David Ryder/Getty Images/AFP
David Ryder/Getty Images/AFP

Por que é tão difícil esvaziar os locais de incêndio nos EUA em meio à pandemia

Meio milhão de pessoas já tiveram de deixar suas casas na Costa Oeste dos Estados Unidos, que vive incêndios de proporções históricas

Redaçaõ, O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2020 | 14h13

CALIFÓRNIA - Não era a primeira vez que Leanna Mikesler abandonava sua casa devido a um incêndio florestal: ela mora nas montanhas da Califórnia, cada vez mais devastadas pelas chamas. Em toda a Costa Oeste dos Estados Unidos, ao menos 500 mil pessoas tiveram de abandonar suas casas nos últimos dias para fugir de fogos devastadores

Mas em uma pandemia isso é "10 vezes mais difícil", disse a mulher aposentada enquanto passeava com seu cachorro em um abrigo para animais de estimação habilitado pela Cruz Vermelha em Clovis, no centro do Estado mais populoso dos EUA. 

Com o marido e os documentos mais importantes, ela abandonou a casa pela segunda vez desde que se mudou para Meadow Lakes, na Sierra National Forest, onde ocorre o incêndio de Creek, que começou há quatro dias e já consumiu 66 mil hectares. 

Em toda a Califórnia, há mais de 20 focos estão ativos e o fogo já consumiu no decorrer do ano 12.500 quilômetros quadrados, um recorde desde o início das estatísticas em 1987.

"Quando a ordem de sair de casa for suspensa, poderemos ver se ela não pegou fogo", disse Mikesler. Ela comentou que, pelo que viu nas imagens aéreas, os bombeiros estão tentando preservar Meadow Lakes até com aviões e helicópteros. 

Como o oficial de justiça os notificou no sábado por meio de alto-falantes para abandonar o local, ela agora mora em um quarto de hotel com tarifa subsidiada porque o típico albergue com centenas de leitos alinhados lado a lado não é viável com a pandemia - que só na Califórnia matou 13.841 pessoas.

"Temos mais de 600 pessoas em hotéis desde o início da emergência", explicou Cindy Huge, porta-voz da Cruz Vermelha em um centro para desabrigados localizado em uma escola secundária. “Eles recebem três refeições ao dia, lanche e água".  

Procurando onde dormir

David Mascarini, 69, estava desorientado, sem saber o que fazer, após os incêndios. Foi a primeira vez que ele ficou "na rua". "Estou procurando um lugar para dormir, estou com minha esposa e meu cachorro", disse o homem de cabelos grisalhos que mora em Auberry, perto de Meadow Lakes.

O hotel onde passaram a primeira noite não tinha quartos. Por isso, foram à Cruz Vermelha, que em março elaborou o novo protocolo para tempos de pandemia, visualizando uma situação como esta.

"Não sei se minha casa aguentou. Limpei os arbustos ao redor da propriedade, espero que tenha funcionado", disse. Muitas das comunidades localizadas próximas das montanhas viraram cidades-fantasma com o avanço do fogo. 

A destruição é difícil de descrever e os prejuízos ainda impossíveis de calcular nos estados da CalifórniaOregon e Washington. Os bombeiros não conseguem ter acesso a algumas áreas e as chamas são atiçadas pelas temperaturas elevadas e ventos secos.

Em Shaver Lake, outra das áreas afetadas, o que antes eram residências agora eram montes de entulho. "Nós simplesmente largamos tudo", disse Sandy Clark, 68, convencida de que "nunca" se mudaria de North Fork, nem mesmo com o perigo crescente desses incêndios. " O mesmo disse Mikesler e Mascarini. "Somos pessoas da montanha", concordaram eles.

Pressão para os bombeiros

A Califórnia tem mais de 14 mil bombeiros destacados para mais de duas dezenas de incêndios florestais, com alguns deles movendo-se de um incêndio para outro. O condado de Santa Bárbara, por exemplo, tinha várias equipes de bombeiros destacadas para o norte da Califórnia, depois para o condado de Los Angeles, no sul, e depois novamente para o norte.

“Eles ficaram fora por três semanas para combater após incêndio após incêndio”, disse Mike Eliason, oficial de informação pública do Corpo de Bombeiros do Condado de Santa Bárbara.

"Está ficando triste que todos os anos tenhamos essa conversa. Dizemos que este é o maior ano e, no ano seguinte, dizemos que este é o maior ano". / Com AFP e NYT 

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