Leon Neal/AFP
Leon Neal/AFP

Por que Assange escolheu o Equador para pedir asilo?

O fundador do WikiLeaks e o presidente Correa vinham ensaiando aproximação há algum tempo.

BBC Brasil, BBC

20 de junho de 2012 | 13h51

QUITO - A decisão do fundador do WkiLeaks, Julian Assange, de buscar asilo no Equador pode ter surpreendido muitos já que, este ano, o país vem sendo acusado internacionalmente de reprimir a imprensa privada. Mas o governo equatoriano já vinha ensaiando uma aproximação com o jornalista australiano havia algum tempo.

Veja também:

link Assange será preso se sair da embaixada do Equador

link Equador analisa pedido de asilo político de Assange

Em novembro de 2010, o ex-vice-ministro das Relações Exteriores equatoriano Kintto Lucas ofereceu a Assange residência no país, para que pudesse "divulgar livremente as informações que possui".

A oferta foi rapidamente retificada pelo governo do presidente Rafael Correa como sendo uma oferta feita por iniciativa própria de Lucas. À época, o líder do país chegou a criticar a WkiLeaks por divulgar documentos confidenciais.

Mas em abril de 2011, o Equador expulsou a embaixadora americana após revelações - feitas pelo WkiLeaks - nas quais ela sugeria que Correa estaria ciente de acusações de corrupção feitas contra um chefe de política promovido a comandante de uma força nacional. Desde então, Assange tem mantido contato próximo com a embaixada do Equador em Londres.

Entrevista

Muitos apontam como um divisor de águas nesta relação a entrevista conduzida em abril por Assange com Correa para o canal em inglês, financiado pelo governo russo, Russia Today.

Durante os 75 minutos de entrevista, Correa elogiou o trabalho da WkiLeaks, defendeu a liberdade de expressão, criticou o papel negativo de alguns órgãos de imprensa e encerrou o encontro com uma saudação amigável para Assange: "Bem-vindo ao clube dos perseguidos!", disse o mandatário sul-americano.

Na entrevista, Correa também disse que os documentos publicados pela WikiLeaks fortaleceram seu governo "porque as grandes acusações da embaixada americana eram que o governo do Equador promove um nacionalismo excessivo e defende sua soberania".

"Sem dúvida somos nacionalistas e defendemos a soberania do país", disse Correa, que foi o único presidente latinoamericano entrevistado pelo programa, que já recebeu personalidades como o líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah e o presidente da Tunísia, Moncef Marzouki.

Estratégia

Atualmente, o Equador decide se dá asilo político a Assange, que está refugiado na embaixada do país em Londres. O australiano luta contra a extradição para a Suécia onde enfrenta acusações de crimes sexuais. Ele diz que as acusações são motivadas politicamente.

Analistas consideram que a concessão de asilo para Assange pode ser uma medida inteligente do governo Correa, que deve tentar a reeleição no ano que vem. Ela pode ser uma oportunidade de mudar a percepção de que persegue a imprensa.

Correa se diz vítima da imprensa privada equatoriana, que historicamente serviu os interesses das elites econômicas do país. No começo do ano, ele ganhou dois processos milionários contra jornalistas. O jornal El Universo foi multado em US$ 40 milhões e seus donos condenados a três anos de prisão.

Dois jornalistas investigativos foram multados em US$ 10 milhões por terem difamado a reputação do presidente em um livro que trouxe detalhes de contratos governamentais. Após duras críticas internacionais, Correa perdoou os jornalistas.

O editor do jornal privado Hoy, Marlon Puertas, disse à BBC que "se há algum mérito que devemos reconhecer neste governo é que nunca toma uma decisão improvisada".

Com informações de Matias Zibell e Irene Caselli BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.