Por que a China constrange feministas?

Na segunda-feira, evitando um desastre de relações públicas de âmbito internacional, a China libertou cinco mulheres detidas em março por organizar uma campanha contra o assédio sexual. A situação atraiu ampla atenção dentro do país, além de críticas de autoridades americanas e grupos de direitos humanos.

PETER FORD, CS MONITOR

18 Abril 2015 | 02h03

Segundo os advogados das mulheres, a pressão externa surtiu efeito com a libertação delas depois de o promotor de Justiça decidir não prosseguir com as acusações. A China prepara-se para organizar com a ONU um encontro sobre direitos femininos, em Nova York em setembro.

Mas as pressões exercidas contra o país podem ser contraproducentes uma vez que a China não costuma ceder à opinião pública. Protestos internacionais contra o julgamento, em 2010, do Prêmio Nobel da Paz Liu Xiaobo e, depois, de Ilham Tohti, conhecido defensor dos direitos dos uigures, não impediram que ambos fossem condenados a penas de prisão.

"Aqueles foram processos políticos", disse Liu Xiaoyuan, advogado do artista provocador Ai Weiwei, mantido preso durante quase três meses em 2011. Ai Weiwei foi libertado depois de uma ruidosa campanha internacional.

As cinco mulheres, ativistas experientes e famosas por realizarem "happenings" públicos muito criativos para chamar a atenção para as violações dos direitos femininos, planejavam uma campanha de panfletagem contra o assédio sexual nos transportes públicos que coincidiria com o Dia Internacional da Mulher, em 8 de março.

Elas foram detidas um dia antes, acusadas de "provocar confusão e criar problemas", o que implica uma pena máxima de 5 anos de prisão. Mas foram presas antes de iniciar sua campanha. A polícia alterou então o teor da acusação, para "reunir multidões para perturbar a ordem pública", referindo-se aos dois "happenings" realizados em 2012. O promotor concluiu que as provas contras elas eram insuficientes.

O secretário de Estado americano, John Kerry, insistiu para a China "libertar imediata e incondicionalmente" as cinco mulheres. Hillary Clinton também condenou a detenção delas.

O caso das ativistas foi particularmente embaraçoso no plano internacional, pois a China é uma das organizadoras do encontro na ONU, que marcará o 20.º aniversário da 4.ª conferência mundial sobre mulheres realizada em Pequim em 1995.

Naquela ocasião, Hillary Clinton, então primeira-dama dos EUA, fez um discurso contundente sobre feminismo e direitos humanos.

As mulheres não foram libertadas incondicionalmente, mas por meio de fiança. Sua liberdade de ação e movimentação será restrita e elas serão proibidas de se comunicar entre si por até um ano.

Aqueles que conhecem as ativistas afirmam que elas não se calarão. "Wei Tingting decidirá o que fazer", declarou seu advogado. "Pessoalmente, não acho que ela vai desistir", acrescentou. / Tradução de Terezinha Martino

* É jornalista

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