Por Iraque estável, Irã e EUA se aproximam

Departamento de Estado, porém, ressalta que discussões não envolvem cooperação militar

CLÁUDIA TREVISAN, O Estado de S.Paulo

17 de junho de 2014 | 02h05

O governo dos EUA admitiu ontem a possibilidade de colaborar com o Irã para tentar estabilizar a situação no Iraque, que corre o risco de se desintegrar diante do avanço do grupo terrorista Estado Islâmico do Iraque e do Levante (Isil, na sigla em inglês). A contenção dos radicais sunitas é um dos raros pontos de concordância da política externa de Washington e Teerã, que cortaram relações diplomáticas há mais de 30 anos.

"Nós estamos abertos a qualquer processo construtivo que possa minimizar a violência, manter a unidade do Iraque, a integridade do país e eliminar a presença de forças terroristas externas que o estão dilacerando", declarou ontem o secretário de Estado dos EUA, John Kerry, em entrevista ao Yahoo. Um alto funcionário do governo americano disse que representantes dos dois países discutirão o assunto nesta semana em Viena, a lado das negociações sobre programa nuclear iraniano, no chamado P5+1.

O vice-secretário de imprensa da Casa Branca, Josh Earnest, ressaltou que as conversas sobre a situação no Iraque serão totalmente independentes das negociações sobre a questão nuclear e não deverão influenciar o seu andamento.

Washington e Teerã têm interesse em evitar a dissolução do Iraque e o domínio de parte de seu território pelos radicais sunitas.

De orientação xiita, o governo iraniano é um dos principais aliados do primeiro-ministro iraquiano, Nuri al-Maliki, no poder desde 2006.

A porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, Jen Psaki, ressaltou que qualquer colaboração entre seu país e o Irã teria caráter puramente político. "Nós acreditamos que o foco deve ser encorajar os líderes do Iraque a governar de uma maneira não sectária e nossas discussões não serão sobre cooperação ou coordenação de objetivos militares", afirmou Psaki.

O presidente Barack Obama anunciou na sexta-feira que os Estados Unidos estão dispostos a dar apoio militar ao governo do Iraque na luta contra os radicais do Isil, mas ressaltou que a ação deve ser acompanhada de mudanças políticas que aumentem a representatividade da administração de Maliki, dominada por xiitas.

"Nós gostaríamos de ver o regime iraniano e os líderes de outros países da região desempenharem um papel construtivo em encorajar a liderança política do Iraque a perseguir uma agenda diplomática inclusiva", declarou Earnest.

O governo de Teerã já indicou estar aberto à aproximação com Washington.

No domingo, Hamid Aboutalebi, um dos principais assessores do presidente Hassan Rohani, disse em sua conta no twitter que só E UA e Irã têm condições de conter a instabilidade no Iraque.

Kerry avaliou que o Iraque vive uma ameaça "existencial" e que o avanço do Isil pode comprometer a estabilidade de toda a região. Segundo ele, a eventual permanência de tropas americanas no país depois do fim da guerra, em 2011, não teria evitado a crise atual. Em sua opinião, o conflito tem origem política e reflete a inabilidade de Maliki de construir um governo que represente as diferentes facções do país.

"Nós estamos profundamente comprometidos com o processo constitucional, mas também temos grandes dificuldades com o governo atual e sua falta de disposição de estender a mão, de ser inclusivo, de trazer pessoas para a mesa e de ser suficientemente responsável em sua abordagem pluralista de governo", afirmou.

O secretário americano disse que ataques aéreos são uma das principais opções militares dos Estados Unidos para conter o Isil e sua movimentação em "comboios" e "caminhões". Na sexta-feira, o presidente Barack Obama afirmou que qualquer ação no Iraque não envolveria o envio de tropas ao país.

A proposta de colaboração com o Irã dividiu os senadores John McCain e Lindsey Graham, dois falcões da política externa do Partido Republicano. "Os interesses e objetivos dos Estados Unidos e do Irã não estão alinhados no Iraque e uma maior intervenção iraniana só deixará a situação drasticamente pior", disse McCain, candidato derrotado por Obama em 2008.

Graham sustentou que será inevitável cooperar com Teerã. "Os iranianos podem prover alguns ativos para assegurar que Bagdá não caia. Nós precisamos nos coordenar com os iranianos", disse o senador em entrevista à CNN.

Na opinião de McCain, o envolvimento do Irã vai acirrar o conflito sectário na região, estimular sunitas a aderirem ao Isil, aumentar a dependência do Iraque em relação ao Irã e afetar a relação dos Estados Unidos com seus principais aliados na região, onde os sunitas são maioria.

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