Por que apoiamos o pacto iraniano

DAVID CAMERON

DA GRÃ-BRETANHA, PRESIDENTE DA FRANÇA E CHEFE DE GOVERNO DA ALEMA NHA, RESPECTIVAMENTE, O Estado de S.Paulo

12 Setembro 2015 | 02h00

FRANÇOIS HOLLANDE

ANGELA

MERKEL

THE WASHINGTON POST

O Congresso dos Estados Unidos vota nesta semana o apoio ao acordo que nossos países, juntamente com Estados Unidos, Rússia e China, concluíram com o Irã sobre as restrições a seu programa nuclear. Este é um momento importante. Esta é uma oportunidade crucial no atual clima de enorme incerteza global para mostrar o que a diplomacia pode conseguir.

O programa nuclear do Irã é motivo de preocupação há mais de dez anos. O Irã afirmava que suas ambições eram meramente civis: segundo o Tratado de Não Proliferação Nuclear, todos os países têm o direito de usar tecnologia nuclear para fins pacíficos. Mas há apenas dois anos, nos deparamos com uma alarmante expansão do programa iraniano: o crescimento de seus estoques de urânio, em parte enriquecido a 20%; o aumento do número de centrífugas, até mesmo de máquinas mais poderosas de nova geração; uma usina de enriquecimento construída nas profundezas de uma montanha em Fordow; e praticamente a conclusão de um reator de pesquisa em Arak, capaz de produzir plutônio para a fabricação de armas. Evidentemente, a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) limitou a visibilidade de alguns aspectos do programa do Irã.

Tudo isso representou uma grave ameaça - não apenas para a segurança dos vizinhos do Irã e para Israel, mas também para nossos países. Uma corrida às armas nucleares no Oriente Médio poderia implicar a introdução de um novo elemento desastroso numa região já instável.

Era nossa responsabilidade tratar dessa ameaça. A longa história de infrutíferas conversações a respeito da questão com o Irã não dava margem para otimismos. No entanto, dois anos de duras e minuciosas negociações produziram um acordo que fecha todos os caminhos possíveis para uma arma nuclear iraniana em troca do abrandamento gradativo das sanções relacionadas à questão nuclear.

Apoiamos totalmente esse acordo, pois ele atinge as metas por nós mesmos estabelecidas. Ele tenta resolver o problema do enriquecimento e sua eventual evolução até a construção de uma bomba exigindo que o Irã reduza em 98% seus estoques de urânio enriquecido; diminua em 67% o número de suas centrífugas; limite os níveis de enriquecimento do urânio; e pare de utilizar o sítio de Fordow para o enriquecimento. Desse modo, fecham-se os caminhos até o plutônio com mudanças no reator de Arak, impedindo que ele produza plutônio para a fabricação de armas. E estará garantido um maior acesso à AIEA, não apenas às instalações nucleares iranianas e a todo o ciclo do combustível nuclear, mas também, se necessário, a todo sítio que ainda não tenha sido declarado.

Em troca, o Irã será beneficiado com a redução gradual das sanções econômica, mas somente à medida que atender de maneira concreta aos compromissos assumidos, mediante verificação da AIEA. E todos nós concordamos com cláusulas que preveem o retorno das sanções no caso de o Irã infringir substancialmente o pacto assinado.

Este acordo não tem como base a confiança ou em qualquer outro pressuposto a respeito da situação do Irã daqui a 10 ou 15 anos. Tem com o base controles rigorosos minuciosamente especificados, verificáveis e duradouros. O Irã terá fortes incentivos para não trapacear: a quase certeza de ser apanhado e as consequências que se seguiriam tornando a trapaça uma opção fracassada.

Condenamos com toda clareza o fato de o Irã não reconhecer a existência do Estado de Israel, e a linguagem inaceitável usada pelos líderes iranianos a respeito de Israel. As questões de segurança de Israel são, e sempre serão, de nosso interesse fundamental também. Não teríamos concluído o acordo nuclear com o Irã se não estivéssemos convencidos de que ele elimina uma ameaça à região e ao regime de não proliferação como um todo.

Não concluímos o acordo nuclear na expectativa de uma mudança da política externa do Irã no curto prazo. Mas ele procura solucionar o problema da ameaça representada pelo programa nuclear do Irã e poderá abrir o caminho para o reconhecimento pelos iranianos de que a colaboração com seus vizinhos é melhor do que o confronto: Embora talvez não tenhamos os mesmos interesses do Irã, enfrentamos ameaças comuns, até mesmo a do Estado Islâmico.

Esperamos que o acordo ofereça sólida base para a solução permanente do conflito relativo ao programa nuclear iraniano. Por isso, agora que todos os procedimentos nacionais estão concluídos, queremos dar início à plena implementação do Plano de Ação Conjunta Abrangente. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

DA GRÃ-BRETANHA, PRESIDENTE DA FRANÇA E CHEFE DE GOVERNO DA ALEMA NHA, RESPECTIVAMENTE

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