Por que americanos querem os segredos de seus aliados?

Uma semana depois da revelação de que a inteligência americana pode ter monitorado o celular da chanceler alemã, Angela Merkel, não há dúvida de que o episódio foi prejudicial para os EUA e para a Agência de Segurança Nacional (NSA). Agora a irritação inicial parece dar lugar ao debate: de fato, podemos indagar, será uma ideia tão má Washington espionar líderes amigos como Merkel?

ANÁLISE: Max Fisher* - O Estado de S. Paulo,

30 de outubro de 2013 | 23h17

A pergunta pode soar contraditória, até mesmo cínica, sinal do grau de arrogância dos americanos pelo simples pelo fato de formulá-la. Afinal, amigos não espionam amigos. Entretanto, não é segredo que o cenário internacional é, e sempre foi, antagônico, mesmo com aliados. Como dizia Lord Palmerston, estadista britânico do século 19, "países não têm amigos, têm interesses".

Espionar nações amigas não infringe normas comuns das relações internacionais e, sob muitos aspectos, é algo coerente com elas. Aliados dos EUA, como França e Israel, são particularmente notórios por essa prática. No entanto, algo explícito como interceptar as conversas de Merkel no seu celular é uma medida surpreendente, que pode levar a exageros.

A justificativa mais simples para a espionagem é o fato de EUA e Alemanha serem concorrentes, apesar de aliados. Se a espionagem pode ajudá-los em disputas específicas, seus líderes não seriam obrigados a sancioná-la? Afinal, a função do presidente Barack Obama e de Merkel é promover, respectivamente, interesses americanos e alemães. No entanto, mesmo que espionar Merkel possa contribuir para promover os interesses americanos, está claro que ela entendeu a bisbilhotice como uma ofensa pessoal.

Além disso, toda a atenção negativa evidentemente afeta a imagem dos EUA aos olhos dos eleitores alemães, que poderão se sentir menos inclinados a votar em representantes favoráveis a Washington ou a apoiar políticas que beneficiem o governo americano. Mais esclarecedora é talvez a reação da chanceler. Ela sugeriu que EUA e Alemanha assinem um acordo de não espionagem recíproca - o que finalmente colocaria as respectivas agências de informações em pé de igualdade em suas atividades, há muito tempo dominadas pelos EUA.

MAX FISHER É JORNALISTA DO WASHINGTON POST

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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