Joédson Alves/Estadão
Joédson Alves/Estadão

Por que a Índia e não o Brasil? 

Ocidente não moveu uma palha para ajudar o Brasil enquanto mobilização internacional e solidariedade para com a Índia caminharam na direção oposta; razões são variadas e os pontos a seguir são fundamentais

Hussein Kalout*, O Estado de S.Paulo

03 de maio de 2021 | 12h00

O Brasil perdeu cerca de 150.000 vidas nos últimos dois meses, rompendo a triste marca de 400.000 compatriotas mortos. O chamado Ocidente condenou o negacionismo do calamitoso governo Bolsonaro, tomou medidas restritivas de viagens contra nacionais brasileiros, manifestou solidariedade às famílias de vítimas da covid-19. Mas – praticamente – não moveu uma palha para ajudar o país. Por quê?

Por outro lado, a mobilização internacional e a solidariedade objetiva e real para com a Índia caminharam na direção oposta. As razões são variadas; porém, os pontos a seguir são fundamentais para responder aos “porquês”: 

1. A Realpolitik é, no fundo, o que determina os interesses objetivos de potências como EUA, Reino Unido, Alemanha e França. 

2. Brasil e Índia possuem pesos muito diferentes e assimétricos para americanos, britânicos, alemãs e franceses. Ao ver desses países, a Índia é mais importante e mais forte do que o Brasil. 

3.  A Índia é potência nuclear e militar. É, acima de tudo, ator fundamental na contenção do poderio chinês na Ásia. Sem a Índia, americanos, europeus, australianos e japoneses não conseguiriam jogar um jogo mais efetivo na constrição do avanço da China. 

4. A Índia é potência científica e tecnológica e, portanto, os EUA precisam avançar nessa parceria em alto nível. Além disso, a cooperação militar entre americanos e indianos é real e é sedimentada em critérios objetivos. 

5. O mercado indiano é maior do que o brasileiro. A participação da Índia no comércio internacional é pelo menos o dobro da brasileira. O fluxo comercial EUA-Índia é maior do que o EUA-Brasil. E isso também vale para o comércio bilateral entre europeus e indianos. 

6.  Na conjuntura, cooperação sanitária é sobretudo sinal político. É oportunidade na qual as potências delineiam e plasmam as suas preferências. Interessa mais aos EUA e aos europeus a solução do problema indiano do que do brasileiro pelas razões apontadas acima. Portanto, não é apenas por imperativo humanitário que essa ajuda está ocorrendo – apesar de se admitir que o potencial da crise sanitária indiana represente risco maior do que a brasileira. É por uma questão geoestratégica! 

7. A força do lobby indiano em Washington via associações empresariais, think-tanks, organizações da sociedade civil foi vital nesse processo e na mobilização da Casa Branca e do Capitólio, em favor de Nova Déli. É importante reconhecer que o governo brasileiro é hoje incapaz de mobilizar semelhante conjunção de forças em seu benefício. Nem de longe o governo Bolsonaro possui a capacidade organizacional dos indianos e a penetração em instituições como as acima mencionadas. 

8. O ministério do exterior indiano e a embaixada indiana em Washington - mesmo nas principais capitais europeias - possuem atualmente melhor reputação e capacidade operacional mais efetiva. Os indianos dispõem de canais mais bem constituídos. Obviamente, isso não tem a ver com a capacidade de nosso corpo diplomático ou com as diretrizes e instruções do novo chanceler brasileiro. Isto é: a solidariedade para com a Índia e os insumos médicos doadas ao país asiático não são necessariamente resultado de maior competência dos diplomatas indianos vis-à-vis os brasileiros. Simplesmente, o Brasil ocupa lugar inferior ao da Índia na escala de prioridades desses países!! 

9. Se tivéssemos hoje na presidência Sarney, Collor, FHC, Lula, Dilma, Temer ou qualquer outro mandatário minimamente racional, a lógica decisória dos EUA e dos europeus não mudaria quanto à preferência pela Índia. Porém, se Bolsonaro não tivesse hostilizado grotescamente o Presidente Joe Biden e não tivesse implodido a relação do Brasil com os países europeus, estaríamos mais bem posicionados para negociar e receber gesto tempestivo de solidariedade desses países durante nossa trágica crise sanitária – a despeito, naturalmente, da prioridade geopolítica conferida à Índia. 

Em resumo, ainda que tivéssemos presidente funcional, provavelmente não teríamos a preferência em relação a indianos. Com presidente totalmente distópico, despencamos alguns degraus no ordenamento de prioridades de EUA e Europa. Por muitos prismas, a Índia é mais relevante no mapa geopolítico e estratégico para americanos e europeus. Teríamos, contudo, vantagem na área ambiental – se o governo tivesse cérebro para pensar e não gente cega por ideologia. O Brasil poderia ter negociado, enfim, avanços na área ambiental em troca de ajuda com insumos médicos e vacinas na pandemia. Assim, estaríamos salvando triplamente o nosso país em: vidas humanas, uso racional e sustentável de recursos naturais e recuperação da economia. 

PS: É importante sublinhar que se não fosse o Instituto Butantã e a cooperação da China, o Brasil não teria insumos e menos ainda vacina. 

Hussein Kalout* é cientista político, professor de Relações Internacionais e pesquisador da Universidade Harvard. Foi Secretário Especial de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (2017-2018). Escreve semanalmente, às segundas-feiras.

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