AZERBAIJAN-ARMENIA/CONFLICT REUTERS/David Mdzinarishvili/Files
AZERBAIJAN-ARMENIA/CONFLICT REUTERS/David Mdzinarishvili/Files

Por que a Armênia e o Azerbaijão estão em confronto e quais são as implicações?

Aumento da violência na região separatista levanta temores de uma grande guerra entre o Azerbaijão e a Armênia no Sul do Cáucaso, onde Rússia e Turquia competem

Redação, O Estado de S.Paulo

29 de setembro de 2020 | 12h37

O aumento da violência na região separatista de Nagorno Karabakh, apoiada por Erevan, levanta temores de uma grande guerra entre o Azerbaijão e a Armênia no Sul do Cáucaso, onde Rússia e Turquia competem.

Entenda as questões que envolvem esse conflito, que envenena a região desde a dissolução da extinta União Soviética.

O que motivou esse conflito?

Depois de semanas de retórica belicista, o Ministério da Defesa do Azerbaijão anunciou ter lançado uma "contraofensiva" em toda a fronteira, alegando que estava respondendo às provocações armadas de Nagorno Karabakh, uma região separatista de maioria armênia.

A região, que recebe apoio político, militar e econômico de Erevan, afirma ter sido vítima de agressão, pois Baku tenta retomar o controle da província desde a guerra de 1988-1994, que causou 30 mil mortes.

Desde então, Nagorno Karabakh, uma república autoproclamada sem reconhecimento internacional, nunca viveu em paz, com frequentes confrontos nas linhas de frente.

De acordo com a especialista Olesya Vartanyan, do Grupo de Crise Internacional, o aumento das hostilidades é explicado desta vez, em particular, pela ausência de mediação internacional recente, e isto apesar da escalada representada pelos confrontos armados em julho entre a Armênia e o Azerbaijão.

"Esses combates causaram muita comoção e apelos à guerra que infelizmente não foram contidos pela mediação internacional", lamenta.

A escalada do conflito é significativa?

A reativação do conflito no domingo em Karabakh é caracterizada por uma maior intervenção militar. O Azerbaijão realizou bombardeios aéreos, usou artilharia e tanques e afirma ter conquistado territórios.

"Estamos testemunhando ações muito coordenadas em vários lugares na frente com dois campos bem preparados", explica Olesya Vartanyan.

Esses confrontos são menos localizados do que os anteriores em abril de 2016.

"Em 2016, eram principalmente combates entre soldados de reconhecimento. Agora vemos intervenções completas com forte armamento", diz Gela Vasadze, especialista de Tibilisi, capital da Geórgia.

Os dois lados também decretaram lei marcial e mobilização militar, uma "novidade", segundo Vasadze, desde o início dos anos 1990.

Baku ainda reivindicou a conquista de uma posição-chave que, se confirmada, poderia facilitar o bombardeio de Stepanakert, a capital local.

No entanto, o especialista estima que nenhum dos dois campos tenha "recursos suficientes" para sustentar um esforço de guerra "desse porte por muito tempo".

É possível a intervenção de outros países?

Apenas uma profunda incursão militar no interior da Armênia ou do Azerbaijão, e não confrontos na linha de frente, poderia provocar a intervenção direta da Rússia ou da Turquia, segundo Gela Vasadze.

A Turquia poderia ajudar o Azerbaijão por meio de seus acordos militares. Da mesma forma, a Rússia, mais próxima de Yerevan, o faria por meio da aliança militar que a une à Armênia.

"Uma intervenção direta teria poucos benefícios para a Rússia e a Turquia, pois ameaçaria suas relações econômicas", esclarece.

No entanto, Olesya Vartanyan observa que a Turquia está intensificando seu apoio ao Azerbaijão, como visto durante exercícios militares conjuntos em agosto, os maiores organizados entre os dois países.

"Além da entrega de armas, não se sabe que nova ajuda a Turquia estaria disposta a fornecer. Há muitas opções sobre a mesa", avalia.

A Armênia acusou o Azerbaijão de ser apoiado principalmente por mercenários aliados dos turcos na Síria, especialistas militares turcos e pilotos de drones. O Azerbaijão também acusou a Armênia de usar mercenários.

Quais são as soluções diplomáticas?

Para Olesya Vatanyan, somente a mobilização do Grupo de Minsk, tradicional mediador que reúne Estados Unidos, França e Rússia desde 1992, poderia amenizar as tensões.

"Os diplomatas devem viajar e falar com as duas partes", pondera. Para Gela Vasadze, ao contrário, seria necessária uma "intervenção reforçada" dos Estados Unidos e da União Europeia no conflito, pois, segundo ele, a Rússia é um jogador duvidoso.

"O objetivo da Rússia não é resolver o conflito, mas, ao contrário, reacendê-lo periodicamente para preservar sua influência regional", opina./ AFP

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