam que apenas refletem as preocupações e medos de seus leitores. Mas seus críticos afirmam que eles envenenam o debate e apelam para os piores instintos e preconceitos das pessoas, distorcendo fatos e criando uma propaganda fraudulenta que mantém a intolerância e molda a política.

No Telegraph, Gallagher conseguiu respeito por supervisionar a cobertura de um dos maiores escândalos políticos da história britânica recente: dezenas de legisladores se demitiram depois que o jornal revelou o abuso generalizado de subsídios e despesas que pagavam por, entre outras coisas, assentos de privada de carvalho e a limpeza de uma fossa.

Mas ele também tem uma reputação complicada. Mail Men, um novo livro sobre o Daily Mail, no qual Gallagher passou a maior parte de sua carreira, cita antigos colegas que o descrevem como uma “criatura da morte” que “coloca um medo do diabo em seus repórteres”. Em entrevista, ele disse que a descrição do livro é “maldosa”.

Gallagher explicou que a redação do Sun era a única do prédio com acesso direto ao andar da administração. Murdoch, quando está na cidade, e sua chefe britânica, Rebekan Brooks, fazem esse percurso diversas vezes. Ela foi editora do Sun e do hoje extinto News of the World, que foi processado por ofensas criminais relacionadas à escuta telefônica, mas acabou considerado inocente por um júri em 2014.

The Sun ainda lida com as consequências de um confronto recente com o governo. O jornal imprimiu adesivos e fez um relatório especial de oito páginas sobre como um aumento nas contribuições do seguro nacional para os autônomos prejudicaria pessoas da classe trabalhadora, que, na visão da publicação, estavam sendo enganadas. Foi a primeira vez que os tabloides se voltaram contra o governo de May, e ela recuou rapidamente. “Levou menos de uma semana”, relembrou Gallagher.

Relação com leitores. O Sun vende 1,6 milhão de cópias hoje (mais de 80% delas fora de Londres e do rico sudoeste do país), menos do que o ápice de 4,7 milhões que vendia em meados dos anos 1990. Em 2016, o jornal perdeu mais de 60 milhões de libras, cerca de US$ 75 milhões.

Por que os políticos ainda ficam tão amedrontados? “É um fato que jornais impressos nacionais ainda definem os assuntos aqui muito mais efetivamente do que a televisão e o rádio, que são essencialmente veículos reativos”, disse Gallagher, afirmando que os jornais podem continuar a explorar certos assuntos. “Se um jornal está falando muito sobre o fato de que nossas leis são feitas na Europa, eventualmente essa informação passa a permear a consciência nacional”, explicou.

Kelvin MacKenzie, antigo editor e colunista do Sun, disse recentemente que o jornal refletia “o coração britânico palpitante”, e que o Brexit ganhou da imigração “por mil milhas”.

Já Gallagher foi mais sutil. “Foi uma combinação de migração, de soberania sob um guarda-chuva maior de tomar de volta o controle e uma sensação de que, como país, não éramos mais capazes de definir o nosso destino”, afirmou.

The Sun, que recruta alguns funcionários diretamente da escola secundária, tem um relacionamento quase pessoal com seus leitores, como o de um amigo confiável no bar. Outros jornais do grupo de Murdoch apoiaram a permanência na UE, afirmou Gallagher, refletindo as opiniões de seus leitores. Entre esse grupo está a edição escocesa do Sun que, assim como os eleitores daquele país, apoiou a permanência no bloco.

“Faz sentido comercial”, explicou Gallagher. Mas ele é passionalmente cético sobre a União Europeia há anos. “Sem dúvida, alimentamos o entusiasmo das pessoas”, disse ele. Contudo, “a ideia de que podemos de alguma maneira arrastar os leitores contra a sua vontade a assumirem pontos de vista que eles não teriam de outra maneira é delirante”.

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