Sputnik/Aleksey Druzhinin/Kremlin via REUTERS
Sputnik/Aleksey Druzhinin/Kremlin via REUTERS

Por que a China não é capaz de salvar a economia de Putin; leia análise de Paul Krugman

Putin pode sonhar em restaurar a grandeza da era soviética, mas a economia da China é atualmente dez vezes maior

Paul Krugman *, O Estado de S.Paulo

08 de março de 2022 | 14h00

Ao decidir invadir a Ucrânia, Vladimir Putin claramente avaliou mal todo o cenário. Ele teve uma visão exagerada sobre o poderio militar de seu próprio país; minha descrição da semana passada, da Rússia enquanto uma superpotência Potemkin, com muito menos força do que dá a perceber, parece ainda mais verdadeira agora. Ele subestimou vastamente o espírito do povo ucraniano e sua destreza militar. E fracassou em antecipar a determinação de governos democráticos — especialmente, apesar de não ser o único, do governo de Joe Biden, que, caso você não tenha notado, fez um ótimo trabalho em todos os aspectos, desde armar a Ucrânia até unir o Ocidente em torno de sanções econômicas

Não posso acrescentar nada à discussão sobre a guerra em si, mas notarei que muitos dos comentários que tenho lido afirmam que as forças russas estão se reagrupando e retomarão avanços em grande escala daqui a um ou dois dias — e têm afirmado isso dia após dia, há mais de uma semana. 

Acho que posso acrescentar, porém, alguma análise sobre os efeitos das sanções e, em particular, responder a uma questão que tem sido levantada: A China é capaz, ao oferecer-se como um parceiro comercial alternativo, de salvar a economia de Putin?

Não é. 

Uma coisa que o Ocidente notavelmente não fez foi tentar bloquear as vendas russas de petróleo e gás natural — as maiores exportações do país. Oh, os Estados Unidos poderiam banir suas importações de petróleo russo, mas isso seria um gesto simbólico: Petróleo é negociado num mercado global, então isso apenas alteraria minimamente o mercado e, de qualquer modo, as importações americanas da Rússia representam apenas cerca de 5% da produção russa. 

O Ocidente cortou, porém, em grande medida, o acesso da Rússia ao sistema bancário internacional, o que causa um enorme problema para o país. Os exportadores russos podem conseguir tirar sua mercadoria da Rússia, mas agora ficou difícil para eles serem pagos. Provavelmente até mais importante, ficou difícil para a Rússia pagar por suas importações — me desculpem, mas vocês não podem fazer comércio moderno com maletas repletas de notas de US$ 100. Na verdade, até o comércio russo que permanece permitido legalmente parece estar secando, à medida que empresas ocidentais que temem mais restrições e reação política adotam “autossanções”.

O quanto isso importa? A elite russa pode sobreviver sem bolsas Prada, mas as farmacêuticas ocidentais são outro assunto. De qualquer modo, bens de consumo representam apenas cerca de um terço das importações russas. O restante são bens de capital, bens intermediários — ou seja, componentes usados na produção de mercadorias — e matéria-prima. É desses elementos que a Rússia precisa para manter sua economia funcionando, e sua ausência poderá fazer com que importantes setores se paralisem. Já há indicações, por exemplo, que o corte no fornecimento de peças de reposição e serviços poderá incapacitar rapidamente a aviação doméstica na Rússia, um enorme problema num país tão grande. 

Mas a China é capaz de dar socorro econômico para Putin? Eu diria que não, por quatro razões. 

Primeiramente, a China, apesar de ser uma potência econômica, não está em posição para fornecer algumas coisas que a Rússia precisa, como peças de reposição para aviões fabricados no Ocidente e chips semicondutores de última geração. 

Em segundo lugar, mesmo que a China não tenha aderido às sanções, o país é profundamente integrado com a economia mundial. Isso significa que bancos e outras empresas chinesas, da mesma maneira que as corporações ocidentais, poderão adotar autossanções — ou seja, ficarão relutantes em fazer negócios com a Rússia por medo de reações negativas de consumidores e agências reguladoras nos mercados mais importantes. 

Em terceiro lugar, China e Rússia são muito distantes geograficamente. Sim, os países compartilham fronteira. Mas a maioria da economia russa se localiza a oeste dos Urais, enquanto a maioria da economia chinesa se localiza nas proximidades da costa leste do país. Pequim fica a 5,6 mil quilômetros de Moscou, e a única maneira prática de mover mercadorias através dessa vastidão é por meio de um punhado de linhas de trem já sobrecarregadas.  

Finalmente, um ponto que, considero, não recebe tanta ênfase é a extrema diferença em termos de poder econômico entre Rússia e China. 

Alguns políticos estão alertando a respeito de um possível “arco de autocracia” reminiscente do Eixo da 2.ª Guerra — e dadas as atrocidades em andamento, essa comparação não é nada extravagante. Mas os parceiros em qualquer arco desse tipo seriam extremamente desiguais.  

Putin pode sonhar em restaurar a grandeza da era soviética, mas a economia da China — que tem aproximadamente o mesmo tamanho da economia russa de 30 anos atrás — é atualmente dez vezes maior. Para comparação, o produto interno bruto da Alemanha era apenas duas vezes e meia maior do que o italiano quando o Eixo original foi formado. 

Então, se tentarmos imaginar a criação de alguma aliança neofascista — e afirmo novamente, isso não soa mais como linguagem extrema — esta seria uma aliança na qual a Rússia figuraria como um parceiro muito menor, na verdade muito próximo de um Estado-cliente da China. Presumivelmente não é isso que Putin, com seus sonhos imperiais, tem em mente. 

A China, então, não é capaz de proteger a Rússia das consequências da invasão à Ucrânia. É verdade que o arrocho econômico na Rússia seria ainda mais forte se a China se juntasse ao mundo democrático na punição à agressão. Mas esse arrocho já parece bem severo sem a participação da China. A Rússia vai pagar um preço muito alto, em dinheiro e sangue, pela megalomania de Putin. / TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO

*Paul Krugman é professor do City University of New York e ganhou o Prêmio Nobel de Economia em 2008

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.