Wojtek Radwanski/ AFP
Wojtek Radwanski/ AFP

Por dentro dos preparativos da Casa Branca para a crise entre Rússia e Ucrânia

Um time de elite de autoridades do governo passou os últimos meses preparando uma série clara de respostas, simulando cenários de ciberataques e intervenções limitadas a uma invasão à Ucrânia

Ellen Nakashima e Ashley Parker, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

16 de fevereiro de 2022 | 15h00

À medida que cresciam os temores sobre uma potencial agressão russa contra a Ucrânia, um “Tiger Team” liderado pela Casa Branca está discretamente simulando as maneiras que os Estados Unidos responderiam a variados cenários, de uma demonstração limitada de força a uma invasão em grande escala com baixas numerosas.

A Casa Branca realizou dois extensos exercícios - incluindo um com autoridades do gabinete do presidente Joe Biden - para simular cenários e formulou uma cartilha que define uma variedade de potenciais respostas rápidas, iniciando-se no "Dia Um" de uma possível invasão russa e estendendo-se pelas primeiras duas semanas da eventual agressão.

O esforço, afirmaram graduadas autoridades do governo, ajuda não apenas a antecipar possíveis complicações, mas também fez com que elas adotassem ações antecipadamente, como expor a guerra de informação da Rússia antes que o país a aplicasse, para embotar seu poder de propaganda.

“Nossa esperança ainda é que existe um caminho diplomático para evitar isso tudo, para que jamais tenhamos de usar a cartilha”, afirmou Jonathan Finer, subconselheiro de segurança nacional do presidente Biden. “Mas trata-se de garantir que estejamos prontos para a ação, se e quando tivermos de agir.”

O “Tiger Team” - termo que se refere a um heterogêneo grupo de especialistas que aborda um problema específico e sugere atenções e prontidões estratégicas - foi criado após autoridades do Conselho de Segurança Nacional (NSC) detectarem, em outubro, sinais perturbadores da concentração massiva de tropas russas nas fronteiras da Ucrânia.

As autoridades do NSC admitem francamente que podem ser incapazes de antecipar precisamente os movimentos do presidente russo, Vladimir Putin, e seus comandantes militares. Mas exercício e planejamento robusto ainda valem a pena, segundo afirmaram.

“Na realidade, o que os russos podem acabar fazendo pode não corresponder 100% a nenhum desses cenários”, afirmou Finer. “Mas o objetivo das simulações é ser um fac-símile aproximado o suficiente do que os russos fariam, para que os planos sejam úteis em termos de reduzir o tempo que precisamos para responder efetivamente. Esse é o objetivo maior, na verdade.”

O possível ataque russo contra a Ucrânia é a maior crise de política externa que o governo americano encara desde a atribulada retirada dos EUA do Afeganistão, no ano passado, quando o rápido colapso do governo em Cabul pegou as autoridades americanas despreparadas. Um ataque suicida nos portões do aeroporto de Cabul matou 13 militares americanos e cerca de 170 afegãos.

Os riscos são especialmente elevados agora. Em seguida à confusa saída do Afeganistão, o governo americano enfrenta uma pressão incrementada para evitar um desdobramento similarmente pernicioso de uma invasão russa, que poderia jogar a Ucrânia abruptamente em semanas de caos e derramamento de sangue imprevisíveis.

Vários graduados funcionários do governo são veteranos da invasão russa de 2014 à Ucrânia, da anexação da Crimeia e do estímulo russo ao levante separatista no leste ucraniano. A equipe de Biden pôde aprender lições daquela experiência e de assistir Putin consolidar seu poder desde então.

Desta vez, "foi notável a quantidade de alertas que Washington foi capaz de emitir”, afirmou Andrea Kendall-Taylor, ex-analista da CIA para Rússia que trabalha atualmente como pesquisadora-sênior do Centro para uma Nova Segurança Americana. “Eles estão muito mais preparados agora."

Em 2014, o investimento dos EUA em coleta de inteligência sobre a Rússia diminuiu, como resultado do fim da Guerra Fria e do foco americano no contraterrorismo. Quando a Rússia invadiu a Crimeia, afirmou Kendall-Taylor, “fomos pegos no contrapé e despreparados”.

O governo americano está trabalhando agora num esforço em duas vias, de diplomacia e dissuasão, que inclui guerras de informação que se desdobram publicamente. E nos bastidores, o planejamento privado e a estratégia do Tiger Team - que não foi revelado anteriormente - buscam garantir que não apenas a Casa Branca, mas todas as agências que precisariam responder a uma irrupção de hostilidades, estejam preparadas e prontas para agir.

O Tiger Team nasceu oficialmente em novembro, quando o conselheiro de segurança nacional Jake Sullivan pediu a Alex Bick, diretor de planejamento estratégico do NSC, que liderasse um esforço de planejamento entre várias agências. Bick reuniu os Departamentos de Defesa, Estado, Energia, Tesouro e Segurança Interna, além da Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional para considerar uma possível crise humanitária.

A comunidade de inteligência também está envolvida, simulando vários rumos de ação que os russos poderiam adotar e os riscos e vantagens de cada um deles, afirmaram autoridades. Os cenários variam entre um ataque limitado, que capture apenas uma fatia da Ucrânia, até uma invasão em escala total, que busque substituir o governo do presidente ucraniano, Volodmir Zelenski, e ocupar grande parte do país ou todo seu território.

“Você não precisa saber o que eles vão fazer”, afirmou uma autoridade do NSC, que falou sob condição de anonimato para discutir o processo interno do governo. “Você escolhe uma série de cenários plausíveis e faz planos em relação a ele, assumindo que qualquer um pode acontecer.”

A cartilha, em si, vai muito além de cenários de batalha, considerando questões como maneiras de atender refugiados ucranianos que podem se encaminhar para a Polônia ou a Romênia; como proteger a Embaixada Americana em Kiev; quais sanções exatamente impor contra Moscou; e como reagir a sofisticados ataques cibernéticos.

A cartilha - que sintetiza aproximadamente três dúzias de estudos e análises de inteligência encomendados pela equipe em várias agências - foi distribuída para várias autoridades, incluindo comandantes militares e diretores civis no Pentágono.

A cartilha também considera consequências de “segunda ordem”, como retaliações russas em razão de qualquer penalidade. As autoridades têm planejado medidas, por exemplo, para garantir o abastecimento de gás natural à Europa Ocidental, caso a Rússia busque fechar a torneira da energia, enquanto o Departamento de Estado e a  USAID coordenaram com parceiros passos para aliviar o impacto humanitário de uma grande invasão.

“Como regra-geral, você faz planos em relação ao pior cenário e depois calibra para baixo”, afirmou a autoridade do NSC. “Melhor fazer isso desta maneira do que planejar-se para um cenário intermediário e ser pego no contrapé.”

Enquanto a caótica retirada do Afeganistão prejudicou as relações dos EUA com seus aliados ocidentais, as belicosas movimentações da Rússia seguramente os uniram em face a uma ameaça comum. Autoridades do governo americano afirmaram que abriram caminho para o fornecimento de dados de inteligência para outros países.

“Compartilhamos um caminhão de informações para garantir que todos estejam cientes a respeito de nossas previsões”, afirmou Finer.

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Bick e sua equipe também analisaram eventos “cisne negro” - altamente improváveis, mas com impactos graves se ocorrerem - que possam complicar a capacidade de resposta do governo americano. As autoridades não compartilharam exemplos, mas, em geral, esses eventos poderiam incluir uma nova variante de coronavírus altamente transmissível ou uma grande crise energética advinda independentemente da situação da Ucrânia.

Eles analisaram “uns 20” eventos cisne negro “diferentes, sob o espectro de probabilidade e impacto”, afirmou a autoridade do NSC. “É em alta probabilidade e alto impacto que você coloca mais atenção. Mas qualquer coisa que tenha alto impacto e baixa probabilidade requer atenção mesmo assim.”

Esse planejamento está em andamento mesmo enquanto as agências avançam com preparações próprias. O Departamento do Tesouro esboçou possíveis pacotes de sanções e o Pentágono planejou acionamentos adicionais de tropas ao mesmo tempo em que a Casa Branca finalizava sua cartilha.

Entre as principais preocupações do Tiger Team está o esforço russo em promover a falsa narrativa que é a Ucrânia, auxiliada pelo Ocidente, que está se preparando para lançar uma ofensiva no leste do país - e que a Rússia é a vítima.

Nas últimas semanas, o governo americano tornou públicas informações de inteligência a respeito desses esforços, incluindo uma possível “operação de bandeira falsa” na qual Moscou encenaria uma explosão que mataria russos étnicos na Ucrânia ou na própria Rússia culpando Kiev, com o objetivo de criar um possível pretexto para uma invasão.

Autoridades americanas acreditam que esse tipo de desinformação é um elemento crucial da estratégia russa. Um graduado funcionário do governo federal, que falou sob condição de anonimato para discutir o assunto, afirmou que essa desinformação “alertou o governo para expor em tempo real o planejamento de Moscou para operações de guerra de informação, como a recente revelação a respeito do vídeo da operação de bandeira falsa”. Os EUA acusaram o Kremlin de planejar a produção de um vídeo de um ataque fabricado.

Quando a Rússia invadiu a Crimeia, em 2014, EUA e Europa não tinham pacotes de sanções prontos para impor. À exceção de penalidades relativas a direitos humanos, os EUA nunca haviam contemplado sanções contra a Rússia, afirmou Daniel Fried, que na época atuava como coordenador para políticas de sanções do Departamento de Estado.

“Não possuíamos os mesmos recursos na Europa, nem memória muscular, para lidar com agressões da Rússia”, afirmou a autoridade do NSC. “Evoluímos muito desde então.”

O governo americano esboçou agora novas possíveis sanções, sobre bancos russos e uma série de controles de exportações, que planeja impor caso Moscou invada a Ucrânia. Em um telefonema, no sábado, Biden alertou Putin sobre “custos acentuados e severos” nessa eventualidade.

Em dezembro, o Tiger Team realizou dois exercícios virtuais para simular vários cenários e respostas. O primeiro reuniu subsecretários, e o segundo, autoridades do gabinete de governo. Biden analisou a cartilha e foi informado dos resultados, afirmaram autoridades.

“Uma coisa é considerar cada um desses problemas - energia, sanções, posicionamento militar - isoladamente. Outra coisa, bem diferente, é colocá-los todos juntos e executar um plano para cada um deles”, afirmou a autoridade do NSC. “O que vi ao longo desse exercício de planejamento foi que, até nos mais altos escalões, as ideias vão surgindo, e as peças, se encaixando.” / TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO

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