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Por que ditadores não gostam de piadas?

O bom humor cria empatia entre os movimentos não violentos e seus militantes, além de encurralar os regimes, que perdem se ficam calados ou se respondem às sátiras

O Estado de S.Paulo

14 de abril de 2013 | 02h01

Quinze anos atrás, quando o movimento pró-democracia não violento da Sérvia Otpor não passava de um pequeno grupo de 20 estudantes com US$ 50, decidimos pregar uma peça. Pegamos um barril de petróleo, colamos uma foto do ditador sérvio Slobodan Milosevic nele e o colocamos no meio de um grande distrito comercial de Belgrado. Perto dele colocamos um bastão de beisebol. Aí, fomos tomar café, nos sentamos e ficamos observando a brincadeira se desenrolar. Não demorou para dezenas de compradores fazerem fila na rua à espera de uma chance para dar uma tacada em "Milosevic" - o homem que tantos desprezavam, mas que a maioria tinha muito medo de criticar.

Cerca de 30 minutos depois, a polícia chegou. Prendemos a respiração, esperando pelo que viria em seguida. O que faria a polícia de Milosevic? Não podia prender os compradores - com que pretexto? E não podia prender os culpados - porque nós não estávamos à vista. Então, o que fez a polícia de Milosevic? A única coisa que poderia fazer: deteve o barril.

A imagem dos dois policiais arrastando o barril para sua viatura foi a melhor foto tirada na Sérvia durante meses. Milosevic e seus camaradas se tornaram motivo de chacota e o Otpor tornou-se um nome familiar.

Revolução é coisa séria. Basta lembrar os rostos carrancudos de revolucionários do século 20, como Lenin, Mao, Fidel e Che. Eles mal podiam esboçar um sorriso. Mas saltando para os protestos do século 21, pode-se observar uma nova forma de ativismo em ação.

'Risotivismo'. As carrancas ameaçadoras de revoluções passadas foram substituídas por humor e sátira. Os ativistas não violentos de hoje estão provocando uma mudança global nas táticas de protesto, afastando-se de raiva, ressentimento e furor em favor de uma forma nova e mais incisiva de ativismo radicada na diversão: o "risotivismo".

Tomem-se os casos do Oriente Médio e do Norte da África, onde manifestantes não violentos estão usando o riso e a graça para reforçar seus apelos por democracia. Na Tunísia, em janeiro de 2011, no auge dos protestos contra Ben Ali, um homem sozinho - depois imortalizado como um super-herói, o Capitão Khobza (pão) - enfrentou seguidores de Ben Ali armado com um humor ferino e uma baguete francesa.

No Egito, um vídeo bizarro retratando o presidente egípcio, Mohamed Morsi, como Super Mario circulou no YouTube em março. No Sudão, estudantes provocaram o ditador Omar Bashir com protestos de "lamber o cotovelo" - uma referência ao termo depreciativo que ele usava para difamar a oposição democrática. Mesmo na Síria, onde a guerra civil tirou 70 mil vidas, grafites satíricos e slogans mordazes anti-Assad eletrizaram os protestos de rua.

E, não custa lembrar, a relevância política de comediantes no Oriente Médio foi recentemente demonstrada pela decisão do governo egípcio de aumentar as acusações criminais contra o apresentador de talk-show Bassem Youssef (o homem frequentemente descrito como o "Jon Stewart do Egito").

A medida do governo de Mohamed Morsi atestou a capacidade do humor de incomodar os poderes vigentes (por enquanto, Youssef continua livre, depois de pagar fiança).

Mas o uso estratégico do humor não se confina ao Oriente Médio e ao Norte da África. Nos EUA, os manifestantes do movimento Ocupe Wall Street usaram regularmente o humor para zombar das corporações americanas. Quem pode esquecer os manifestantes com aparência ridícula que, vestidos como palhaços de rodeio e toureiros, domaram a lendária estátua do touro em Wall Street?

Na Espanha, onde os manifestantes são chamados de Indignados, rir é uma arma potencial. Espetáculos teatrais satíricos, flash mobs (aglomerações instantâneas previamente combinadas) e explosões aparentemente espontâneas de cantoria e dança se tornaram marcos do movimento anticapitalista na Espanha, ajudando a reduzir as tensões e sustentar o entusiasmo.

Os russos também infundiram o riso em suas manifestações, usando de tudo: preservativos, jiboias, hospitais de saúde mental e até brinquedos Lego para cutucar Putin.

Contra o medo. Há uma razão para o humor integrar o arsenal do manifestante do século 21: ele funciona. Primeiro, o humor quebra o medo e constrói confiança. Ele também adiciona um necessário frescor que ajuda os movimentos a atrair novos membros. Finalmente, o humor pode incitar reações desastradas dos adversários de um movimento.

Os melhores atos de "risotivismo" forçam seus alvos de protesto a cenários onde eles só podem perder, sabotando a credibilidade de um regime seja qual for a sua resposta. Esses atos vão além de meros trotes; eles ajudam a corroer a argamassa que mantem a maioria dos ditadores no poder: o medo.

Veja-se de novo o Egito. Durante décadas, o Egito de Mubarak era um país em que a oposição política era contida com agressões, prisões e assassinatos sancionados pelo Estado. Mubarak viveu desse medo e tinha todas as razões para esperar que poderia usá-lo para esmagar os protestos que surgiram na esteira da revolução tunisiana do início de 2011. Por isso denunciou que os manifestantes estavam servindo a "agendas estrangeiras".

Em vez de morder a isca do regime, porém, os ativistas usaram a cultura do medo de Mubarak contra ele próprio. Nos primeiros tempos dos protestos anti-Mubarak, ativistas ocuparam Praça Tahrir carregando cadernos comuns e uma queixa fingida: tinham deixado suas agendas estrangeiras em casa. Sua provocação logo se espalhou além da Praça Tahrir, em geral divulgada pela mídia noticiosa. Uma mensagem de computador exibia na tela a frase "Instalando a Liberdade" enquanto mostrava arquivos sendo copiados e colados de um folder intitulado de "Tunísia". A foto era acompanhada de uma mensagem de erro dizendo: "Não consegue instalar Liberdade? Remova 'Mubarak' e tente novamente".

O humor rapidamente se tornou uma parte central da estratégia de comunicação anti-Mubarak, servindo a dois propósitos principais. Por um lado, trocadilhos espertos, caricaturas mordazes e espetáculos provocadores tornavam "cool" vir à Praça Tahrir e ser visto como politicamente ativo. A cada dia, multidões maiores e rostos novos se reuniam aos protestos na praça - não só porque esperavam derrubar Mubarak, mas porque queriam fazer parte da "explosão cômica" que se desenrolava por todo o país.

Os manifestantes de hoje compreendem que o humor oferece um meio de acesso de baixo custo aos cidadãos comuns que não se consideram particularmente políticos, mas estão cansados da ditadura. Torne um protesto divertido e as pessoas não vão querer perder a próxima ação.

Por outro lado, atos de humor e astúcia lembram o mundo exterior de que os manifestantes do Egito não eram os radicais enfurecidos que o regime gostaria que se acreditasse que eles fossem. De fato, o humor passou uma imagem positiva do levante egípcio e ganhou a simpatia da comunidade internacional para a rebelião.

É uma mensagem que os jovens da Primavera Árabe não esqueceram. A aceitação do Harlem Shake pela juventude no Egito e na Tunísia transformou o meme de internet num vibrante protesto satírico que enfatizou as aspirações criativas e democráticas de tantos jovens da região. De novo, a comunidade internacional foi obrigada a reconhecer que eles não são os meros arruaceiros torcedores de futebol que vemos na televisão - são rapazes ávidos para abraçar a democracia. Eles só querem se divertir fazendo isso.

E o mesmo ocorre com outras pessoas mundo afora. Ao usar o humor, os ativistas colocam os autocratas diante de um dilema: o governo ou pode reprimir quem o ridiculariza (parecendo ainda mais ridículo no processo) ou ignorar a sátira (e correr o risco de abrir as comportas da dissidência). Aliás, diante da zombaria ácida, regimes opressores não têm nenhuma opção. Façam o que fizerem, saem perdendo.

Mas o melhor exemplo talvez venha da Rússia. Lá, um protesto siberiano anti-Putin com brinquedos exibiu ursinhos de pelúcia, personagens de Lego e da animação americana South Park. Eram somente brinquedos - humanos não eram permitidos. O que foi que aconteceu? As autoridades russas acharam os culpados? Prenderam os brinquedos? Podem apostar que sim. Após confiscar os manequins de Lego, as autoridades siberianas impuseram uma proibição oficial a todos os protestos futuros com brinquedos. Sob que pretexto? De que os brinquedos eram fabricados na China.

Nos meses seguintes, as trapalhadas das encrencadas autoridades siberianas tornaram-se virais. No processo, lembraram ditadores de todo o mundo que, depois de o espírito do riso e do poder popular sair da garrafa, não há com o pará-lo.

O humor político é tão antigo quanto a política em si. Sátiras e piadas foram usadas ao longo dos séculos para dizer a verdade ao poder. Elas inspiraram os protestos contra a União Soviética nos anos 80, as manifestações pela paz nos anos 60 e movimentos de resistência em territórios ocupados pelos nazistas nos anos 40.

Mas os ativistas não violentos de hoje elevaram o humor a um novo patamar. Riso e diversão não são mais marginais à estratégia de um movimento; são agora uma parte central do arsenal ativista, imbuindo a oposição de uma aura que ajuda a quebrar a cultura do medo inoculada pelo regime, provocando suas reações, que diminuem sua legitimidade.

Evidentemente, só porque o riso na luta não violenta é hoje comum, não significa que seja fácil. Ao contrário, o "risotivismo" requer uma corrente contínua de criatividade para permanecer em noticiários, manchetes e tuítes, além de manter o ímpeto de um movimento. Sem criatividade e sagacidade, o "risotivismo" pode esmorecer antes de as ambições de um movimento serem satisfeitas. E sem disciplina e julgamento sólido, a zombaria pode rapidamente descambar para o caos e a violência.

Mas quando ele funciona, funciona mesmo. No caso do barril detido na Sérvia, o que pode ter parecido ato isolado de humor logo se mostrou uma corrente, inspirando ativistas por todo o país. Não demorou para o Otpor se transformar num movimento nacional com 70 mil membros. Uma vez rompida a barreira do medo, Milosevic não poderia pará-lo. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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