Por descuido, México dá imunidade a traficante

Suposto integrante do cartel La Família é eleito para o Congresso e recebe imunidade parlamentar; Estado tenta conter benefícios de Godoy

, O Estado de S.Paulo

16 de dezembro de 2010 | 00h00

Apesar de ser um fugitivo, acusado de lavagem de milhões de dólares para um dos mais cruéis cartéis da droga do México, Julio César Godoy afirma que, em setembro, simplesmente entrou andando na Assembleia Nacional sem ser notado, passando pelo cordão de isolamento da polícia federal que guardava o edifício.

Levantou o braço direito, jurou defender a Constituição e, 15 meses depois de desaparecer, finalmente assumiu a cadeira do Congresso que conquistara nas urnas. Era tarde demais para que a Promotoria pudesse fazer algo a respeito. O cargo que agora Godoy ocupava permitia-lhe gozar de um benefício especial: a imunidade parlamentar.

A saga política, que evidencia os persistentes temores de infiltração política dos cartéis da droga e as inúmeras frustrações para os que tentam eliminá-la continua se desenrolando.

O ministro da Justiça do México ficou profundamente irritado com a capacidade de Godoy de se esconder à vista de todos. "O fato de ele aparecer de repente e de prestar juramento fere o próprio decoro da Câmara dos Deputados e o estado de direito", disse John J. Bailey, professor da Georgetown University, que estuda o crime organizado no México. Na noite de terça-feira, a Câmara dos Deputados aprovou em peso a suspensão da imunidade e dos direitos legislativos de Godoy, fato que poderá levá-lo à prisão e diante de um tribunal - desde que ele seja encontrado.

Os promotores alegam que Godoy está ligado à liderança do grupo chamado La Família, uma organização de narcotraficantes que se tornou quase um culto e é uma das mais violentas do México. Um memorando enviado pela promotoria aos parlamentares afirma que Godoy participava de um grupo de prefeitos, policiais e outros funcionários do Estado de Michoacán que funcionam como informantes pagos para o cartel.

Alguns especialistas observaram que a ampla investigação empreendida pelo Estado de Michoacán permitiu prender inicialmente mais de 30 prefeitos e outros funcionários locais. Mas a maioria das pessoas presas acabou sendo liberada por falta de provas ou por outros problemas relacionados ao caso. / NYT

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