Por que a crise está explodindo agora?

Os imigrantes aproveitam o verão, quando é mais fácil de viajar pelas montanhas dos Balcãs e as águas não estão geladas

KATHARINE LACKEY E KIM HJELMGAARD, USA Today

05 Setembro 2015 | 02h00

Centenas de milhares de pessoas arriscaram suas vidas para chegar à Europa nos últimos meses, fugindo de perseguições, guerras e outras adversidades no Oriente Médio e África. As autoridades descrevem esta como a pior crise de refugiados desde a 2.ª Guerra. Milhares de indivíduos morreram para tentar uma vida melhor.

As nações europeias estão intensificando os esforços para conter o fluxo crescente dos que conseguem empreender a longa jornada em segurança para se defrontar com uma péssima acolhida em muitas nações. Eis o que é preciso saber sobre a crise que não dá sinais de amainar.

Fugir dos conflitos em algumas das regiões mais perigosas do mundo é o maior catalisador da recente recrudescência de migrantes. Viajar também é mais fácil no verão, quando as águas não estão geladas e o trajeto pelas áreas montanhosas dos Bálcãs não pode ser feito durante a estação mais fria. A maioria das pessoas que parte para essa jornada perigosa vem de países em guerra no Oriente Médio e África - como Síria, Iraque, Afeganistão, Nigéria, Sudão e Senegal.

A maior parte vem da Síria, onde a guerra civil dura mais de quatro anos. O país, ao lado do Iraque, também é fustigado pelos militantes do Estado Islâmico, que já se apossaram de grandes áreas dos dois países. Milhares de albaneses e sérvios também tentam chegar à União Europeia em razão das terríveis perspectivas econômicas em seu país, disse Dusan Reljic, especialista em Bálcãs no German Institute for International and Security Affairs.

A maior parte dos migrantes navega pelo Mar Mediterrâneo em barcos decrépitos ou botes infláveis. Eles chegam primeiro à Grécia em razão de suas muitas ilhas e a proximidade dos locais de partida em países como Turquia e Líbia. Itália e sua Ilha de Lampedusa também é um importante destino por sua localização.

Uma vez ali, muitos migrantes procuram atravessar a chamada rota terrestre dos Bálcãs, viagem que envolve a travessia de múltiplas fronteiras. Muitos se dirigem para Alemanha ou Suécia, onde os pedidos de asilo têm mais probabilidade de aprovação. Entre 1.500 e 2.000 migrantes seguem da Grécia para Macedônia e Sérvia diariamente, de acordo com a Organização Internacional para Migração. Segundo a organização, o fluxo deve aumentar para mais de 3 mil pessoas por dia.

Alguns migrantes também buscam refúgio em nações vizinhas. Mais de 1 milhão de sírios residem atualmente no Líbano, um número enorme considerando a população total do país, de quase 4,5 milhões de habitantes. A Turquia também aloja mais de 1 milhão de migrantes da Síria, especialmente em enormes campos de refugiados.

Muitos migrantes seguem para o norte, pois as nações europeias costumam aceitar e oferecer ajuda e onde também há oportunidades de trabalho e mais segurança no futuro.

A agência para os refugiados da ONU calcula que mais de 300 mil pessoas atravessaram o perigoso Mar Mediterrâneo este ano para chegar à Grécia e Itália, vindos do Oriente Médio e da África. Um aumento considerável em comparação com 2014, quando 219 mil pessoas usaram essa rota. Cerca de 2.600 pessoas morreram ou desapareceram este ano durante o percurso, de acordo com a agência. No ano passado 3.500 migrantes morreram ou desapareceram.

Os líderes europeus marcaram para o dia 14 uma reunião de cúpula em Bruxelas. Alemanha, Itália e França insistem numa distribuição mais equitativa dos refugiados dentro da União Europeia. No momento a Alemanha acolheu 40%, ao passo que Grã-Bretanha e Espanha receberam um número muito pequeno. Outros países adotaram medidas para conter o fluxo. A Hungria, no que foi muito criticado, ergueu um muro na fronteira com a Sérvia.

Migrante é definido como a pessoa que se desloca de um lugar para o outro, normalmente em busca de trabalho. Refugiado é aquele que foge de um país por temor de morte ou perseguição por motivo de religião, raça, opinião ou nacionalidade.

Enquanto os refugiados desfrutam de direitos básicos e proteções como o de refúgio ou assistência legal, os migrantes não têm tal direito e podem ser legalmente rejeitados. A distinção é importante, pois muitos que fogem da África, Oriente Médio e Ásia são refugiados com base na definição, mas muitos se enquadram na categoria de migrantes, pois suas vidas não estão em risco. Os governos europeus são acusados de favorecer o termo migrante porque, em teoria, estão exonerados de algumas responsabilidades.

Embora o direito de requerer asilo esteja contemplado na lei internacional, as decisões quanto aos pedidos variam de país para país. No caso da Europa é ainda mais confuso, pois os diferentes Estados-membros da UE abordam o assunto ao seu modo, apesar de existir um sistema comum de asilo europeu. Muitas decisões são arbitrárias e o fluxo não é distribuído igualmente pelo bloco. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

KATHARINE LACKEY E KIM HJELMGAARD SÃO JORNALISTAS DO USA TODAY

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.