Jonathan Ernst/Reuters
Jonathan Ernst/Reuters

Por que Biden não tem mais medo de dívidas?

Com o tempo, governo americano se acostumou a gastar e atualmente reduzir o déficit deixou de ser uma prioridade 

The Economist, O Estado de S.Paulo

01 de abril de 2021 | 05h00

Em 1993, quando Bill Clinton concedeu sua primeira entrevista coletiva como presidente, a dívida pública dos Estados Unidos representava 63% do PIB do país, que estava em recessão. Em seus comentários iniciais, ele se esforçou para enfatizar que cortaria o déficit antes de fazer qualquer declaração anunciando planos de estímulo à economia.

Em 2009, quando o presidente democrata seguinte, Barack Obama, concedeu sua primeira entrevista coletiva, a dívida pública representava 77% do PIB do país, que cambaleava com a Grande Recessão. Antes de abrir para as perguntas, ele também tentou se prevenir em relação a críticas a respeito de seu plano de gastos, argumentando que “fazer pouco ou não fazer nada resultará em déficits ainda maiores”.

Hoje, com os gastos nas alturas e a economia trôpega, os EUA ostentam uma dívida pública acima dos US$ 27 trilhões, representando cerca de 130% do PIB. O déficit do governo federal no ano passado triplicou, para mais de US$ 3 trilhões. Os EUA estão novamente tentando ativar sua economia, desta vez diante de um choque fiscal de US$ 1,9 trilhão, muito maior do que Clinton e Obama jamais ousaram. 

E ainda assim, quando Joe Biden concedeu sua primeira entrevista coletiva como presidente, em 25 de março, ele não viu nenhuma necessidade de mencionar os déficits. Depois de 38 minutos, porém, ele falou espontaneamente a respeito do custo de seu plano de estímulos, mas somente para escarnecer das preocupações expressadas recentemente por membros do Partido Republicano, que qualificaram o pacote como hipócrita, em razão do apoio deles aos cortes de impostos de Donald Trump. “Adoro o fato de eles terem descoberto essa ideia de se preocupar com o orçamento federal”, afirmou Biden. “É impressionante.”

Biden delineou sua próxima iniciativa titânica, um plano de investimento em infraestrutura que poderia, segundo relatos, custar até US$ 3 trilhões. Nenhum repórter fez perguntas a respeito desse gasto, muito menos a respeito de como financiar tudo isso.

É difícil exagerar o quanto a antes potente dinâmica política dos gastos deficitários foi diminuída. Taxas de juros persistentemente baixas acalmaram muitos economistas que temiam os perigos da dívida pública, antes uma obsessão entre presidentes, candidatos à presidência, imprensa e analistas políticos. Há apenas poucos anos, cortar o déficit parecia uma política virtuosa, que provocava murmúrios de solene aprovação em membros de ambos os partidos. Agora, entre os democratas, a reação diante disso é uma expressão de enfado, se tanto, como se falássemos de um costume estúpido ou até imoral de uma era dominada pela cegueira. 

Em vez disso, democratas influentes como a deputada Alexandria Ocasio-Cortez e até os conselheiros econômicos de Biden se preocupam com a possibilidade de não gastar o suficiente para enfrentar uma gama de problemas, de pontes enferrujadas a oceanos que se aquecem. “Quando os bilhões se tornaram trilhões?”, pergunta Maya MacGuineas, presidente da Comissão para um Orçamento Responsável, que há muitos anos alerta para os perigos dos déficits crescentes no longo prazo. “Parece que ainda há pouco nos preocupávamos em pegar emprestado US$ 10 bilhões adicionais.”

Biden tem o povo ao seu lado. Pesquisas relatam um forte apoio aos gastos com estímulos e sua pouca preocupação com a dívida. Na última pesquisa Gallup, somente 3% dos entrevistados citaram a dívida ou o déficit como o problema mais importante do país. “Os republicanos não se importam, os democratas não se importam — ninguém se importa”, afirmou Frank Luntz, especialista em pesquisas republicano. “Acreditamos que outra pessoa pagará a conta.”

As baixas taxas de juros mantiveram baixo o custo de amortizar a dívida pública que, apesar de ficar em aproximadamente US$ 300 bilhões anualmente, ainda é muito maior do que os gastos do governo federal em habitações para os pobres. Com base na atual dívida, antes de qualquer gasto em infraestrutura, um aumento em 1 ponto porcentual nas taxas de juros elevaria o pagamento de juros em outros US$ 300 bilhões este ano, de acordo com a Comissão para um Orçamento Responsável. 

Políticos progressistas são favoráveis a aumentar impostos para diminuir a desigualdade de renda, e Biden, segundo relatos, está considerando aumentar impostos para compensar o custo de seu plano de infraestrutura, incluindo aumentos de impostos para empresas e para os indivíduos mais ricos. Mas mudanças desse tipo certamente serão combatidas pelos republicanos e dificilmente financiarão todo o plano. Apoiadores de Biden argumentam que investimentos em infraestrutura pagarão a própria conta com o tempo, por meio da alta no crescimento.

Por décadas, Biden foi um falcão do déficit. Como Clinton, ele vem de uma ascendente geração de “Novos Democratas” que buscaram escapar da imagem de liberais gastadores, que os republicanos vincularam com sucesso ao Partido Democrata. Em 1984 (dívida pública: 37% do PIB), Biden defendia o congelamento de todos os gastos do governo federal para lidar com o que qualificava como “gastos desenfreados” do governo de Ronald Reagan. “Nos próximos 12 a 18 meses esse país enfrentará uma crise econômica e política de proporções extraordinárias se o Congresso se recusar a adotar ações decisivas a respeito dos déficits que enfrentamos”, alertou ele erroneamente, conforme se verificou.

Apesar da falsa convicção de Reagan a respeito do déficit — que explodiu durante seu governo e o de seu sucessor, George H.W. Bush — os democratas continuaram tidos publicamente como gastadores. Em 1996, quando o instituto Gallup revelou que os americanos consideravam o déficit o maior problema enfrentado pelo país, Clinton prometeu em seu discurso do estado da união equilibrar o orçamento e declarou, “A era dos excessos do governo acabou”.

Depois disso, Clinton entregou quatro superávits seguidos, ao mesmo tempo em que criou um programa de seguro-saúde para crianças pobres — uma combinação considerada triunfal entre a esquerda até recentemente. Seus assessores projetavam superávits “até onde a vista alcança”. Mas esses superávits evaporaram após uma quebra do mercado, os ataques de 11 de Setembro e as guerras que se seguiram, além dos cortes de impostos de George W. Bush.

E, ainda assim, Obama sentiu a mesma pressão que Clinton. Passado pouco mais de um mês após assumir a presidência, ele convocou uma Cúpula de Responsabilidade Fiscal. O evento foi inaugurado por seu vice, Biden, que via “uma oportunidade real para colocar nossa economia de volta nos trilhos e restaurar a responsabilidade fiscal”. Nos mandatos de Obama, o déficit caiu a menos da metade em comparação ao elevado patamar estabelecido pelos gastos extraordinários durante a crise financeira.

E então vieram os cortes de impostos de Trump, vendidos sob promessas de que pagariam a própria conta por meio da alta no crescimento. Assim como a promessa de campanha de Trump de eliminar os déficits e pagar a dívida em oito anos, esse resultado não se materializou. E senadores republicanos que pareceram sinceros em seu compromisso de reduzir o déficit apoiaram o corte de impostos.

Para olhares de analistas independentes, esse foi o ponto de ruptura para os congressistas democratas de centro, que chegaram à conclusão de que os republicanos somente se interessavam em reduzir o déficit enquanto instrumento de disputa política. “Sabe do que eu chamo os republicanos?”, pergunta Rahm Emanuel, que foi conselheiro político de Clinton e chefe de gabinete de Obama. “Falcões sazonais do déficit. Eles aparecem nos outonos em que os democratas vencem.”/TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL 

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