Por que eles ainda nos odeiam?

Ameaça do Estado Islâmico tem origem no mundo árabe e não tem nada a ver com o Islã

FAREED, ZAKARIA, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

08 de setembro de 2014 | 02h04

Ao ver os pavorosos vídeos de execução do Estado Islâmico (EI), senti emoções parecidas com as que tive no 11 de Setembro. O objetivo da barbárie é provocar o ódio, e ela conseguiu. Mas em setembro de 2001, ela também me levou a fazer uma pergunta: "Por que eles nos odeiam?".

Tentei responder num ensaio de quase 7 mil palavras para a Newsweek que mexeu com alguns leitores. Reli o ensaio para ver onde acertei e onde errei e o que aprendi nos últimos 13 anos.

Não é apenas a Al-Qaeda. Comecei a notar que o terror islâmico não é o comportamento isolado de um punhado de niilistas. Há uma cultura mais ampla que tem sido cúmplice ou, ao menos, sem disposição de combatê-lo. As coisas mudaram nesse âmbito, mas não o suficiente. Não se trata de um problema do Islã, mas árabe.

No início dos anos 2000, a Indonésia era nossa maior preocupação em razão de uma série de ataques terroristas ali após o 11 de Setembro. Mas ao longo da última década, a jihad e mesmo o fundamentalismo islâmico, não prosperaram na Indonésia - o maior país muçulmano do mundo, maior do que Iraque, Síria, Egito, Líbia e os Estados do Golfo juntos.

Observem a Índia, que está bem ao lado do quartel-general de Ayman al-Zawahiri, mas pouquíssimos de seus 165 milhões de muçulmanos são membros da Al-Qaeda. Zawahiri anunciou um esforço ousado para recrutar muçulmanos indianos, mas eu creio que ele fracassará.

O ponto central do ensaio era que a razão para o mundo árabe produzir fanatismo e a jihad era a estagnação política. Em 2001, quase todas as partes do mundo experimentavam um progresso político significativo - Leste Europeu, Ásia, América Latina e até África realizaram muitas eleições livres e limpas. Mas o mundo árabe permaneceu um deserto. Em 2001, a maioria dos árabes tinha menos liberdades do que em 1951.

O único aspecto da vida que os ditadores árabes não podiam proibir era a religião, de modo que o Islã tornou-se a linguagem da oposição política. À medida que as ditaduras seculares e ocidentalizadas do mundo árabe fracassavam - politicamente, economicamente e socialmente - os fundamentalistas disseram: o Islã é a solução.

Opções. O mundo árabe foi deixado com ditaduras de um lado e grupos de oposição profundamente iliberais do outro - Hosni Mubarak ou Al-Qaeda. Quanto mais extremado o regime, mais violenta a oposição. Esse câncer era mais profundo e mais destrutivo do que eu percebi.

Apesar da remoção de Saddam Hussein do Iraque e a despeito da Primavera Árabe, essa dinâmica entre ditadores e jihadistas não foi quebrada.

Vejam a Síria, onde até recentemente Bashar Assad estava realmente ajudando o EI, comprando petróleo e gás do grupo e bombardeando seus adversários do Exército Sírio Livre quando os dois se enfrentavam. Assad estava jogando o velho jogo de ditador, dando a seu povo uma escolha simples - ele ou o EI. E muitos sírios (a minoria cristã, por exemplo) o escolheu.

O maior retrocesso foi no Egito, onde um movimento islamista não violento conquistou o poder e desperdiçou sua chance ao abusar dele. Mas não contente em deixar a Irmandade Muçulmana afundar nas pesquisas de opinião, o Exército egípcio desalojou-a pela força e retornou ao poder.

Hoje, o Egito é um Estado policial mais brutal do que era no tempo de Mubarak. A Irmandade foi banida, seus membros mortos ou presos, o restante empurrado para a clandestinidade. Esperemos que daqui a 10 anos não estejamos discutindo a ascensão do EI no Egito.

Em branco. O que eu não percebi naquele ensaio 13 anos atrás? A fragilidade desses países. Não reconheci que, se as ditaduras vacilassem, o Estado podia desmoronar, que por baixo do Estado não havia uma sociedade civil e, aliás, nenhuma verdadeira nação. Quando o caos imperou no Oriente Médio, as pessoas buscaram não suas identidades nacionais - iraquiana, síria -, mas identidades mais antigas - xiita, sunita, curda e árabe.

Eu deveria ter dado mais atenção a meu mentor no curso de graduação, Samuel Huntington, que certa vez explicou que os americanos nunca reconheciam que no mundo em desenvolvimento a chave não é o tipo de governo - comunista, capitalista, democrático, ditatorial -, mas o "grau" de governo. É essa ausência de governo que estamos vendo hoje, da Líbia ao Iraque e à Síria.

Em uma coluna anterior, reportei incorretamente que 70% dos comandantes de batalhões do Iraque foram substituídos durante o reforço das tropas americanas em 2007. Segundo o ex-funcionário do governo citado na coluna, 70% dos comandantes de batalhões de comandos policiais do Iraque foram substituídos, não os do Exército em geral. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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