Por que a vitória de Merkel nas eleições da Alemanha não é garantida

O apoio dos alemães à sua chanceler, Angela Merkel, que busca reeleger-se mais uma vez, é praticamente unânime. Seu índice de aprovação é o dobro do apresentado por seu rival mais próximo, Peer Steinbrück. Por isso, as eleições federais, no dia 22 de setembro, não passarão de um ritual aborrecido, certo? Não necessariamente.

Sara Miller Llana*,

20 Setembro 2013 | 19h16

O complexo sistema eleitoral da Alemanha - que, na opinião dos cientistas políticos, muitos alemães não compreendem plenamente - implica que teoricamente, no domingo, Merkel poderá perder o cargo. Algo extremamente improvável; entretanto, o que é possível, e parece ainda mais provável, é que ela seja obrigada a governar numa coalizão com o Partido Social Democrata (SPD) de Steinbrück, embora sua União Democrata Cristã (CDU) tenha 15 pontos de vantagem, segundo a maioria das pesquisas. Aqui estão algumas razões.

Quem competirá no dia 22 de setembro? Ao contrário dos Estados Unidos, o chanceler alemão não é eleito, e a disputa se dá entre os partidos. No pleito deste fim de semana, serão 34 os partidos participantes, mas eles terão de receber pelo menos 5% dos votos nacionais para ingressar no Bundestag, a Câmara Baixa alemã. Este mínimo foi estabelecido para manter os grupos menores fora da política, como aconteceu durante a República de Weimar, antes da Segunda Guerra Mundial.

"O fato de não existir na época um governo estável com uma forte maioria que pudesse aprovar uma legislação levou ao colapso da República de Weimar", afirma Jürgen Galter, professor de ciências políticas na Universidade de Mainz. Isto significa que cinco partidos têm maiores probabilidades de conquistar cadeiras na Câmara Baixa.

São eles: o CDU de Merkel, com o partido irmão União Cristã Social (CSU) da Baviera, com cerca de 40% dos votos nas pesquisas; o PSD, partido de centro-esquerda, que há muito compete com a CDU. Ambos recebem cerca de 25% das preferências de voto; o Partido Liberal Democrata (FDP) que defende as empresas, atualmente na coalizão de governo de Merkel, que se esforça para alcançar o mínimo de 5% nestas eleições; os Verdes, partido de esquerda com cerca de 10%; e a Esquerda, com mais 10%.

Acredita-se que dois outros partidos teriam uma chance remota de conseguir uma cadeira. A Alternativa para a Alemanha, um novo partido eurocético, com cerca de 3% das preferências de voto, e o Partido Pirata, grupo que defende a liberdade da Internet e que foi bastante favorecido pela reação negativa do programa de espionagem da NSA na Alemanha, chegando a 4% das preferências.

Portanto, por que a vitória de Merkel não está garantida? A CDU tem uma vantagem de 15 pontos em relação ao seu rival mais próximo, e é bastante provável que Merkel se torne chanceler da Alemanha pelo terceiro mandato.

Mas mesmo que a CDU obtivesse 40% dos votos, não disporia da maioria absoluta. Portanto, precisaria formar uma coalizão para contar com a maioria dos assentos. O atual parceiro de Merkel, o FDP, se enfraqueceu; e ainda que consiga os 5%, uma outra coalizão conservadora talvez não obtenha a maioria. "A maioria esmagadora da população alemã quer Angela Merkel seja novamente sua chanceler, mas na Alemanha o povo não vota para eleger o chanceler", explica Carsten Koschmieder, um pesquisador na área de ciências políticas da Universidade Livre de Berlim. "A questão é qual é a coalizão mais forte, e não qual é o partido mais forte".

Como funciona o processo de fato? Os eleitores depositam dois votos na urna: um para um líder que representará o seu distrito, o que garante que todas as regiões da Alemanha estejam representadas no plano federal; e um segundo voto para a escolha de um partido. Este é o voto decisivo porque determina a força relativa de cada partido no Bundestag, que então vota num chanceler federal.

O processo pode se complicar quando os eleitores "dividem" seus votos - escolhendo um líder em seu distrito pertencente a um partido, e um partido diferente para o seu segundo voto. Depois que os resultados forem conhecidos no domingo, os partidos começarão a formar as coalizões. Para tanto, deverão concordar com um "tratado", ou contrato, negociando sua futura plataforma de governo. Uma vez formada uma coalizão que funcione, o presidente da Alemanha indica o chanceler e o Bundestag vota.

Então, qual será o resultado mais provável no domingo? Como Merkel corre o risco de não conseguir manter sua atual coalizão conservadora, é possível que a Alemanha tenha de formar uma "coalizão ampla" entre a CDU e o SPD. Embora os dois divirjam no plano ideológico, principalmente na questão dos impostos e na maneira de garantir um salário mínimo, já governaram juntos anteriormente, inclusive no primeiro mandato de Merkel. Steinbrück declarou que não governará com a CDU numa coalizão, mas a maioria dos analistas políticos afirma que isto não passa de uma atitude de desafio antes das eleições, e que com toda a probabilidade os dois chegariam a um compromisso político.

Outra possibilidade matemática é uma coalizão entre a CDU e os Verdes. Mas muitos rejeitam esta hipótese porque os dois partidos diferem fundamentalmente no que se refere à estratégia. Em termos matemáticos, os Verdes, a Esquerda e o SPD também poderiam ter condições de formar uma coalizão, mas no SPD muitos excluem governar com a Esquerda; eles perderiam grande parte da credibilidade caso recuassem.

O que significa para esta disputa a ascensão da Alternativa para a Alemanha? Embora os partidos eurocéticos venham ganhando terreno na Europa, não têm encontrado muito espaço na Alemanha. Mas o novo partido Alternativa, que quer que os países mais fracos da Europa, como a Grécia, deixem a zona do euro, está subindo nas pesquisas.

Na maior parte do ano, a agremiação vinha recebendo apenas 2% das intenções de voto, até que o ministro das Finanças de Merkel disse, em agosto, que a Grécia precisaria provavelmente de outra operação de ajuda. As pesquisas mostraram então um aumento para 3 a 4%. Ainda abaixo do mínimo de 5%; entretanto, como, na realidade, o partido atrai o eleitorado conservador também, poderá "roubar" votos tanto da CDU

quanto do FDP. A bem da verdade, trata-se de uma entidade desconhecida que poderá mudar completamente o resultado das eleições. "Não temos nenhuma experiência a respeito deste grupo", afirma Falter. "Não sabemos se ele oculta um potencial que não é expresso nas pesquisas de opinião"./ Tradução Anna Capovilla

* para CSMonitor.com

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