Por poder, Hamas tolera revés militar

Para funcionário palestino, conflito serve para dar força ao grupo, que ampliou rede de apoio internacional e recuperou a simpatia do Irã

Lourival Sant’Anna, Enviado Especial/Gaza

02 de agosto de 2014 | 14h54

 Graças ao conflito com Israel, o Hamas está saindo do isolamento e ampliando sua rede de apoio internacional, incorporando novos amigos em potencial, como o Brasil e a China, reforçando os laços com antigos, como a Rússia, e recuperando a simpatia de um antigo aliado, o Irã. 

A avaliação é de Hussam Dajany, funcionário do Ministério das Relações Exteriores do Hamas, em entrevista na manhã de sábado,2, ao Estado, em um grande hospital de Gaza, para evitar um eventual ataque israelense.

"As relações com o Irã foram perturbadas no último ano pela revolução na Síria", admitiu Dajany, referindo-se às ligações do Hamas com grupos islâmicos radicais que combatem o regime de Bashar Assad, aliado de Teerã. "Mas agora o Irã decidiu restaurar as relações, depois que o Hamas promoveu a escalada contra Israel." Um funcionário do governo israelense em conversa com o Estado na quinta-feira havia constatado esse fato com um sorriso: "O Irã nos odeia mais do que ama o regime sírio".

"Mas a reaproximação com o Irã não significa distanciamento da Turquia e do Catar, porque as relações com eles vão ser estratégicas depois dessa guerra", continuou o funcionário do Hamas, tendo em mente a rivalidade entre o regime xiita e esses países sunitas. 

"Vimos as posições do Brasil e de outros países latino-americanos em apoio aos palestinos na Faixa de Gaza. Queremos abrir nossas relações com eles. A China entrou em contato com o Hamas. A Rússia nunca suspendeu os laços, mas a partir de agora serão mais organizados." Na sua visão, "o que mais fortalece a imagem do Hamas é o fato de ter matado só militares israelenses, enquanto quase todos os mortos em Gaza são civis".

Dentro dos territórios palestinos, o Hamas sairá fortalecido politicamente desse conflito com Israel, estima o analista político independente Akram Atalla. Principalmente na Cisjordânia "cujos moradores não sofrem as consequências do conflito", cresceu a popularidade do grupo, ao se mostrar capaz de infligir dor a Israel. "A Autoridade Palestina (comandada pela facção moderada Fatah) é vista como servil diante de Israel, enquanto o Hamas o enfrenta."

Amin Maqbul, secretário do Conselho Revolucionário do Fatah, admite: "Os resultados só devem aparecer depois da guerra, mas é certo que o Hamas emergirá mais poderoso militar e politicamente, assim como crescerá sua popularidade interna e também entre os países árabes".

O único trabalho sério de sondagem da opinião pública nos territórios é feito pelo Centro Palestino de Pesquisas sobre Política e Opinião, apoiado pela Fundação Konrad Adenauer, da Alemanha. Suas pesquisas são bimensais. A última foi realizada nos dias 5 a 7 de junho. Portanto, não foi medido ainda o impacto do conflito.

Pela última pesquisa, se houvesse eleições presidenciais hoje (elas não estão sequer marcadas), Mahmud Abbas, do Fatah, venceria Ismail Haniyeh, do Hamas, por 53% a 41%. Na Faixa de Gaza, Abbas teria 52% e Haniyeh, 46%; na Cisjordânia, o atual presidente palestino venceria o líder do Hamas por 54% a 38%.

"O Hamas não entrou na guerra para aumentar sua popularidade", rebate o analista Mustafa Sawaf, partidário do grupo, que falou pelo telefone, por receio de que sua casa ou escritório sejam bombardeados. "O Hamas e as outras resistências armadas fazem isso para defender os palestinos. Mas os resultados no futuro nos dirão se a popularidade do Hamas aumentará ou diminuirá." 

Infraestrutura militar. De acordo com um balanço das Forças de Defesa Israelenses (IDF, na sigla em inglês), o Hamas disparou 2.600 foguetes contra Israel nesse conflito e outros 3 mil foram destruídos no solo. As IDF calculam que o Hamas tinha 10 mil foguetes no início. Restariam, então, em torno de 4.400, ou 44%. Os foguetes são cuidadosamente escondidos, muitas vezes nas casas de famílias, movidas pelo medo e também por um incentivo financeiro, segundo os militares israelenses. 

As declarações recentes do primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, indicam que o critério para declarar a missão cumprida é a destruição dos 31 túneis que ligam a Faixa de Gaza a Israel. Isso significa que o Hamas pode ficar com um terço ou mais de seus foguetes. Mas sua eficácia é muito reduzida pelo escudo anti mísseis de Israel, o Domo de Ferro, que, segundo as IDF, interceptou mais de 300 foguetes em três semanas. O sistema não intercepta foguetes com trajetória para regiões despovoadas, para evitar desperdício de dinheiro: cada míssil do Domo de Ferro custa US$ 50 mil. 

Para Atalla, o Hamas sai ganhando politicamente e perdendo militarmente. Assim como Maqbul, do Fatah, Dajany tem uma outra visão. Ele garante que o bloqueio total à Faixa de Gaza por Israel e agora também pelo Egito não afeta em nada a capacidade das Brigadas Ezzedine al-Qassam, o braço armado do Hamas, de repor o armamento perdido: todos os foguetes, incluindo o de maior alcance deles, de 75 km, são fabricados dentro do território. 

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